Autopoiesis como Gesto de Autorização: Para uma Estética da Criação de Si
- carlospessegatti
- 5 de abr. de 2025
- 7 min de leitura

Entre o Ser e o Fazer: o Espírito que se Autoriza a Existir
A palavra poiesis, de origem grega, não aponta apenas para o ato de produzir — mas para algo mais profundo, mais originário: a criação como surgimento do ser no mundo. Em sua raiz, poiesis é o nome dado à ação que tira algo do não-ser e o faz comparecer. É a força do artista, do poeta, do pensador — aquele que ousa dar forma ao que ainda não tem contorno. Quando unida ao prefixo auto, ela ganha uma potência ainda mais radical: a autopoiesis não é apenas a manutenção da vida; é o ato de criar-se como existência plena e significativa.
Na tradição da biologia sistêmica de Maturana e Varela, autopoiesis refere-se aos sistemas vivos que se autorregulam, se organizam e se produzem continuamente. Mas essa definição, embora crucial, ainda permanece no plano da funcionalidade.
A proposta aqui é ir além: entender a autopoiesis como um gesto de autorização interior, onde o ser humano, enquanto sujeito sensível e criador, autoriza-se a existir com sentido, a partir da criação de si mesmo como obra.
Nesse sentido, a autopoiesis não é uma mera técnica de manutenção, mas um processo poético e ético de insurgência existencial. Ela é o momento em que o indivíduo — enquanto ser inacabado e tensionado — se levanta contra a heteronomia dos sistemas sociais, econômicos e culturais que pretendem determinar seu lugar e seu valor.
Criar-se é Autorizar-se: uma Espiritualidade da Autonomia
A ideia de autorização aqui é crucial. Criar a si mesmo é, antes de tudo, autorizar-se. Não no sentido burguês e meritocrático da autoafirmação narcisista, mas no sentido profundo de quem reconhece em si uma centelha criadora e nela funda sua permanência no mundo. Trata-se de uma espiritualidade, sim — não no sentido religioso dogmático, mas como dimensão sutil e vibratória do ser que se reconhece como potência criadora.
Essa autopoiesis criadora é o contrário da repetição automatizada da vida cotidiana. É um grito silencioso contra a homogeneização do sujeito pela indústria cultural, contra o esvaziamento de sentido provocado pela aceleração contemporânea. Em tempos de algoritmos e inteligência artificial, criar-se tornou-se um ato subversivo, talvez o último território da liberdade: não apenas criar arte, mas ser arte. E isso é autopoiesis em seu estado mais sublime.
Do Ser Máquina ao Ser Obra: o Chamado à Singularidade
Em um mundo que nos quer engrenagens, a autopoiesis é resistência. Somos levados a funcionar — mas criar-se não é funcionar: é abrir fissuras no regime do previsível, do útil, do performático, e permitir que o inesperado aconteça em nós. Ser autopoiético, neste contexto, é recusar o ser-para-o-outro enquanto função, e assumir o ser-para-o-mundo enquanto gesto poético.
Nesse sentido, podemos dizer que a autopoiesis é o que resta de humano em um mundo pós-humano. É o que escapa. O que não pode ser capturado por métricas, índices, rentabilidades. É a vibração que ecoa no silêncio entre dois acordes, a textura invisível que dá vida a uma imagem, o pensamento que irrompe onde não havia conceito.
Autopoiesis e Arte: A Criação como Devir-Espírito
No campo da música em que trabalho — onde o som encontra o cosmo, onde o ruído se transmuta em vibração cósmica — a autopoiesis encontra sua expressão mais elevada. O artista autopoiético não compõe para o mundo, mas com o mundo, em coemergência. Ele não traduz sentimentos, ele cria atmosferas que autorizam o sentir. Em vez de buscar reconhecimento externo, ele se inscreve como processo. Ele é a obra e o operário, o eco e a fonte.
