Aram Khachaturian e a dimensão filosófica que transcende tempo e espaço.
- carlospessegatti
- 25 de fev. de 2025
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A música de Aram Khachaturian carrega a força das montanhas da Armênia, a ressonância das estepes e a dramaticidade de um povo cuja história se entrelaça com mitos e tragédias. Seu estilo é visceral, apaixonado e monumental, e dentro de sua vasta produção, uma peça se destaca como um verdadeiro portal para o sublime: a Adagio de Spartacus e Phrygia, da suíte do balé Spartacus, e a icônica Dança do Sabre, da suíte Gayaneh. No entanto, é dentro do Adágio de Gayaneh, imortalizado por Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisseia no Espaço, que Khachaturian alcança uma dimensão filosófica que transcende tempo e espaço.
O Canto do Infinito: O Adágio de Gayaneh e a Condição Humana
A escolha de Kubrick para utilizar o Adágio de Khachaturian no filme não foi meramente estética, mas profundamente conceitual. A melodia se desenrola com uma lentidão solene, cada nota ecoando como um passo cuidadoso na imensidão cósmica. Em 2001, a peça acompanha as cenas da nave Discovery One cruzando o vácuo estelar, carregando a inteligência humana em sua jornada silenciosa e implacável rumo ao desconhecido.
Khachaturian compôs essa peça com uma carga emocional que evoca um senso de pequenez e reverência diante do infinito. A harmonia é ampla, espaçada, quase etérea, e ao mesmo tempo carregada de uma tristeza subjacente – como se a própria música lamentasse a fragilidade da humanidade diante da vastidão incomensurável do universo. Há um peso existencial ali, um reconhecimento de que, por mais que avancemos, sempre seremos um ponto insignificante na imensidão.
Khachaturian e a Expressividade Sinfônica
Aram Khachaturian nasceu em 1903, em Tbilisi, na Geórgia (então parte do Império Russo), filho de uma família armênia. Sua música, fortemente influenciada pelo folclore armênio, georgiano e persa, carrega uma identidade única dentro do universo da música clássica do século XX.
Ao contrário da austeridade de Shostakovich ou da complexidade cerebral de Stravinsky, Khachaturian apostava em melodias ricas, harmonias vibrantes e ritmos pulsantes. Seu objetivo não era apenas revolucionar a música erudita, mas torná-la acessível, conectando-a ao espírito do povo.
A suíte Gayaneh, composta para o balé homônimo em 1942, reflete esse ethos. O balé, ambientado na Armênia soviética, conta a história de uma jovem chamada Gayaneh, cuja lealdade e força moral são postas à prova em um contexto de traição e heroísmo. A música captura tanto a paixão humana quanto a vastidão da paisagem armênia, mas é no Adágio que Khachaturian nos leva para outro nível: uma contemplação do infinito.
A Música Como Espelho do Universo
Dentro do contexto de 2001: Uma Odisseia no Espaço, a música de Khachaturian ganha um novo significado. Kubrick, um mestre na relação entre som e imagem, entendeu que o Adágio de Gayaneh não era apenas uma bela melodia, mas uma experiência filosófica. O modo como a peça se desdobra lentamente, sem pressa, reflete a imensidão do espaço, onde o tempo deixa de ser humano e se torna cósmico.
Ao ouvir essa música no contexto do filme, sentimos um deslocamento – como se fôssemos tragados para uma perspectiva em que a existência humana parece insignificante diante da vastidão estelar. Há uma solidão inerente ali, mas também uma estranha beleza: a aceitação de que o universo é indiferente, mas que dentro dessa indiferença, a consciência humana brilha como uma pequena centelha de significado.
A Eternidade em Notas
A música de Aram Khachaturian, especialmente o Adágio de Gayaneh, é um lembrete de que a arte pode alcançar dimensões que a ciência sozinha não consegue tocar. Ele traduziu em notas a emoção do infinito, o peso da existência e a fragilidade do ser humano diante da vastidão do cosmos. Ao ser ressignificada por Kubrick, essa peça se tornou um hino ao mistério da vida, uma trilha sonora para a contemplação da eternidade.
O que torna essa música tão profunda é sua capacidade de nos fazer sentir ao mesmo tempo minúsculos e imensos. Minúsculos porque somos apenas poeira no cosmos; imensos porque somos capazes de sentir, de contemplar, de criar.
Khachaturian nos deu uma peça que, como a própria jornada da Discovery One, atravessa o espaço e o tempo – uma música que ressoa na vastidão do universo, ecoando a grandeza e a insignificância da humanidade.



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