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A Máquina que Nos Vê: A Expropriação da Experiência Humana na Era do Capitalismo de Vigilância

  • carlospessegatti
  • 14 de abr. de 2025
  • 6 min de leitura



Uma análise crítica da obra de Shoshana Zuboff e sua contribuição para pensar o sujeito na era da extração comportamental


Na esteira das grandes transformações do capitalismo global, a pesquisadora e filósofa social Shoshana Zuboff, em A Era do Capitalismo de Vigilância, diagnostica um novo regime de acumulação que se estrutura não mais sobre a extração de recursos naturais ou a exploração do trabalho físico, mas sobre a apropriação da experiência humana. O que está em jogo, segundo Zuboff, é a transformação da nossa vida íntima, cotidiana, emocional e comportamental em matéria-prima para algoritmos que preveem, moldam e comercializam o futuro do comportamento humano.


Zuboff nomeia esse novo arranjo como capitalismo de vigilância: um sistema que opera pela captura massiva de dados pessoais — muitas vezes sem consentimento — para construir modelos preditivos sobre nossas ações. A promessa, vendida como “personalização” ou “melhoria de serviços”, oculta o que de fato está acontecendo: uma mutação estrutural no modo como o capitalismo opera e gera valor.


A autora distingue esse fenômeno de tudo o que já conhecíamos no capitalismo informacional: não se trata apenas de usar dados, mas de uma forma inteiramente nova de poder — o que ela chama de poder instrumentariano.


Esse poder não visa a repressão direta nem se ancora em ideologias visíveis; ele atua nos bastidores, silenciosamente, moldando o campo das possibilidades de ação. O sujeito contemporâneo, ao usar plataformas digitais, torna-se duplamente sujeito: agente e objeto de um processo contínuo de extração, previsão e modulação.


Um novo panóptico sem muros


Inspirando-se em Michel Foucault e, ao mesmo tempo, indo além, Zuboff mostra como o novo regime de poder não precisa mais da vigilância ostensiva. Trata-se de um panoptismo descentralizado, algorítmico, automatizado, em que cada gesto deixa rastros e cada rastros se torna mercadoria. A vigilância deixou de ser apenas um mecanismo estatal e tornou-se mercado, uma indústria autônoma de previsão comportamental.


Nesse cenário, empresas como Google, Facebook, Amazon e Microsoft não apenas observam: elas intervêm nas condições da ação. Os dados extraídos não são utilizados apenas para saber o que fazemos, mas para influenciar o que faremos. A promessa da inteligência artificial — “entender o mundo melhor” — desvela-se, aqui, como o projeto de colonizar o futuro: conhecer para prever, prever para controlar, controlar para lucrar.


A subjetividade capturada: o sujeito como resíduo


Do ponto de vista filosófico, a análise de Zuboff convoca uma reflexão sobre o que significa ser sujeito na era digital. A experiência interior — antes espaço de elaboração, contradição e criação — transforma-se em resíduo informacional, redutível a padrões e estatísticas. O eu fragmentado pós-moderno, que já era tensionado pela fluidez contemporânea, agora é triturado por uma máquina que não tolera opacidades.


Este não é apenas um problema político ou econômico, mas ontológico: o sujeito está sendo reformulado como um feixe de dados úteis, um vetor de previsibilidade. A liberdade, neste cenário, deixa de ser ausência de coerção para se tornar a capacidade de escapar aos modelos preditivos, de retomar a opacidade e a imprevisibilidade da existência.


Para além da resistência: reinvenção do comum


A proposta de Zuboff não é apenas descritiva ou alarmista. Ela reivindica a urgência de novas formas de regulação democrática, de resistência institucional, mas também cultural e filosófica. A crítica ao capitalismo de vigilância é, em última instância, um chamado à reconquista do espaço psíquico, social e político da experiência humana, hoje capturado por dispositivos que prometem liberdade e oferecem predição.


Tal crítica ressoa com os pensamentos de autores como Byung-Chul Han, com sua “sociedade da transparência”; Alain Deneault, com a crítica ao gerenciamento da vida; e mesmo com a tradição marxista que denuncia a alienação — agora reformulada como despossessão digital.


Zuboff nos oferece, assim, um marco teórico imprescindível para pensarmos a contemporaneidade: uma nova gramática do poder e do capital, que exige de nós não apenas denúncia, mas imaginação política e filosófica radical.