Essa música — que se autoriza — não depende de tendências ou algoritmos. Ela emana de um ponto de contato entre interioridade e cosmos, entre subjetividade e vibração universal. Ao criar, o artista autopoiético não produz apenas sons — produz-se a si mesmo como presença viva, como espírito em expansão.
Individuação e Autopoiesis: A Visão de Simondon
Gilbert Simondon (1924–1989) foi um pensador francês cuja obra só começou a ser amplamente reconhecida nas últimas décadas. Ele propôs uma revolução silenciosa na maneira como entendemos a constituição dos seres vivos, das máquinas, e sobretudo do sujeito. Para Simondon, o indivíduo não é uma substância pronta, mas sim um processo em constante individuação. Ou seja, somos sempre em vias de nos tornar — jamais acabados.
Esse pensamento ecoa de forma impressionante a ideia de autopoiesis que aqui propomos: ser é tornar-se, é diferenciar-se continuamente sem perder a coesão do processo. A individuação simondoniana acontece em relação com o mundo, num campo que ele chama de pré-individual — um fundo de potencialidades ainda não realizadas. O sujeito, portanto, não é algo isolado, mas uma rede de ressonâncias entre o dentro e o fora, entre o eu e o mundo.
A autopoiesis, sob a lente de Simondon, não é apenas auto-organização, mas também auto-individuação em ressonância com um campo de forças. Isso nos leva à ideia de que autorizar-se a existir é sintonizar-se com esse campo pré-individual, extrair dele formas, sons, pensamentos — e instaurar algo novo no mundo. O artista, o pensador, o criador, portanto, são aqueles que não apenas “têm ideias” ou “fazem obras”: são aqueles que emergem junto com elas, que se produzem como singularidades no ato de produzir.
No mundo da técnica — tema central em Simondon — ele aponta para o perigo da separação entre o humano e o técnico, o que leva à alienação. Ele propõe a reintegração dos indivíduos com os processos técnicos através de uma relação transindividual, que liga o sujeito ao coletivo sem dissolver sua singularidade. Isso é autopoiesis em chave estética: criar é também desalienar-se da máquina, tornar-se sujeito da própria técnica, da própria vida.
Marx e a Alienação: A Autopoiesis como Contra-Alienação
O pensamento marxista, especialmente nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, descreve a alienação do trabalhador sob o capitalismo. Alienado do produto do seu trabalho, do processo produtivo, de sua essência como ser criativo e dos outros homens, o trabalhador torna-se uma espécie de engrenagem num sistema que o consome.
Nesse contexto, a autopoiesis — enquanto criação de si — aparece como uma forma de insurreição poética contra a alienação. Se o capitalismo retira do sujeito sua capacidade de criar-se e viver com sentido, a autopoiesis exige o contrário: que se autorize a si mesmo como centro criador, mesmo sob o jugo das estruturas.
Mais que autonomia, a autopoiesis aqui se torna um ato de libertação ontológica: ela recupera o que Marx chamou de essência genérica do homem, sua capacidade de transformar o mundo e a si mesmo criativamente. O artista autopoiético é, portanto, um ser des-alienado, pois não terceiriza o sentido da vida a nenhuma instância exterior. Ele o fabrica, o tece, o escava do invisível.
Enquanto o trabalho alienado reduz o homem a instrumento, a criação autopoiética o devolve a si mesmo como obra e autor, sujeito e processo. E isso, num mundo marcado pela reprodução serial da vida, é profundamente político.
Autopoiesis como Ética Estética da Existência
Combinando as lentes de Simondon e Marx, podemos afirmar que a autopoiesis — compreendida como gesto de autorização criadora — não é apenas um conceito biológico, mas um paradigma de existência. Um modo de estar no mundo que recusa tanto a servidão do sistema quanto a neutralidade estética.
Criar-se a si mesmo como obra é um ato de resistência ontológica, um caminho de individuação e desalienação que reconecta o sujeito à sua força germinal.
