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A Era do Vazio, de Gilles Lipovetsky

  • carlospessegatti
  • 21 de abr. de 2025
  • 3 min de leitura



Por Atena Cybele


Uma leitura do individualismo contemporâneo e suas reverberações no século XXI


Publicado originalmente em 1983, A Era do Vazio – Ensaios sobre o Individualismo Contemporâneo tornou-se uma obra referencial para compreender os processos culturais, sociais e subjetivos que marcam a transição da modernidade clássica para o que Gilles Lipovetsky denomina de "pós-modernidade". Trata-se de uma coletânea de ensaios que dissecam a mutação silenciosa das estruturas coletivas, do imaginário social e da construção do eu.


A despolitização do sujeito e o novo individualismo


Logo em seu primeiro ensaio, Lipovetsky denuncia o esvaziamento das grandes narrativas e ideologias mobilizadoras. O novo sujeito não é mais um agente transformador coletivo. Surge um individualismo desengajado, que rejeita responsabilidades históricas e é movido por uma busca pessoal por prazer, bem-estar e autenticidade. Trata-se de um individualismo "light", centrado na gestão da própria vida, nas emoções e na liberdade de escolher estilos.


Esse novo ethos rompe com a lógica do sacrifício em prol do bem comum. O eu passa a ser projeto, consumo e performance. A política é substituída pelo estético e pelo terapêutico. O mundo interior ganha prioridade frente à esfera pública.


Tanatocracia: a morte sob controle


Um dos conceitos mais originais e provocativos do livro é o de tanatocracia. Trata-se da forma como as sociedades contemporâneas lidam com a morte: não mais como ritual público, mas como algo higiênico, escondido, anestesiado.


Se antes a morte era um momento de exposição coletiva, hoje é vivida no silêncio dos hospitais, fora do espaço social. A cultura publicitária e o culto à juventude eterna criam um imaginário onde a finitude é evitada, mascarada, estetizada. A tanatocracia não é o fim da morte, mas sua gestão simbólica e institucional.


No contexto atual, tal conceito ganha novas camadas: redes sociais recheadas de "perfis memoriais", transmissões ao vivo de tragédias, estetização de lutos, e o paradoxo de um mundo que esconde a morte mas a consome como conteúdo.


Narcisismo e subjetividade de vitrine


Dialogando com autores como Christopher Lasch, Lipovetsky afirma que o narcisismo é o traço dominante da subjetividade contemporânea. Não mais patologia, mas norma cultural. O sujeito busca validar-se na imagem, na performance de si, na aprovação dos outros.


Esse narcisismo é alimentado por uma cultura que valoriza o corpo, o sucesso, a aparência, a juventude, a leveza. O eu torna-se marca, vitrine, perfil. O interior é moldado pelo exterior. A subjetividade vira um palco.


A sedução como forma de poder


Lipovetsky rompe com a visão foucaultiana de uma sociedade organizada pela repressão. Na pós-modernidade, não se impõe a norma pela força, mas pela sedução. A leveza, a superficialidade e o prazer são os novos vetores de adesão. A moda, a publicidade, os estilos de vida e o entretenimento ditam condutas mais do que leis ou dogmas.


Esse regime de sedução se manifesta com força hoje nas redes sociais, onde a imagem vale mais que o discurso, o engajamento é emocional e instantâneo, e a política se estetiza.


Um oráculo do contemporâneo


Apesar de ter sido escrito nos anos 1980, A Era do Vazio parece descrever com precisão o universo digital atual:

  • O Instagram como vitrinizacão do eu;

  • A cultura do cancelamento como ritual de purga narcisista;

  • A obsolescência do tempo histórico, substituído pelo fluxo do feed;

  • O narcisismo performático, onde a identidade se dissolve em likes e imagens.


Lipovetsky não lamenta a pós-modernidade, mas a observa. Reconhece seus ganhos em liberdade individual, mas aponta o risco da indiferença, da desmobilização e do vazio simbólico.


Diálogos filosóficos

  • Com Zygmunt Bauman, dialoga na constatação de uma modernidade líquida, fluida, onde os vínculos são efêmeros.

  • Com Byung-Chul Han, antecipa a ideia de uma sociedade do cansaço e da autoexploração, sob a aparência da liberdade.

  • Com Guy Debord, converge ao perceber a estetização da vida, a espetacularização do real.



A Era do Vazio é uma obra que nos convida a pensar os silêncios da cultura contemporânea. Seu mérito é não oferecer soluções ou apelos morais, mas uma cartografia sensível do modo como vivemos, sentimos e morremos na contemporaneidade.


Para artistas, pensadores, educadores e todos que se interrogam sobre o tempo presente, o livro permanece como uma lâmina crítica e atual. Em tempos de hipervisibilidade e hiperconexão, talvez o vazio descrito por Lipovetsky não seja apenas um diagnóstico, mas um espelho.





 
 
 

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