A Teoria do Absurdo em Albert Camus e O Mito de Sísifo
- carlospessegatti
- 21 de fev. de 2025
- 3 min de leitura

A obra O Mito de Sísifo, publicada em 1942 pelo escritor e filósofo argelino Albert Camus, é um dos pilares do pensamento existencialista, ainda que seu autor tenha se distanciado dessa denominação. No livro, Camus investiga a questão do absurdo e propõe uma resposta filosófica à falta de sentido da existência.
O Absurdo e a Busca por Sentido
Camus parte de uma constatação fundamental: o ser humano deseja encontrar sentido na vida, mas o universo não oferece respostas satisfatórias. Vivemos em um mundo indiferente, silencioso diante das nossas angústias e questionamentos. Esse descompasso entre a necessidade humana de significado e a falta de um sentido objetivo na existência é o que Camus chama de "absurdo".
O absurdo nasce, portanto, da relação entre o homem e o mundo. Ele não está apenas no universo ou apenas na consciência humana, mas na tensão entre ambos. O universo, com sua imensidão e indiferença, não responde aos nossos anseios metafísicos. Diante dessa realidade, muitos recorrem a soluções tradicionais, como a religião ou sistemas filosóficos que tentam impor um sentido absoluto à vida. No entanto, para Camus, essas são fugas que mascaram o verdadeiro enfrentamento do absurdo.
O Mito de Sísifo e a Condição Humana
Para ilustrar sua tese, Camus recorre à mitologia grega e à história de Sísifo, o rei condenado pelos deuses a rolar uma enorme pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta ao ponto de partida, repetindo esse esforço por toda a eternidade. Sísifo se torna o arquétipo do homem moderno: sua tarefa é inútil, sem propósito último, e, ainda assim, ele deve continuar.
No entanto, Camus propõe uma interpretação revolucionária do mito. Ele sugere que, ao reconhecer o absurdo de sua condição e aceitá-la sem ilusões, Sísifo se torna livre. O instante em que ele desce a montanha, consciente de sua eterna repetição, é o momento da revolta. Camus encerra o ensaio com a célebre afirmação: "É preciso imaginar Sísifo feliz."
A Revolta como Resposta ao Absurdo
Se a vida não possui um sentido intrínseco e o universo é indiferente às nossas esperanças, como devemos viver? Camus rejeita o suicídio físico e também o que chama de "suicídio filosófico" – a aceitação de dogmas religiosos ou metafísicos que tentam impor um sentido fabricado à existência.
A resposta camusiana ao absurdo é a revolta. Revoltar-se contra o absurdo significa aceitá-lo plenamente, sem recorrer a ilusões, e continuar vivendo com paixão e intensidade. A consciência do absurdo não deve nos paralisar, mas sim nos impulsionar a criar nossa própria existência autêntica, mesmo sabendo que ela não possui um propósito absoluto.
O Absurdo na Arte e na Filosofia
As ideias de Camus influenciaram não apenas a filosofia, mas também a literatura, o teatro e outras formas de arte. O Teatro do Absurdo, por exemplo, com dramaturgos como Samuel Beckett e Eugène Ionesco, explora o vazio de sentido da existência de maneira irônica e muitas vezes trágica. Na música e na literatura, artistas de diversas vertentes se inspiraram na visão camusiana da vida como uma jornada sem justificativa última.
O pensamento de Albert Camus continua atual e relevante, especialmente em um mundo onde a busca por sentido se torna cada vez mais desafiadora. Ao invés de buscar respostas definitivas ou se entregar ao desespero, a filosofia do absurdo nos convida a aceitar a condição humana e a viver intensamente, mesmo diante da indiferença do universo.
No fim das contas, Sísifo não está derrotado – ele é o herói da sua própria existência. Ele se recusa a ceder ao niilismo e encontra uma forma de afirmar sua liberdade no próprio ato de viver.
E nós? Teremos a coragem de imaginar Sísifo feliz?




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