A Perda da Transmissão Oral e o Vazio da Modernidade: Uma Análise a Partir de Byung-Chul Han
- carlospessegatti
- 17 de mar. de 2025
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A transmissão oral das histórias e tradições sempre desempenhou um papel central na construção das identidades culturais e na preservação dos saberes ancestrais. Os povos antigos utilizavam a oralidade como um vínculo sagrado entre as gerações, garantindo que as experiências, mitos e conhecimentos acumulados ao longo dos séculos fossem compartilhados e reinterpretados por cada nova geração. No entanto, com a ascensão da modernidade e das tecnologias digitais, esse modelo de transmissão entrou em colapso, levando à fragmentação do sentido de continuidade histórica e comunitária.
Byung-Chul Han, em sua obra "O Desaparecimento dos Rituais", analisa esse fenômeno como parte de um declínio mais amplo das práticas que conferem estabilidade simbólica e cultural à vida humana. Para Han, a transmissão oral estava intrinsecamente ligada aos rituais, que não apenas asseguravam a perpetuação das tradições, mas também estabeleciam uma relação de pertencimento e reconhecimento entre os membros de uma comunidade. Sem esses rituais, o tempo se torna disperso e a experiência de continuidade é substituída por uma cultura do efêmera e do instantâneo.
O Esvaziamento do Sentido e a Era Digital
A modernidade tecnológica impõe uma nova forma de comunicação baseada na rapidez e na superficialidade. A oralidade, que exigia um encontro físico e emocional entre os envolvidos, dá lugar a interações mediadas por telas e algoritmos. Nessa nova paisagem, a memória coletiva se esvai, pois a informação se torna fragmentada, desconectada da experiência vivida e dos laços intergeracionais. Han aponta que essa perda não é apenas uma mudança de meio comunicativo, mas uma transformação estrutural da subjetividade humana, que agora se orienta pelo consumo instantâneo de conteúdo, sem a profundidade necessária para construir sentido duradouro.
Sem a transmissão oral e os rituais que lhe conferiam legitimidade, os indivíduos se veem privados de um horizonte de significado compartilhado. Essa dissolução se reflete na falta de referências culturais sólidas e na substituição das tradições por uma cultura de massas moldada por interesses comerciais e algoritmos que privilegiam o efêmera. Assim, as narrativas que antes atravessavam as gerações são eclipsadas por uma inflação de dados sem conexão autêntica com a vivência comunitária.
Impactos na Construção da Identidade e no Laço Social
A perda da transmissão oral não apenas compromete a continuidade das tradições, mas também afeta diretamente a formação das identidades individuais e coletivas. Para Han, a subjetividade contemporânea se estrutura em torno de uma hiperindividualização, na qual os indivíduos se tornam consumidores solitários de informação, ao invés de participantes ativos de uma comunidade viva de memória e experiência compartilhada.
No passado, o ancião que narrava histórias não apenas transmitia informação, mas ensinava, de maneira simbólica e afetiva, como compreender o mundo e encontrar um lugar dentro dele. A ausência desse papel formador gera uma crise de pertencimento e um vácuo existencial que se manifesta no aumento da ansiedade e da depressão na sociedade contemporânea.
Possibilidades de Resistência e Resgate
Apesar desse quadro de dissolução, ainda existem possibilidades de resistência. O resgate da oralidade pode ocorrer através da valorização de espaços comunitários onde a transmissão de histórias e saberes seja incentivada. Isso pode se dar em movimentos culturais, na educação baseada na experiência ou até mesmo em novas formas de compartilhamento digital que resgatem a dimensão relacional e simbólica da palavra falada.
Por fim, a crítica de Byung-Chul Han nos convida a refletir sobre a importância de restaurar rituais e práticas que devolvam sentido ao tempo e à memória coletiva. Em um mundo dominado pela efemeridade, recuperar a profundidade da transmissão oral é, talvez, um dos caminhos mais urgentes para reencontrar nossa humanidade perdida.




Matérias interessantes e fascinantes. A oralidade que deu origem aos textos bíblicos é inconcebível nos dias atuais. Ravel é lindo demais!