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A Semiologia da Música: Signos, Sentidos e a Construção do Significado Sonoro

  • carlospessegatti
  • 9 de mar. de 2025
  • 4 min de leitura



Uma reflexão sobre os estudos semiológicos na música e sua influência na criação contemporânea



A música, desde tempos imemoriais, tem sido um veículo de expressão e comunicação. Mas como ela constrói significado? Como um conjunto de sons organizados pode transmitir emoções, narrativas e conceitos? A resposta está na semiologia da música, um campo de estudo que investiga os signos musicais e seus efeitos no ouvinte. A partir de estudos de teóricos como Jean-Jacques Nattiez e Luiz Tatit, além das bases da semiótica de Charles Sanders Peirce e Ferdinand de Saussure, podemos entender a música como um sistema de signos complexo e multifacetado.


A Música como Sistema de Signos


A Semiótica, ciência dos signos, nos ensina que todo signo é uma entidade que representa algo para alguém em determinado contexto. A partir dessa premissa, podemos olhar para a música como um campo de significação, onde os sons organizam-se em estruturas que comunicam algo além de sua materialidade acústica.


Peirce definiu três categorias fundamentais de signos: ícone, índice e símbolo. A música pode assumir essas três funções: ser icônica quando imita sons naturais (como os sintetizadores que reproduzem ruídos do cosmos), ser indicial quando remete a estados emocionais (como a tensão gerada por acordes dissonantes), e ser simbólica quando é vinculada a convenções culturais (como escalas e harmonias específicas de determinados gêneros).


Saussure, por outro lado, ao definir signo como a relação entre significante (a forma) e significado (o conceito), nos permite entender como a música se constrói dentro de sistemas de regras que estabelecem associações entre sons e sentidos. Esse pensamento é crucial para entender a estruturação de estilos musicais e sua recepção cultural.


A Música é uma Linguagem?


Uma das grandes questões da semiologia musical é se a música pode ser considerada uma linguagem. A linguagem verbal possui unidades mínimas de significado, como fonemas, morfemas e palavras, que estruturam um sistema de comunicação baseado na relação entre significante e significado. Mas será que a música possui essas mesmas características?


Para alguns estudiosos, a música compartilha aspectos estruturais com a linguagem verbal, como a sintaxe e a organização hierárquica das frases musicais. Teóricos como Leonard B. Meyer argumentam que a música pode ser entendida como um sistema de expectativas e resoluções, funcionando de maneira semelhante à gramática de uma língua. No entanto, diferentemente da linguagem verbal, a música não opera com significados fixos e não é necessariamente referencial.


Outros pensadores, como Jean Molino e Nattiez, argumentam que a música não é uma linguagem no sentido estrito, mas sim uma forma de organização simbólica com propriedades próprias. A música seria uma linguagem poética, mais próxima da metáfora e da evocação do que da denotação direta. Nesse sentido, sua estrutura seria mais fluida e aberta à interpretação subjetiva, sem uma correspondência fixa entre som e conceito.


Luiz Tatit, ao analisar a canção popular, propõe que a música e a linguagem verbal se interpenetram quando a melodia reforça ou transforma o significado das palavras. No entanto, quando pensamos na música puramente instrumental, sua significação não se dá através de conceitos pré-determinados, mas sim por meio de afetos e sensações construídas no tempo.


Semiologia Musical: A Abordagem de Nattiez e Tatit


Jean-Jacques Nattiez, um dos principais estudiosos da semiologia musical, propõe uma tripla abordagem para a análise do signo musical: o nível poético (relacionado ao processo de criação), o nível neutro (a estrutura da obra em si) e o nível estético (a recepção pelo ouvinte). Essa abordagem mostra que o significado da música não está apenas na intenção do compositor, mas também na forma como a música é percebida e interpretada por diferentes ouvintes.


No Brasil, Luiz Tatit investiga a canção popular a partir de uma perspectiva semiótica. Para ele, a canção é um híbrido entre melodia e palavra, onde os elementos musicais e linguísticos interagem para construir significados singulares. Tatit observa que a prosódia da língua influencia as melodias e que a forma como uma palavra é cantada pode transformar sua percepção semântica.


Impacto da Semiologia na Criação Musical Contemporânea


O estudo da semiologia musical tem um impacto direto na produção de música experimental e eletrônica. Quando se trabalha com sintetizadores, drones, pads e texturas ambientais, a significação sonora se amplia para além das convenções tonais da música ocidental. O compositor pode explorar não apenas as notas e harmonias, mas também os timbres, as frequências e as relações entre os sons e o silêncio para gerar sensações específicas.


A música que exploro hoje, baseada na interseção entre ciência e arte, encontra na semiologia um campo fértil para experimentações. Ao compreender como os ouvintes constroem significados a partir de padrões sonoros, posso manipular elementos para evocar atmosferas, narrativas e sensações que transcendem a linguagem verbal. Sons que remetem ao cosmos, ruídos do vácuo, frequências que ressoam com a consciência humana — tudo isso pode ser compreendido dentro de uma perspectiva semiológica.


Assim, o estudo da semiologia musical não é apenas uma investigação teórica, mas uma ferramenta essencial para quem deseja expandir os limites da criação musical. Ao compreender os signos sonoros e sua recepção, podemos criar experiências auditivas mais profundas e significativas, transportando o ouvinte para paisagens sonoras onde a música não é apenas som, mas um sistema de significação que dialoga com a alma humana.


 
 
 

1 comentário


Convidado:
09 de mar. de 2025

É fascinante o estudo da semiologia. A música como forma de expressão e comunicação com as almas.

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