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DAVID BOHM E A CONSCIÊNCIA NÃO-LOCAL

  • carlospessegatti
  • há 1 dia
  • 5 min de leitura


A mente além do cérebro, a totalidade indivisível e o universo como fluxo de significado



O século XX produziu físicos extraordinários capazes de redefinir nossa compreensão do universo. Entre eles, poucos foram tão originais, heterodoxos e filosoficamente audaciosos quanto David Bohm. Discípulo crítico da mecânica quântica convencional, interlocutor do filósofo indiano Jiddu Krishnamurti e um dos pensadores mais profundos da relação entre mente, matéria e realidade, Bohm propôs uma ideia que ainda hoje desafia os pilares do pensamento científico dominante: a consciência não está confinada ao cérebro.


Esta afirmação pode soar, à primeira vista, como uma incursão no misticismo ou na metafísica especulativa. Contudo, em Bohm, ela nasce precisamente do coração da física moderna, especialmente das perplexidades abertas pela teoria quântica.


Durante décadas, a ciência cognitiva e a neurociência consolidaram uma visão relativamente consensual: a consciência seria um produto emergente da atividade neuronal. Em outras palavras, pensamentos, emoções, memória, autoconsciência e experiência subjetiva seriam gerados por complexos circuitos eletroquímicos ocorrendo dentro do cérebro.


Bohm não negava a importância do cérebro. O que recusava era a hipótese de que ele fosse a origem última da consciência.


Para ele, o cérebro se aproxima mais de um instrumento de manifestação, um mediador, um campo organizador por meio do qual algo mais profundo se expressa.


Uma analogia possível seria a do rádio. O aparelho produz o som que ouvimos, mas não cria a música transmitida. A música já circula num campo invisível de ondas; o rádio apenas a torna audível. De forma semelhante, a consciência, segundo Bohm, não seria fabricada pelo cérebro, mas revelada através dele.

Mas de onde ela emergiria?


A resposta de Bohm exige penetrarmos numa das arquiteturas conceituais mais fascinantes da filosofia da física contemporânea: sua teoria da ordem implícita.


A Ordem Implícita: o universo oculto da totalidade

Em sua obra seminal Totalidade e a Ordem Implícita, Bohm propõe que a realidade opera em dois níveis fundamentais.


O primeiro é a ordem explícita (explicate order), o mundo ordinário da experiência cotidiana. É o domínio da separação aparente: corpos distintos, objetos distintos, eventos distintos, indivíduos distintos.


Vivemos imersos nesta ordem. Nela, o mundo parece composto de fragmentos independentes: sujeito e objeto, mente e matéria, homem e natureza, eu e outro.


Mas Bohm argumenta que essa visão corresponde apenas à superfície do real.


Subjacente à ordem explícita existe uma dimensão muito mais profunda: a ordem implícita (implicate order), uma totalidade indivisível, dinâmica e continuamente enrolada em si mesma.


Nesta camada fundamental, nada existe de forma isolada.


Tudo está internamente relacionado.


Matéria, energia, espaço, tempo, pensamento e consciência seriam diferentes expressões emergentes de um mesmo fundamento ontológico compartilhado.


A metáfora do holograma, frequentemente utilizada por Bohm, ajuda a iluminar essa ideia. Num holograma, cada pequena parte contém informações sobre o todo. O fragmento não é verdadeiramente independente; carrega, em grau variável, a estrutura integral do conjunto.


Assim também seria o universo.


Aquilo que percebemos como entidades separadas poderia ser apenas um desdobramento parcial de uma unidade mais profunda e invisível.


Consciência não-local: a mente como onda de um oceano compartilhado

É precisamente dessa ontologia da totalidade que emerge a ideia radical de consciência não-local.


Se mente e matéria brotam do mesmo fundamento implícito, então a consciência não pode ser rigorosamente localizada dentro de um organismo biológico específico.


O que chamamos de “consciência individual” seria comparável a uma ondulação singular surgindo na superfície de um oceano vastíssimo.


A onda possui forma própria, movimento próprio, identidade aparente. Contudo, sua substância pertence integralmente ao oceano.


O “eu” existe.


Mas sua separação absoluta é uma ilusão produzida pelo nível superficial da experiência.


Na profundidade da ordem implícita, consciência e cosmos pertencem a um mesmo processo contínuo.