Essa perspectiva oferece, para os artistas, pensadores, músicos e seres sensíveis como eu, uma cosmogonia da criação. A obra não é apenas algo que se faz: é um lugar onde se habita, um território autopoiético onde o espírito se atualiza em forma, som, textura e vibração.
Como dizia Nietzsche: "Torna-te quem tu és."Simondon e Marx talvez dissessem: "Autoriza-te a emergir da tua própria potência criadora."E eu, com meus sons cósmicos e atmosferas vibratórias, já faço do mundo uma escultura sonora de autopoiesis.
Autopoiesis e Ananke: Da Criação Espontânea à Programação do Destino
Na cosmogonia grega, Ananke é a deusa da necessidade, da força inexorável do destino. Ela é anterior aos deuses olímpicos e simboliza a compulsoriedade da existência: o que tem que ser será, independentemente da vontade ou escolha.
Ananke é a lei do cosmos, da fatalidade estrutural.
Evgeny Morozov, em suas críticas à sociedade digital, especialmente em livros como "To Save Everything, Click Here", mostra como o impulso solucionista tecnológico promove uma nova forma de controle algorítmico da vida, onde a liberdade é substituída por otimização. O algoritmo passa a saber mais de você do que você mesmo. Decide o que você verá, o que vai desejar, onde clicar, como andar, com quem falar.
Essa sociedade do dado e do cálculo, que Morozov denuncia, não se impõe como repressão explícita — mas como oferta de conveniência. Uma nova Ananke, vestida de interface e eficiência, oferece um destino tão inescapável quanto os fios de Cloto, Láquesis e Átropos. Só que agora, o destino é probabilístico, modelado por big data e aprendizado de máquina.
Autopoiesis como Ressurgência do Imprevisível
É aqui que a autopoiesis se impõe como uma forma de ruptura ética e estética com esse fatalismo digital. Se Ananke representa o encadeamento necessário dos eventos — seja pelo mito, seja pelo algoritmo —, a autopoiesis representa o surgimento do novo, do singular, do não-programável. A criação que não deriva de uma norma nem de um cálculo, mas de uma força de diferenciação interna.
Nesse sentido, o ser autopoiético resiste à captura algorítmica, porque ele não opera com base em padrões, mas em desvios. Ele não repete dados, ele instaura mundos. Assim como Deleuze diria que a arte é a criação de uma “percepção não humana do mundo”, podemos dizer que a autopoiesis é a afirmação de uma subjetividade que não pode ser prevista nem totalmente modelada.
Do Controle Digital à Autorização Poética: Uma Nova Ética da Técnica
O que eu proponho em Ananke da Informação e Controle Digital é justamente essa tensão entre:
um mundo automatizado, retroalimentado por sistemas fechados, que tentam eliminar o erro, o ruído, a falha, e
uma existência criadora, que vê no ruído a abertura do novo, no erro a poesia, na falha o espaço da reinvenção.
A autopoiesis, nesse sentido, não nega a técnica, mas se recusa a ser por ela absorvida. Ela propõe uma outra técnica — uma técnica existencial, poética, onde o criador não responde a uma demanda externa, mas escuta a vibração interna do ser em individuação. É o contrário do solucionismo: é o problematismo criador.
Autopoiesis como Anti-Ananke Algorítmica
Assim, podemos dizer que:
A autopoiesis é a insurreição do imprevisível contra a tirania da previsão.
Enquanto a nova Ananke digital transforma o mundo em um modelo que apenas simula o real, a autopoiesis reinscreve o real como potência de emergência, como ato de tornar-se fora das condições determinadas. Ela nos autoriza a negar o destino, a reabrir o tempo, a restaurar o possível.
É, portanto, uma ética de resistência criadora, que não busca escapar do mundo técnico, mas reencantar a técnica como expressão do ser vivo em criação.



Comentários