top of page
Buscar

As Moiras: Tecelãs do Destino e Guardiãs do Tempo

  • carlospessegatti
  • 6 de abr. de 2025
  • 3 min de leitura



Em meio às brumas da mitologia grega, surgem três figuras de poder silencioso e irrevogável: Cloto, Láquesis e Átropos. Conhecidas como as Moiras — ou, em sua versão romana, as Parcas — essas entidades não se colocam como guerreiras, nem como musas, tampouco como deusas da fertilidade ou da morte. Elas são mais do que isso: são a própria estrutura invisível que sustenta o curso da existência, os arquétipos eternos do tempo e do destino.


🔮 As Três Faces do Destino


Cada Moira desempenha um papel essencial na tapeçaria da vida:

  • Cloto (A Fiandeira): é ela quem segura o fuso da criação, fiando o fio da vida de cada ser que nasce. Representa o instante da origem, o primeiro sopro, o surgimento da consciência. Em termos simbólicos, Cloto é o momento em que algo se torna possível.

  • Láquesis (A Medidora): com seu bastão ou régua, ela mede o comprimento do fio, decidindo quanto tempo cada ser terá sob o céu. Láquesis representa a trajetória, o entrelaçamento dos encontros, as bifurcações do caminho. Em sua figura se condensam as ideias de necessidade, acaso e escolha.

  • Átropos (A Inflexível): é ela quem, ao final, corta o fio da vida, selando o destino com sua tesoura implacável. Representa o fim inescapável, o ponto final que não pode ser adiado nem negociado. Átropos é o símbolo da finitude, mas também da conclusão e da transcendência.


🕰️ As Moiras como Arquitetura do Tempo


As Moiras transcendem a ideia de "deusas" no sentido tradicional. Elas não intercedem; não se comovem; não mudam seus desígnios. São figuras pré-olímpicas, mais antigas que os próprios deuses do panteão grego. Há quem diga que nem mesmo Zeus, o todo-poderoso, poderia desafiar suas decisões. Elas não julgam: apenas executam a ordem profunda do cosmos.


Nesse sentido, as Moiras evocam uma metafísica do tempo: o tempo como estrutura e destino, não como sequência cronológica. Elas operam no que o filósofo francês Gaston Bachelard chamaria de “tempo vertical”, aquele que desce em profundidade na alma, em vez de correr na horizontal da história.


✂️ Determinismo e Liberdade


Na obra A República, de Platão, encontramos uma narrativa poderosa no Mito de Er, onde as Moiras estão ligadas à escolha das vidas futuras das almas reencarnadas. Láquesis surge como uma espécie de guardadora da memória e da justiça universal. O mito parece dizer que o destino é uma combinação de necessidade e escolha — uma coreografia entre liberdade relativa e uma estrutura maior, que ultrapassa o indivíduo.


Nesse ponto, as Moiras não simbolizam o “fatalismo cego”, mas um entrelaçamento cósmico entre o que nos é dado e o que fazemos com o que nos foi dado. Essa tensão entre liberdade e necessidade reverbera profundamente nas teorias modernas da complexidade, que tanto me instigam, e que vejo como pontes entre filosofia, ciência e arte.


🎼 As Moiras e a Música do Tempo


Na minha própria jornada artística, que transita entre o som cósmico, a especulação científica e a experiência sensível, vejo as Moiras como arquetípicas sintetistas do tempo sonoro.

  • Cloto seria o nascimento da nota, o som que se insinua no silêncio, a vibração primordial que inicia a composição.

  • Láquesis, o desenho harmônico e temporal, o compasso, a estrutura dos arpejos e drones que sustentam a peça.

  • Átropos, enfim, é o decaimento da frequência, o fade-out da existência, o corte do reverb, a última nota que ecoa e desaparece na eternidade.

Cada faixa que produzo é também uma tapeçaria moirática. O tempo, no som, é tecido, medido e cortado — e dentro desse ciclo, nossa escuta, como a vida, encontra o mistério e o sentido.


🌌 Parcas e Pós-Humanismo


No mundo contemporâneo — fragmentado, acelerado e ansioso pela imortalidade tecnológica — as Moiras nos lembram da beleza da finitude. Do valor de cada instante. Do caráter sagrado da medida. Em tempos de inteligência artificial e transumanismo, sua presença se ergue como uma advertência simbólica: não há algoritmo que teça o destino com o mesmo poder das mãos invisíveis das Moiras.


Talvez seja por isso que suas imagens tenham atravessado milênios, encontrando eco em todas as culturas que buscaram compreender o enigma do tempo e da existência. São, por excelência, figuras do eterno feminino na sua dimensão cósmica e trágica.



As Moiras são o fado, a partitura oculta, o entrelaçamento das causas e efeitos que moldam tudo o que vive. São o avesso do tempo que nos habita, silenciosamente. E quando Átropos corta o fio, não é o fim absoluto — mas o ponto de retorno, o fechamento de um ciclo que talvez se reinicie noutra dimensão.

Na música, na filosofia, na cosmologia e na arte, elas permanecem: fiando, medindo, cortando — e nos ensinando a escutar o tempo com reverência.







 
 
 

Comentários


Site de música

callerajarrelis electronic progressive music

callerajarrelis Electronic  Progressive Music

bottom of page