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DA TELEVISÃO ÀS REDES SOCIAIS: A FABRICAÇÃO DA CONSCIÊNCIA NA ERA DIGITAL

  • carlospessegatti
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura


Este texto dialoga fortemente com a trilogia que foi publicada nos últimos dias.


Se Almas Mortas fala da mercantilização do homem, O Grande Inquisidor fala do medo da liberdade e Pedagogia do Oprimido aborda a formação da consciência, este novo ensaio funcionaria como uma espécie de quarto capítulo que poderia ter como título:


"Da Sociedade do Espetáculo ao Capitalismo Algorítmico: a fabricação da consciência no século XXI."


Ele irá fechar um arco histórico que vai de Gogol e Dostoiévski até Freire, Debord, Byung-Chul Han e os dilemas da era digital.



Introdução: a nova questão do século XXI


O século XX foi o século da televisão.


O século XXI tornou-se o século dos algoritmos.


Entre ambos existe uma continuidade histórica: a disputa pela atenção humana.

Se a televisão produziu aquilo que muitos autores chamaram de "sociedade de massas", as redes sociais parecem ter inaugurado algo ainda mais profundo: a colonização da subjetividade.


Hoje, bilhões de indivíduos carregam em seus bolsos dispositivos capazes de registrar desejos, opiniões, medos, afetos, hábitos de consumo, posicionamentos políticos e relações pessoais. Nunca a humanidade produziu tanta informação sobre si mesma. Nunca esteve tão conectada. E talvez nunca tenha experimentado tamanha fragmentação social.


A grande pergunta contemporânea não é apenas quem controla os meios de produção, como perguntava Marx, mas quem controla a produção das consciências.


A televisão e a sociedade de massas

A televisão consolidou-se após os anos 1950 como o principal instrumento cultural do capitalismo avançado.


Pela primeira vez na história, milhões de pessoas passaram a assistir simultaneamente às mesmas imagens, às mesmas narrativas e aos mesmos acontecimentos.


Theodor Adorno e Max Horkheimer, da Escola de Frankfurt, anteciparam esse fenômeno ao desenvolverem o conceito de Indústria Cultural.


Para eles, a cultura transformou-se em mercadoria.


Filmes, músicas, programas e notícias passaram a ser produzidos industrialmente, gerando padronização dos gostos e dos comportamentos.

A diversão tornou-se continuação do trabalho.


O entretenimento passou a funcionar como mecanismo de adaptação social.


A televisão não precisava obrigar.

Ela seduzia.

Produzia consenso.

Construía desejos.

Naturalizava valores.


Guy Debord e a Sociedade do Espetáculo

Em 1967, Guy Debord publicou "A Sociedade do Espetáculo".


Sua tese tornou-se profética.


Segundo Debord:

"O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens."


A experiência direta da vida foi sendo substituída por representações.


O indivíduo deixou de viver para assistir.


Mais tarde, deixaria de viver para exibir.


O espetáculo não desapareceu com a televisão.


Ele apenas migrou para os smartphones.


Das massas às bolhas

A televisão criava uma audiência relativamente homogênea.


As redes sociais fragmentaram essa audiência em milhões de pequenos grupos.


Os algoritmos aprenderam rapidamente que a emoção produz mais engajamento do que a razão.

Raiva.

Indignação.

Medo.

Escândalo.

Humilhação.


Tudo isso gera cliques.

As plataformas não organizam o debate público.


Organizam a atenção.

E a atenção tornou-se a principal mercadoria do capitalismo digital.


Shoshana Zuboff e o capitalismo de vigilância

A socióloga Shoshana Zuboff desenvolveu o conceito de Capitalismo de Vigilância.


As grandes plataformas digitais descobriram que os dados humanos possuem enorme valor econômico.


Cada curtida.

Cada busca.

Cada pausa em um vídeo.

Cada fotografia.


Tudo se transforma em informação comercializável.


O usuário acredita estar utilizando gratuitamente uma plataforma.


Na realidade, ele próprio tornou-se o produto.


A economia digital passou a extrair comportamentos.

A prever comportamentos.

E, cada vez mais, a influenciar comportamentos.


George Orwell e o Big Brother digital

George Orwell imaginou, em "1984", um Estado que observava permanentemente seus cidadãos.


O século XXI produziu algo diferente.


Nós voluntariamente entregamos nossos dados.


Publicamos:

  • localização;

  • opiniões;

  • relações afetivas;

  • hábitos de consumo;

  • fotografias íntimas;

  • pensamentos cotidianos.


O Grande Irmão deixou de ser apenas estatal.


Tornou-se corporativo.


Algoritmos conhecem nossos desejos antes de nós mesmos.

A vigilância tornou-se invisível.