PARTE 2


A Máquina que Nos Vê (Continuação)


Entre Marx, Benjamin e Morin: A expropriação da experiência como desfiguração do sujeito contemporâneo


1. Marx e a nova forma de mais-valia: da fábrica ao dado


Zuboff aponta que o capitalismo de vigilância não é uma continuidade natural do capitalismo industrial, mas uma mutação paradigmática. No entanto, sua estrutura ainda repousa sobre a lógica da extração e da acumulação, o que permite colocá-la sob as lentes do pensamento marxista. Marx, ao teorizar sobre a mais-valia, identificou o cerne da acumulação capitalista na expropriação do tempo de trabalho vivo do proletariado.


Na era da vigilância digital, o trabalhador formal cede lugar ao usuário como fonte de valor. Cada gesto, clique, deslocamento ou hesitação no scroll é transformado em matéria-prima para a geração de lucro — uma espécie de trabalho não remunerado que se dá em regime de vigilância contínua.


Assim como a alienação do trabalhador industrial se dava na separação entre o sujeito e o produto de seu trabalho, agora o sujeito se vê alienado de sua própria experiência vivida, que é capturada, quantificada e revendida sem qualquer forma de controle. Estamos diante de um proletariado comportamental, onde a experiência psíquica e emocional é a nova mercadoria.


"O sujeito digital se tornou força produtiva sem saber. A consciência da exploração foi obscurecida por uma estética da participação."(Aproximação conceitual entre Zuboff e Marx)


2. Benjamin e o empobrecimento da experiência: a barbárie do dado


Walter Benjamin, ao refletir sobre a modernidade em Experiência e Pobreza (1933), já denunciava a perda da experiência transmissível, aquela que se constitui no entrelaçamento das vivências humanas com o tempo histórico e com a memória. Ele vê o sujeito moderno como empobrecido, incapaz de narrar ou elaborar o mundo que vive.


Zuboff, quase um século depois, revela que essa perda se intensificou, mas com uma nova mediação: os sistemas algorítmicos não apenas empobrecem a experiência — eles a desfiguram. A subjetividade passa a ser cartografada em tempo real, reduzida a vetores de predição, e perde o seu caráter narrativo e simbólico.


Benjamin acreditava que a técnica, embora capaz de emancipar, também poderia produzir choque, fragmentação da percepção e esvaziamento da aura da experiência. No capitalismo de vigilância, esse processo é automatizado: o choque não é mais perceptível, pois está embutido em interfaces sedutoras, que maquiam a violência da extração.


“O que se perde é o silêncio interior, o espaço da escuta e da elaboração. A experiência se torna estatística, e o sujeito, um reflexo de seus dados.”(Aproximação entre a crítica de Benjamin à modernidade e Zuboff ao capitalismo digital)


3. Morin e a complexidade do sujeito: da auto-organização à despossessão


Edgar Morin, com sua proposta do pensamento complexo, recusa as simplificações lineares e destaca a interdependência entre sujeito, sociedade, cultura e técnica. Sua crítica ao paradigma da hiperespecialização e da fragmentação do saber encontra eco direto na obra de Zuboff, que denuncia como o capitalismo de vigilância reduz o sujeito a categorias pré-formatadas, que ignoram sua complexidade.


Morin propõe que o ser humano é ao mesmo tempo biológico, psíquico, social, histórico e cósmico. O capitalismo de vigilância, ao contrário, tenta converter esse ser multifacetado em um conjunto de sinais digitais previsíveis, reconfigurando o campo da ação humana para fins de lucro.


Há uma ruptura da ecologia da experiência: o mundo vivido — incerto, contraditório, criativo — é substituído por mundos calculáveis, operados por algoritmos que eliminam a incerteza, justamente o terreno fértil da criação e da liberdade.


“A complexidade do sujeito é incompatível com a lógica da predição. A vigilância é o avesso da auto-organização.”(Articulação entre o pensamento moriniano e a crítica de Zuboff ao poder instrumentariano)


Rumo à reinvenção do humano


Em tempos de ubíqua interconectividade e automação do comportamento, pensar a obra de Zuboff à luz de Marx, Benjamin e Morin é também um convite à repolitização do futuro. Trata-se de recuperar o que está sendo expropriado: a opacidade da existência, o direito ao silêncio, à surpresa, ao erro e à não-previsibilidade.


Se o capitalismo de vigilância tenta automatizar o porvir, nosso desafio, como pensadores, artistas e criadores, é reintegrar a dimensão incontrolável da vida humana. A arte, nesse contexto, permanece como um dos últimos redutos de imprevisibilidade, onde o dado ainda não venceu o gesto criativo.



 
 
 

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