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A Música do Futuro em 2001 - Uma Odisseia no Espaço: Como Stanley Kubrick e György Ligeti anteciparam a sonoridade dos sintetizadores no cinema

  • carlospessegatti
  • 24 de fev. de 2025
  • 3 min de leitura



György Ligeti foi um dos mais inovadores compositores do século XX, e sua obra atravessou diversas vertentes da vanguarda musical. Nascido em 1923, na Hungria, ele desenvolveu um estilo que mesclava complexidade rítmica, micropolyphonia e texturas sonoras inconfundíveis. Durante sua carreira, transitou por diferentes experimentações, e uma de suas fases mais marcantes foi sua incursão na música eletrônica, especialmente quando trabalhou no Estúdio de Colónia ao lado de Karlheinz Stockhausen, na década de 1950.


No Estúdio de Colónia, centro das inovações da música eletrônica europeia, Ligeti explorou novas formas de organização sonora que fugiam da tradicional harmonia tonal. Ali, ele compôs obras como Glissandi (1957) e Artikulation (1958), que consistem em massas sonoras densas e fluidez timbrística, antecipando texturas que seriam aprofundadas em suas composições instrumentais futuras. Apesar de seu interesse pela música eletrônica, Ligeti logo se afastou da produção puramente eletrônica, preferindo desenvolver suas ideias em contextos instrumentais e corais.


Sua obra ganhou uma visibilidade inesperada em 1968, quando Stanley Kubrick utilizou, sem autorização, algumas de suas composições em 2001: Uma Odisseia no Espaço. Duas peças particularmente marcantes no filme são Atmosphères(1961) e Lux Aeterna (1966).


Kubrick, com sua abordagem inovadora, escolheu uma trilha sonora que contrastava com a sonorização tradicional do cinema de ficção científica. Em vez de utilizar uma partitura original criada especificamente para o filme, como era comum na época, ele optou por selecionar obras pré-existentes que dialogavam com a grandiosidade e mistério do cosmos. O silêncio, os longos planos e a ausência de uma trilha tradicional deram a 2001 um caráter hipnótico e imersivo.


A escolha de Atmosphères e Lux Aeterna foi certeira: essas peças de Ligeti possuem uma sonoridade etérea, densa e suspensa no tempo, criando uma sensação de infinito e vastidão que ressoa perfeitamente com as imagens do espaço profundo.


O compositor, contudo, não foi consultado e se mostrou insatisfeito ao saber que suas obras foram usadas sem sua autorização. Apesar disso, a associação entre sua música e a obra-prima de Kubrick tornou-se icônica.


O que chama a atenção é que Kubrick, ao criar esse universo cinematográfico em 1968, antecipou uma estética sonora que hoje é comum na música eletrônica e na criação de paisagens sonoras com drones e pads. Nos dias atuais, produtores utilizam sintetizadores avançados e algoritmos de geração de texturas para criar sensações de imensidão, algo que Ligeti conseguiu realizar apenas com instrumentos acústicos e vozes. Seu método de composição, baseando-se em massas sonoras interpenetrantes, era uma forma análoga ao que mais tarde se desenvolveria no âmbito da música eletrônica espacial e ambiental.


Assim, podemos dizer que 2001: Uma Odisseia no Espaço não apenas introduziu o público a um novo tipo de narrativa cinematográfica, mas também ajudou a consolidar uma nova forma de experiência musical, na qual o som, ao invés de acompanhar a ação, tornava-se a própria atmosfera do filme. Em uma época onde os sintetizadores estavam apenas começando a surgir, Kubrick soube encontrar na vanguarda clássica de Ligeti uma ponte entre a sonoridade orgânica e o futuro da música.


Ligeti, com suas criações que evocam o mistério e a vastidão do universo, tornou-se, sem querer, um dos pioneiros de uma estética que hoje associamos à música espacial e eletrônica. E Kubrick, por sua vez, ao perceber o potencial imersivo dessas sonoridades, antecipou em 2001 o impacto que o som teria nas artes audiovisuais nas décadas seguintes.



Lux Aeterna


Atmospheres




 
 
 

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