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🔊 Edgard Varèse: O Som como Matéria Cósmica

  • carlospessegatti
  • 13 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura


O visionário que ouviu o futuro antes de ele existir


Por CALLERA


“O que estou procurando não são sons, mas a libertação do som.”— Edgard Varèse


Nascido em Paris, em 1883, e naturalizado norte-americano anos mais tarde, Edgard Varèse foi mais do que um compositor: foi um arqueólogo do inaudito, um escultor do invisível, um precursor radical que rasgou os limites da música ocidental e abriu caminho para as explorações eletroacústicas, eletrônicas e cósmicas que viriam no século XXI.


Em um tempo ainda preso à melodia tonal e ao romantismo orquestral, Varèse ousou imaginar uma música feita de massas sonoras, tensões espaciais, choques de energia e geometrias acústicas. Não por acaso, ele influenciaria diretamente nomes como Frank Zappa, Karlheinz Stockhausen, Iannis Xenakis e até músicos da cena eletrônica contemporânea.


🌐 Origens e Fraturas: a formação do ícone dissidente

Varèse cresceu entre a França e a Itália, estudando engenharia a pedido do pai, mas logo se rebelou para seguir o chamado da arte sonora. Passou pelos conservatórios de Turim e Paris, mas seu espírito inquieto não se contentava com os códigos tradicionais.


Chegando a Nova York em 1915, em meio à efervescência de um mundo em transição industrial e cultural, ele abandonou de vez as formas clássicas e começou a criar uma nova linguagem — uma música que ele chamava de organized sound (som organizado), construída a partir de blocos, ruídos, pulsações e silêncios tensionais.


 Ionisation (1931): O nascimento da música do futuro

Primeira composição totalmente orquestrada para percussão, Ionisation é talvez sua obra mais célebre e emblemática. Nela, Varèse emprega 13 músicos tocando 40 instrumentos de percussão diferentes: tambores, gongos, blocos de madeira, sirenes e até sinos de fogo.


Nada ali lembra o “musical” tradicional. O que ouvimos é matéria sonora em ebulição: o ruído se torna protagonista, o silêncio se torna estrutura, o ritmo substitui a melodia como eixo do pensamento. É a cidade moderna, o cosmos elétrico, o átomo e o caos soando ao mesmo tempo.


🧬 A música como energia e espaço

Varèse enxergava a música como arquitetura em movimento. Sua obra parte do princípio de que o som, assim como a luz ou a matéria, possui massa, densidade e direção. Ele falava em “vetores sonoros” e “formas no espaço”, e sonhava com instrumentos que ainda não existiam.


Essa visão ecoa com a física moderna, com a ideia de campo, entropia e fragmentação do tempo. Ele não compunha para emocionar, mas para deslocar a escuta, provocar rupturas e abrir portais.


📡 Varèse e os eletrônicos: pioneiro da síntese sonora

Antes mesmo da invenção dos sintetizadores, Varèse já explorava fitas magnéticas, osciladores e sirenes como elementos composicionais. Sua obra Poème Électronique (1958), criada para o Pavilhão Philips na Expo de Bruxelas, é um marco absoluto.


Ali, sons eletrônicos se mesclam a gravações de ruídos e vozes em 400 alto-falantes espalhados por uma instalação arquitetônica assinada por Le Corbusier e Iannis Xenakis. É um ambiente sonoro imersivo — algo que antecipa as instalações sonoras contemporâneas, os soundscapes digitais e até mesmo os ambientes sensoriais de realidades imersivas.


🔥 Legado vivo: do experimental ao popular

A radicalidade de Varèse não o isolou. Pelo contrário, seu espírito ressoou por todas as margens. Frank Zappa declarou que, aos quinze anos, ouviu Ionisation e foi como ser “abduzido por uma nave de som”. Stockhausen o via como “o pai da música do século XX”.


Muitos compositores experimentais, do minimalismo ao glitch eletrônico, encontram em Varèse um ponto de origem. Na verdade, qualquer música que se recusa à forma tradicional — do drone ao noise, do industrial ao ambiente de data sonification — carrega a centelha varésiana.


🛸 Ouvir Varèse hoje: uma experiência trans-histórica

Ouvir Varèse é ouvir uma música que ainda está se realizando. Como se ele tivesse composto não para sua época, mas para mentes que só surgiriam no futuro — talvez neste exato momento, enquanto você lê estas linhas e se pergunta: que som tem o Big Bang? Que música ecoa nos buracos negros?

Varèse não deu respostas. Ele deixou perguntas sonoras, fragmentos de uma linguagem que ainda está sendo decifrada.


🖋️ Entre a ruptura e o cosmos

Se a música pode ser uma extensão da física, da metafísica, da psique e da astrofísica — então Varèse é um dos profetas dessa integração. Sua obra não é apenas uma música “nova”, mas uma escuta outra, um convite a perceber o universo como uma partitura viva, inacabada e infinita.


🎧 Obras essenciais para escutar com fones de ouvido e mente aberta:

  • Ionisation (1931)

  • Density 21.5 (1936)

  • Déserts (1954)

  • Poème Électronique (1958)

  • Arcana (1927)


Ionisation (1931)



Poème Électronique (1958)




 
 
 

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