Destrinchando as Contradições do Capitalismo segundo David Harvey: Uma Leitura Crítica e Atualizada
- carlospessegatti
- 4 de abr. de 2025
- 5 min de leitura

As 17 Contradições do Capitalismo de David Harvey é uma análise profunda das tensões internas do sistema capitalista, estruturadas em três categorias:
Contradições Fundamentais – aquelas que estruturam o próprio capitalismo.
Contradições Móveis – que surgem das dinâmicas do capital.
Contradições Perigosas – que ameaçam a própria sobrevivência do sistema e do planeta.
Resumo detalhado capítulo a capítulo:
1. O Valor de Troca e o Valor de Uso
Harvey começa distinguindo entre valor de uso (utilidade real de um bem) e valor de troca (quanto ele vale no mercado). O capitalismo privilegia o valor de troca, o que pode gerar crises quando as necessidades humanas são ignoradas em favor do lucro.
2. O Dinheiro e as Mercadorias
O dinheiro se torna um fim em si mesmo, descolando-se do valor de uso e criando um sistema financeiro autônomo, propenso a crises e especulação desenfreada.
3. A Propriedade Privada e o Estado Capitalista
O capitalismo depende da propriedade privada, mas sua defesa requer um Estado forte. Há uma tensão entre a necessidade de um Estado regulador e a ideologia neoliberal que prega a retirada do Estado da economia.
4. O Trabalho e o Capital
A relação entre trabalhadores e capitalistas é intrinsecamente exploratória. O capital precisa sempre reduzir salários e aumentar produtividade, mas isso pode levar a crises de consumo.
5. O Capital e o Trabalho Vivo
A automação e a mecanização reduzem a dependência do trabalho vivo, mas isso ameaça o próprio sistema, pois menos trabalhadores significam menos consumidores.
6. O Capital como Processo e as Crises Cíclicas
O capitalismo precisa crescer continuamente. Quando a taxa de lucro cai, o sistema entra em crise, resultando em recessões e instabilidade.
7. A Contradição do Crescimento Composto
O capitalismo depende de um crescimento infinito, mas os recursos do planeta são finitos, o que gera crises ecológicas e sociais.
Contradições Móveis: Como o Capitalismo se Reconfigura
8. Tecnologia, Trabalho e Desemprego
O avanço tecnológico reduz a necessidade de trabalhadores, mas gera crises de emprego e concentração de riqueza.
9. Divisão do Trabalho e Especialização
A hiperespecialização do trabalho aliena os trabalhadores e os torna mais vulneráveis às mudanças econômicas.
10. O Monopólio e a Concorrência
A promessa do capitalismo de promover competição livre é desmentida pela tendência ao monopólio e à concentração de riqueza.
11. A Expansão Geográfica do Capitalismo
O capitalismo se reinventa buscando novos mercados e mão de obra barata, criando novas zonas de exploração global.
12. A Produção de Necessidades e Desejos
O sistema cria artificialmente novas necessidades para manter o consumo, promovendo o hiperconsumismo.
13. Liberdade e Coerção
O capitalismo prega liberdade, mas ao mesmo tempo impõe coerção econômica e desigualdade.
Contradições Perigosas: Ameaças ao Sistema e à Humanidade
14. O Capitalismo e a Natureza
A destruição ambiental é uma consequência inevitável da lógica capitalista de extração e consumo ilimitado.
15. O Capitalismo e as Questões Sociais
As contradições do sistema geram desigualdade, exclusão e instabilidade social, podendo levar a revoltas e crises políticas.
16. Criatividade Destrutiva
O capitalismo gera inovação, mas de maneira caótica e destrutiva, muitas vezes gerando mais problemas do que soluções.
17. A Contradição Universal: A Crise do Capitalismo
Harvey conclui que o capitalismo se aproxima de um limite insustentável, e que sua superação é necessária para evitar catástrofes ambientais, sociais e econômicas.
Destrinchando as Contradições do Capitalismo segundo David Harvey: Uma Leitura Crítica e Atualizada
No livro As 17 Contradições e o Fim do Capitalismo, o geógrafo britânico David Harvey propõe uma das análises mais sistemáticas do sistema capitalista contemporâneo a partir de suas próprias fissuras internas. Dividindo as contradições em três grupos — fundamentais, móveis e perigosas — Harvey atualiza o pensamento marxista, situando-o frente às crises atuais do mundo globalizado, hiperconectado e marcado por profundas desigualdades.
