A Nona Sinfonia de Beethoven: A Ascensão da Humanidade em Quatro Movimentos
- carlospessegatti
- 3 de abr. de 2025
- 4 min de leitura

Entre o Silêncio e o Clímax: A Jornada Sonora de um Gênio Surdo
Quando Ludwig van Beethoven estreou sua Sinfonia nº 9 em Ré menor, Op. 125 em 1824, ele ofereceu ao mundo não apenas uma obra monumental, mas um marco intransponível na história da música ocidental. Uma sinfonia que transborda grandiosidade, inovação e espírito humano. Mais do que uma mera sucessão de notas, a Nona se impõe como uma experiência transcendental, na qual Beethoven, já totalmente surdo, ousa sintetizar sua visão utópica da humanidade.
I - Allegro ma non troppo, un poco maestoso: O Chamado da Destinação
A abertura da Nona Sinfonia é como a aurora de um novo cosmos. Em um início misterioso, as cordas sussurram um pianíssimo quase etéreo, estabelecendo um espaço sonoro indefinido. Como uma matéria primordial ganhando forma, os motivos musicais emergem lentamente, até que a orquestra explode em uma torrente de força avassaladora. O primeiro movimento, estruturado na forma-sonata, é uma batalha entre tensão e resolução, onde Beethoven já estabelece o caráter monumental da obra.
A orquestra avança com uma energia inexorável, alternando entre explosões de fúria e instantes de suspensão, como se estivesse narrando a própria jornada humana entre o caos e a ordem. As figuras rítmicas incisivas conferem um caráter heroico à música, enquanto os momentos líricos oferecem respiros de contemplação. O movimento não encerra com uma resolução tradicional, mas sim com uma espécie de colapso, preparando o ouvinte para os próximos atos dessa epopeia sonora.
II - Molto vivace: O Movimento do Inexorável
O segundo movimento surge como uma tempestade rítmica implacável. Beethoven inverte a estrutura convencional de uma sinfonia ao colocar o scherzo antes do movimento lento, aumentando a tensão narrativa da obra. Este movimento é pura pulsação, um jogo implacável de forças em que as células rítmicas dançam de maneira obstinada, desafiando qualquer previsibilidade.
O ritmo incisivo, sustentado por ostinatos das cordas e das madeiras, desenha uma coreografia quase mecânica, uma engrenagem de energia incessante. O trio, em contraste, surge como um respiro pastoral, oferecendo uma breve visão de serenidade antes que o movimento retome seu caráter impetuoso. Beethoven constrói aqui um jogo de tensões e resoluções que prenunciam o grandioso final da sinfonia.
III - Adagio molto e cantabile: A Serenidade Antes da Tempestade
Se os dois primeiros movimentos são marcados por conflito e vigor, o terceiro movimento emerge como um oásis de pureza e introspecção. O Adagio molto e cantabile é um dos momentos mais sublimes de toda a obra de Beethoven. Com melodias expansivas e uma orquestração diáfana, o compositor constrói um espaço sonoro onde o tempo parece se diluir, permitindo que a alma do ouvinte se eleve a uma dimensão de pura contemplação.
Os cantábiles das cordas, intercalados por diálogos serenos entre as madeiras e os sopros, criam um efeito hipnótico. Aqui, Beethoven parece buscar um espaço metafísico, um refúgio onde o espírito humano possa se reconciliar consigo mesmo antes da grande explosão que está por vir. O movimento termina em um silêncio expectante, uma pausa suspensa no tempo que precede o clímax da sinfonia.
IV - Presto – Allegro assai: O Coral da Humanidade
Após quase uma hora de expectativa, o momento mais aguardado chega. O quarto movimento começa de maneira abrupta, como um cataclismo sonoro. A orquestra ruge com uma intensidade esmagadora, como se questionasse o próprio sentido da música que veio antes. É então que Beethoven executa um gesto inovador: ele faz com que os violoncelos e contrabaixos citem temas dos movimentos anteriores, rejeitando-os em seguida. Esse diálogo instrumental simboliza uma busca por algo novo, um caminho ainda não trilhado.
Eis que surge a melodia da Ode à Alegria, inicialmente apresentada pelas cordas em um tom suave e quase frágil, como uma semente lançada ao solo. Aos poucos, ela se desenvolve e cresce, até que a voz humana finalmente entra em cena, dando vida aos versos de Friedrich Schiller:
"Freude, schöner Götterfunken, Tochter aus Elysium!"
O momento é histórico: pela primeira vez, uma sinfonia incorpora vozes em sua estrutura. Beethoven rompe as barreiras entre os gêneros e faz da música um veículo direto de sua mensagem humanista. O coral, carregado de fervor, exalta a fraternidade universal, proclamando uma visão utópica onde todos os homens são irmãos, unidos por um ideal sublime.
A progressão do movimento final é avassaladora. Cada entrada do coro e da orquestra amplia a grandiosidade da melodia, culminando em uma fuga exaltada e em uma coda arrebatadora, onde a música se eleva ao máximo de sua potência expressiva. O final é um triunfo absoluto, uma apoteose em que Beethoven nos convida a acreditar na força da arte como uma redenção para a humanidade.
Epílogo: O Legado de uma Sinfonia Universal
A Nona Sinfonia não é apenas um monumento musical, mas um testemunho da resiliência de um gênio que, mesmo privado da audição, conseguiu escutar dentro de si uma música que ecoaria para sempre. Mais do que uma sinfonia, ela é um manifesto sonoro que transcende seu tempo, inspirando gerações e reafirmando a capacidade da arte de elevar o espírito humano.
Quando a última nota ressoa e o silêncio se instala, percebemos que não se trata apenas do fim de uma obra-prima, mas do início de um novo horizonte para a música e para a humanidade.
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No vídeo abaixo, assistimos a uma cena do filme O Segredo de Beethoven no momento em que Richard Harris, que foi ator que interpretou o famoso compositor, aparece regendo pela primeira vez a Nona Sinfonia sendo auxiliado pela sua jovem escriba Anna Holtz.
Esta personagem, de fato, não existiu. Ela é uma ficção. O filme mostra que na apresentação de estreia desta magnífica sinfonia, Beethoven, já quase completamente surdo, teria sido auxiliado pela sua ajudante para realizar esta tarefa, e este teria sido, segundo o filme, o seu grande segredo.
Aqui vemos a Nona Sinfonia, que tem aproximadamente uma hora e sete minutos de duração, sendo condensada em pouco mais de dez minutos. O momento em que o coral entra é simplesmente arrebatador.
Na verdade, a Nona Sinfonia, foi apresentada pela primeira vez em 7 de maio de 1824, no Kärntnertortheater, em Viena, na Áustria. Quem de fato a conduziu neste dia foi o regente Michael Umlauf, que também era o diretor musical do teatro, e Beethoven — dissuadido da regência pelo estágio avançado de sua surdez — teve direito a um lugar especial no palco, junto ao maestro.



Fragmento do filme "O segredo de Beethoven" Muito bonito!