Entre Delírios e Redenção: O Voo Cósmico de Relayer, do Yes
- carlospessegatti
- 20 de abr. de 2025
- 4 min de leitura

Uma sinfonia de guerra interior, transcendência e som celestial
Em 1975, o Yes lançou um dos capítulos mais ousados de sua jornada sonora: Relayer. O álbum, com apenas três faixas e quase quarenta minutos de duração, é uma travessia por paisagens mentais e cósmicas, marcada pela intensidade instrumental e pela busca espiritual. Neste disco, a banda se reinventa após a saída de Rick Wakeman, substituído pelo suíço Patrick Moraz, cuja veia jazzística traz um novo frescor, mais caótico, mais imprevisível — como os delírios que o título sugere.
O Yes já havia explorado a espiritualidade, o misticismo e a natureza em Tales from Topographic Oceans; agora, mergulha nas trincheiras do espírito humano, entre ecos de guerra, colapsos mentais e lampejos de esperança. Relayer não é um álbum fácil, mas é uma experiência. E como toda boa experiência progressiva, exige entrega total.
I. The Gates of Delirium – A Batalha Interior
Inspirada em Guerra e Paz, de Liév Tolstói, a música de abertura é uma suíte monumental que nos arrasta para dentro de uma guerra metafísica. Os primeiros minutos evocam a preparação para o combate — estruturas rítmicas angulosas, guitarras cortantes de Steve Howe, e os teclados dissonantes e dinâmicos de Moraz, que criam um verdadeiro campo de batalha sonoro. É o som do caos ordenado, da lógica rompida.
Não é apenas uma descrição da guerra, mas uma dramatização sonora da condição humana em colapso: a tensão crescente, o estouro do conflito, o delírio que toma o pensamento e rompe qualquer linha de coerência. Aqui, o Yes não está apenas compondo — está encenando o desespero do mundo. A música se torna teatro, e o ouvinte, cúmplice e testemunha.
Mas então, num giro surpreendente, o conflito é interrompido. E sobre os escombros da batalha, surge "Soon", uma das mais belas e esperançadas composições do Yes. É quando o céu se abre e a música nos presenteia com a pedal steel guitar de Steve Howe, que soa como um instrumento divino. As notas deslizam como se pertencessem a uma dimensão superior. Elas não são apenas melodia — são luz sonora, são esperança em forma de som.
O Yes aqui não nos oferece apenas um final bonito: oferece redenção. A paz, nesse contexto, não é ausência de conflito, mas síntese espiritual após a dor.
II. Sound Chaser – O Labirinto do Instinto
A segunda faixa do disco é um redemoinho frenético, um mergulho nos abismos do jazz-fusion com pitadas de vanguarda. Em Sound Chaser, a banda parece brincar com os limites da forma, da velocidade e do virtuosismo. As intervenções de Moraz são tão velozes quanto inesperadas, com arpejos e dissonâncias que beiram a abstração. A bateria de Alan White se transforma em instrumento de ataque, de precisão quase militar, enquanto o baixo de Chris Squire se agiganta como uma entidade pulsante.
Aqui, o Yes desafia o ouvinte: é como se estivéssemos sendo arrastados por um labirinto construído com som, onde o instinto prevalece sobre a razão. É um Yes livre, quase indomável, provando que o rock progressivo também pode ser selvagem.
III. To Be Over – O Retorno ao Silêncio Interior
Depois da batalha e da perseguição, chega a última faixa: um hino de reconciliação interior. To Be Over é uma canção serena, meditativa, como um rio calmo que flui após a enchente. É uma espécie de mantra sonoro, onde as linhas melódicas se entrelaçam em suaves espirais, como se a banda quisesse devolver ao ouvinte o sopro vital, a respiração profunda, o retorno ao ser.
O destaque aqui é o equilíbrio entre voz e instrumento: a guitarra límpida de Howe, os sintetizadores suaves de Moraz e a voz de Jon Anderson, que soa como um guia cósmico, nos convidando a soltar os pesos e simplesmente ser.
Epílogo: O Delírio como Caminho
Relayer não é apenas um disco sobre guerra. É sobre os estados extremos da alma: o caos, o medo, o esfacelamento — mas também a reconstrução, a paz e a transcendência. Ele nos mostra que o delírio não é apenas desordem; é, muitas vezes, o portal necessário para a consciência mais profunda.
Com Relayer, o Yes alcançou uma de suas expressões mais ousadas e filosóficas. A guerra exterior é apenas reflexo da guerra interior — e a redenção não vem da vitória sobre o outro, mas do encontro consigo mesmo.
E talvez, ao final de tudo, reste apenas o som daquela guitarra celestial — um sussurro de paz vindo das estrelas.
"A guerra exterior é apenas reflexo da guerra interior."
"Soon... o som da guitarra de Howe não é melodia — é luz sonora."
"Entre caos e paz, Relayer nos conduz pela espiral do espírito humano."
"O Yes encenou o desespero do mundo — e nos redimiu com música."
"Relayer é delírio, é batalha, é redenção — é escutar o infinito através do som."
THE GATES OF DELIRIUM - LIVE



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