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A crise das Narrativas no mundo contemporâneo

  • carlospessegatti
  • 28 de mar. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 27 de jun. de 2025



A crise das narrativas no mundo contemporâneo, como aponta Byung-Chul Han, é um fenômeno que se manifesta em diversos âmbitos – cultural, político, social e tecnológico. Antes, as grandes narrativas estruturavam nossa compreensão do mundo e serviam como pilares de coesão social. Hoje, vivemos o colapso dessas narrativas, substituídas por fragmentação, imediatismo e uma avalanche de informações desarticuladas.


1. A Morte da Grande Narrativa e o Hiperindividualismo


Jean-François Lyotard já apontava, em A Condição Pós-Moderna, que a descrença nas grandes narrativas era uma característica central do nosso tempo. Narrativas como as do Iluminismo, do progresso, do comunismo ou mesmo das grandes religiões perdem sua força agregadora. Isso resulta em um mundo onde a verdade não é mais compartilhada, mas pulverizada em microdiscursos que competem por atenção.


Essa dissolução da narrativa se relaciona com o hiperindividualismo contemporâneo. As redes sociais, longe de criar uma esfera pública coesa, fragmentam ainda mais os discursos, pois cada indivíduo se torna produtor de micro-histórias personalizadas, frequentemente desconectadas de uma narrativa maior. Assim, a experiência do coletivo é enfraquecida, dando lugar a bolhas de interpretação e à lógica da personalização algorítmica.


2. A Fragmentação da Informação e a Pós-Verdade


O digital substituiu a narrativa linear pelo fluxo incessante de dados e estímulos. No passado, a transmissão de conhecimento se dava pela oralidade ou por textos que exigiam reflexão e continuidade. Hoje, estamos imersos em um turbilhão de fragmentos descontextualizados. As informações são consumidas de forma rápida, volátil e superficial, gerando um ambiente de pós-verdade onde a emoção e o engajamento importam mais do que a veracidade ou a coesão da narrativa.


Essa fragmentação impede a construção de visões de mundo consistentes. Se antes a propaganda política precisava de um discurso estruturado e um projeto de longo prazo, hoje basta uma sequência de memes e manchetes sensacionalistas para moldar percepções.


3. O Poder das Narrativas e o Papel das Big Techs


Se Marx já apontava que as ideias dominantes são as da classe dominante, hoje podemos dizer que as narrativas dominantes são as das Big Techs e das grandes potências que controlam os fluxos informacionais. O chamado soft power, que antes era exercido principalmente pelos Estados através da cultura e diplomacia, agora se concentra nas plataformas digitais.


As Big Techs moldam o consumo de informação através dos algoritmos. Eles determinam o que será visto, o que será compartilhado e quais narrativas terão mais força. Isso cria um novo tipo de hegemonia: não apenas econômica, mas simbólica e cognitiva. Os impérios digitais não apenas vendem produtos, mas formatam a maneira como pensamos e interpretamos a realidade.


A guerra narrativa, portanto, não é apenas entre Estados, mas entre corporações que competem pelo controle da atenção e da percepção global. Quem domina o fluxo informacional pode influenciar eleições, fomentar polarizações e consolidar padrões de consumo e comportamento.


4. A Narrativa Como Ferramenta de Controle e Poder


Narrativas sempre foram um instrumento de poder. Os impérios do passado se construíram sobre mitos nacionais e grandes épicos que legitimavam sua dominação. Hoje, as potências contemporâneas operam de forma semelhante, mas com ferramentas mais sofisticadas.

  • Narrativas neoliberais: O discurso da meritocracia e do empreendedorismo individual sustenta a estrutura de desigualdade e desmobiliza a luta coletiva.

  • Narrativas tecnológicas: O tecno-otimismo promove a ideia de que a tecnologia, por si só, resolverá os problemas da humanidade, sem questionar as relações de poder que ela reforça.

  • Narrativas de polarização: A manipulação das redes sociais fomenta conflitos e extremismos, dificultando consensos e alimentando um ambiente de caos controlado.


Governos, corporações e grupos de interesse disputam essas narrativas, e a ausência de uma grande história unificadora torna o terreno fértil para o caos informacional.


5. Para Onde Caminhamos? A Pós-Narrativa e a Resistência


Se estamos em uma era pós-narrativa, o desafio é compreender como reconstruir discursos que resgatem a coesão sem cair em dogmatismos. Isso significa questionar a lógica algorítmica que nos fragmenta e buscar espaços onde a narrativa ainda possa ser um fio condutor de sentido.


Algumas possibilidades:

  • Resgatar narrativas que enfatizem a coletividade e a solidariedade, contrapondo-se ao hiperindividualismo e à alienação digital.

  • Construir novos espaços de reflexão, onde o pensamento crítico possa se desenvolver sem a tirania do imediatismo.

  • Desenvolver narrativas alternativas que desafiem o domínio das grandes corporações sobre a informação.


Em suma, a crise das narrativas não é apenas um sintoma do nosso tempo, mas um campo de batalha onde o futuro da cultura, da política e da sociedade está sendo disputado. A questão que fica é: conseguiremos criar novas grandes narrativas ou permaneceremos presos à fragmentação e ao controle algorítmico?

 
 
 

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