A seguir, propõe-se um aprofundamento crítico dessas contradições, com conexões a outros autores marxistas e implicações concretas para a atualidade.
I. Contradições Fundamentais: A Arquitetura Interna do Capital
1. Valor de Uso vs. Valor de Troca
Esta contradição está no cerne do pensamento marxista: enquanto os bens deveriam atender necessidades humanas (valor de uso), no capitalismo eles são produzidos para circular e acumular valor (valor de troca).Marx já apontava esse dilema em O Capital, ao analisar a forma mercadoria como portadora de uma duplicidade estrutural. A sociedade capitalista desvia o sentido original da produção — o atendimento das necessidades — para um sistema que valoriza a mercadoria pela sua capacidade de gerar lucro.
2. Trabalho vs. Capital
O capital precisa do trabalho vivo para extrair mais-valia, mas busca constantemente eliminá-lo ou reduzi-lo por meio de tecnologias. A produção capitalista visa eficiência, produtividade e controle. Rosa Luxemburgo, Tronti e outros autores refletem sobre como o capital busca superar suas próprias bases, corroendo o trabalho ao mesmo tempo em que dele depende.As consequências disso são vistas no avanço da automação, na precarização via plataformas digitais e na chamada “uberização da vida”.
II. Contradições Móveis: A Dinâmica Adaptativa do Sistema
Tecnologia, Trabalho e Substituição
A constante inovação tecnológica, embora aparente progresso, produz também crises de superprodução, desemprego e desestruturação social.Autores como André Gorz anteciparam a problemática do "fim do trabalho" como identidade. O capital cria novas formas de controle: o trabalho imaterial, o empreendedorismo compulsório, a vigilância algorítmica.
A Contradição Urbana
Como geógrafo, Harvey dedica especial atenção ao espaço urbano. As cidades são, simultaneamente, palco e produto do capital. A especulação imobiliária, a privatização do espaço público e a gentrificação revelam a dimensão espacial das contradições.Henri Lefebvre, em sua crítica ao urbanismo capitalista, defende o “direito à cidade” como um ato de resistência — o direito de reinventar e reapossar-se do espaço vivido.
III. Contradições Perigosas: Os Limites da Reprodutibilidade do Capital
Natureza vs. Capital
O capitalismo extrai da natureza mais do que ela pode regenerar, transformando-a em mercadoria. Harvey aponta que a destruição ambiental é uma consequência inevitável do modelo.Autores como John Bellamy Foster aprofundam essa crítica ao falar da fissura metabólica — a separação entre os ciclos da natureza e os ciclos da produção capitalista. A crise ecológica, a emergência climática e os desastres ambientais são expressões vivas dessa contradição.
A Alienação Generalizada
Tudo, inclusive as relações humanas, torna-se mercadoria. A vida é mediada por valores abstratos, pela lógica do capital. Retomando Marx e o jovem Lukács, tem-se a reificação como fenômeno central: as pessoas tornam-se coisas, enquanto as coisas parecem ganhar vida.Na era das redes sociais, do capitalismo de vigilância e da economia da atenção, essa alienação atinge novos patamares. A subjetividade é colonizada por algoritmos, e a experiência sensível é absorvida pela lógica do consumo contínuo.
Caminhos Críticos: Perspectivas para a Superação
A crítica de Harvey não é apenas diagnóstica, mas também estratégica. Ao explicitar as contradições internas do capital, ele abre espaço para pensar saídas. Algumas possibilidades emergem:
Produção de contra-espaços: comunidades autônomas, redes colaborativas e espaços de criação que escapam da lógica capitalista.
Arte como resistência: expressões estéticas que revalorizam a escuta, a contemplação, a coletividade — formas sensíveis de resistência ao fluxo incessante da mercadoria.
Pensamento comum: autores como Dardot, Laval e Mascaro propõem a construção de uma racionalidade centrada no comum, na solidariedade e na superação da lógica do valor.
Ao destrinchar essas contradições, percebe-se que o capitalismo não é apenas um sistema econômico, mas uma racionalidade totalizante que reorganiza as formas de viver, perceber e sentir. A crítica marxista contemporânea, renovada por autores como Harvey, revela os limites dessa racionalidade e aponta para a urgência de imaginar outros mundos possíveis.




Comentários