E, paradoxalmente, prazerosa.


Hannah Arendt e a destruição da realidade

Hannah Arendt observou que os regimes totalitários dependem da destruição da verdade factual.


Quando ninguém consegue distinguir verdade e mentira, a própria realidade se torna instável.


As fake news operam exatamente nesse terreno.


Não precisam convencer todos.


Basta criar dúvida.


Confusão.


Desorientação.


A consequência é a erosão da confiança social.


Sem fatos compartilhados, o debate democrático enfraquece.


Paulo Freire e a consciência crítica

Paulo Freire talvez ofereça uma das ferramentas mais importantes para compreender a era digital.


A conscientização torna-se fundamental.


O problema não é apenas receber informação.


É aprender a interpretar.


Questionar.


Contextualizar.


A educação crítica transforma-se numa espécie de alfabetização digital.

Hoje não basta saber ler.


É preciso saber interpretar algoritmos.

Identificar manipulações.

Compreender interesses econômicos.

Reconhecer estratégias de desinformação.


Byung-Chul Han e a sociedade do cansaço

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han afirma que o sujeito contemporâneo tornou-se simultaneamente explorador e explorado.


Nas redes sociais, o indivíduo trabalha gratuitamente.


Produz conteúdo.

Produz dados.

Produz atenção.

Produz vigilância.


Ao mesmo tempo, exibe-se continuamente.


A intimidade torna-se espetáculo.


A vida privada transforma-se em performance.


A sociedade disciplinar descrita por Michel Foucault cede lugar à sociedade do desempenho.

Não somos obrigados.

Nós nos expomos.


O desaparecimento do pudor

Durante séculos, a vida privada possuía fronteiras.

As redes dissolveram essas fronteiras.


Aquilo que antes pertencia ao espaço íntimo tornou-se conteúdo.

O sofrimento.

O luto.

A raiva.

As relações familiares.

As opiniões.

As emoções.


Tudo pode ser transformado em postagem.


A exposição tornou-se uma forma de existência.

Não aparecer pode significar desaparecer.


Polarização e tribalismo

As redes não apenas conectam.


Elas agrupam.


As bolhas informacionais reforçam crenças prévias.


Os algoritmos entregam conteúdos semelhantes aos já consumidos.


O diferente torna-se ameaça.


O adversário transforma-se em inimigo.


A política converte-se em guerra cultural.


A democracia, que depende do diálogo, encontra dificuldade para sobreviver em ambientes que recompensam o conflito.


Marx e a nova alienação

Marx descreveu a alienação do trabalhador industrial.


Hoje surge uma nova forma de alienação.


Não apenas o trabalho é capturado.


A atenção também.

O tempo livre também.

Os afetos também.

As relações sociais também.


A economia digital transforma emoções em mercadorias.

A subjetividade torna-se recurso econômico.

O capitalismo invade territórios que antes pertenciam à intimidade.


Existe saída?

A história mostra que nenhuma tecnologia determina sozinha o destino das sociedades.


As redes sociais também permitem:

  • democratização da informação;

  • produção cultural independente;

  • organização social;

  • educação;

  • divulgação científica;

  • circulação de obras artísticas.


O problema não está na tecnologia em si.


Está nos modelos econômicos, políticos e algorítmicos que a organizam.


Talvez a grande tarefa contemporânea seja reconstruir a capacidade crítica.

Ensinar a dúvida.

Ensinar a lentidão.

Ensinar a leitura.

Ensinar a escuta.

Ensinar o diálogo.


Da televisão ao algoritmo

A televisão produziu espectadores.


As redes sociais produzem participantes.

Mas nem toda participação significa autonomia.

Muitas vezes participamos de mecanismos que desconhecemos.


Se Adorno denunciou a indústria cultural, se Orwell alertou para a vigilância, se Debord descreveu o espetáculo e se Paulo Freire defendeu a consciência crítica, o século XXI parece reunir todos esses fenômenos simultaneamente.


Vivemos numa sociedade do espetáculo algorítmico.


Uma sociedade em que a informação circula em velocidade inédita.


Em que a verdade disputa espaço com a mentira.


Em que a intimidade torna-se pública.


Em que a vigilância se apresenta como liberdade.


Talvez a grande questão do nosso tempo seja simples:

Como preservar a autonomia da consciência numa época em que todos disputam nossa atenção?


A resposta permanece aberta.


Mas certamente ela passa pela educação crítica, pela cultura, pela arte e pela recuperação da capacidade de pensar lentamente em um mundo que exige reações instantâneas.





 
 
 

1 comentário


Convidado:
há um dia

Mesmo que a verdade dispute espaços com a mentira, a primeira sempre terá relações com aquilo que é, em oposição a segunda.

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