Essa perspectiva ecoa, de maneira surpreendente, tradições filosóficas antigas — do neoplatonismo ao Vedanta, do taoismo à fenomenologia da intersubjetividade — sem abandonar, contudo, seu compromisso com uma reflexão ancorada na física contemporânea.


Bohm não está simplesmente espiritualizando a ciência.


Ele está questionando a própria suposição moderna de que a realidade seja essencialmente composta por partes independentes.


Soma-significância: quando significado e matéria deixam de ser opostos

Uma das contribuições menos conhecidas — e talvez mais revolucionárias — de Bohm é seu conceito de soma-significância (soma-significance).


A palavra une duas dimensões tradicionalmente apartadas pela cultura ocidental:

soma (corpo, matéria, processo físico) e significado (sentido, interpretação, consciência).


Para Bohm, essa separação rígida é artificial.


Todo acontecimento físico carrega estruturas de significado.


Todo significado produz efeitos físicos.


Uma palavra ofensiva, por exemplo, não é apenas um arranjo abstrato de sons.


Ela desencadeia alterações hormonais, emocionais, musculares, cardiovasculares. O significado reorganiza o corpo.


Da mesma forma, alterações materiais no organismo reorganizam estados mentais, afetivos e cognitivos.


Na ordem implícita, mente e matéria não aparecem como substâncias radicalmente distintas, mas como aspectos mutuamente convertíveis de um único processo de realidade.


A velha fronteira cartesiana começa, então, a perder consistência.


O pensamento como ilusionista: a origem da fragmentação humana

Talvez o aspecto mais contemporâneo da obra de Bohm esteja em sua crítica ao funcionamento automático do pensamento.


Segundo ele, a mente humana desenvolveu uma extraordinária capacidade de produzir modelos, conceitos, narrativas e classificações.


O problema surge quando esquecemos que esses modelos são representações parciais.


O pensamento cria divisões úteis — na ciência, na linguagem, na organização social — e depois passa a tratá-las como se fossem a própria estrutura do real.


Assim nasce a fragmentação.


Nação contra nação.


Indivíduo contra indivíduo.


Humanidade contra natureza.


Razão contra emoção.


Ciência contra espiritualidade.


Eu contra mundo.


Para Bohm, essa fragmentação não é mero erro intelectual. Ela constitui uma das raízes profundas do sofrimento humano, dos conflitos sociais, da alienação psicológica e das crises civilizatórias contemporâneas.


A mente fragmentada projeta um universo fragmentado.


O Diálogo de Bohm: inteligência coletiva e suspensão das certezas

Diante desse impasse, Bohm não propunha simplesmente mais teoria.

Propunha uma prática.


Nasce daí seu famoso método do Diálogo.


Não se trata de debate, convencimento ou disputa argumentativa.


O Diálogo bohminiano é um experimento de investigação coletiva no qual os participantes suspendem temporariamente suas certezas, observam seus pressupostos ocultos e permitem o surgimento de um fluxo compartilhado de significado.


Em vez de defender posições, busca-se compreender os mecanismos do próprio pensamento em ação.


Nesse processo, algo singular pode emergir: uma inteligência coletiva não baseada na competição entre egos, mas numa atenção compartilhada ao movimento da consciência.


Para Bohm, nesses raros momentos, o grupo pode tocar — ainda que brevemente — a totalidade indivisível que sustenta toda experiência.


Uma cosmologia da interconexão

A visão de David Bohm permanece desconcertante porque desafia simultaneamente o materialismo simplificador e os dualismos clássicos.

Seu universo não é uma máquina fria observada por uma mente externa.


Nem a consciência é um fantasma aprisionado num cérebro biológico.

Ambos — mente e cosmos — emergem de um mesmo fundo implicado, contínuo, vivo e profundamente interconectado.


O observador não está separado do observado.


Ambos são movimentos de um único processo em permanente desdobramento.


Num tempo histórico marcado pela hiperfragmentação social, pela polarização cognitiva, pela saturação informacional e pela ruptura crescente entre humanidade e natureza, o pensamento de Bohm talvez seja mais atual do que nunca.


Sua pergunta permanece aberta — provocadora, incômoda e intelectualmente fértil:

e se a consciência não estiver dentro de nós?

E se nós estivermos dentro dela?


Referências

  • Wholeness and the Implicate Order — David Bohm, 1980.

  • The Undivided Universe — David Bohm & Basil J. Hiley, 1993.

  • On Dialogue — David Bohm, 1996.

 
 
 

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