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Fernando Pessoa: A Multidão em Um Só

  • carlospessegatti
  • 16 de abr. de 2025
  • 5 min de leitura



Entre máscaras, amores e abismos, a alma portuguesa se fragmenta para dizer o indizível.


Fernando Pessoa foi muitos. E foi, também, ninguém. Em sua genialidade inquieta, escolheu desdobrar-se em outras vozes — não por artifício, mas por necessidade ontológica. Era como se o mundo fosse grande demais para caber num único nome. Ou como se a alma, por ser abismo, precisasse ser escutada de vários ângulos. Ele criou heterônimos — não pseudônimos —, pois cada um deles possui biografia, estilo, visão de mundo e até mapa astral.


Pessoa não fragmentou-se para se esconder, mas para existir mais intensamente. Esses heterônimos não são disfarces, são revelações parciais de um mistério maior: o do ser humano que pensa, sente, observa e ama com profundidades distintas.


Os Heterônimos: Vozes de um Mesmo Silêncio

Alberto Caeiro – o mestre da sensação pura


Caeiro é o poeta-pastor. Viveu no campo, tinha pouca instrução formal e via o mundo com os olhos da infância. Para ele, pensar demais era doença. Tudo o que existe deve ser sentido, não interpretado.


"O único sentido íntimo das coisas

É elas não terem sentido íntimo nenhum."


Poema de Alberto Caeiro:

O Guardador de Rebanhos – Poema I

Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.


Ricardo Reis – o estoico helenista


Médico e monárquico, Ricardo Reis escreve como um romano exilado, adepto da medida, da razão e da ordem. Em sua poesia, há um ceticismo calmo, uma aceitação da morte como parte da vida.


"Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo."


Poema de Ricardo Reis:

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és

No mínimo que fazes.


Álvaro de Campos – o engenheiro do delírio moderno


É o mais explosivo. Vive os excessos da modernidade com angústia e êxtase. Formado em engenharia naval, é a voz da máquina, da velocidade, do grito humano diante do absurdo. Um “semi-heterônimo”, pois se aproxima mais de Pessoa em estilo e inquietação.


Poema de Álvaro de Campos:

Lisbon Revisited (1926)

Não: não quero nada.

Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer.


Fernando Pessoa, ele mesmo


Por trás (ou à frente) de todos esses nomes, está o próprio Fernando Pessoa — o “ortônimo”. Em seus versos, há uma delicada melancolia, uma busca por sentido, um amor feito de metafísica. Se os heterônimos são prismas, Pessoa é o feixe de luz que os atravessa.


Poema de amor e existência – Fernando Pessoa (ele mesmo):


Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são ridículas.

Não seriam cartas de amor

se não fossem ridículas.


Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.


As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.


Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.


A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas.


— Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentimentos esdrúxulos,

São naturalmente

Ridículas.


Pessoa: um universo de ausências

Fernando Pessoa morreu quase anônimo, aos 47 anos, deixando um baú com mais de 25 mil documentos entre poemas, fragmentos, textos filosóficos e cartas.


Morreu só, mas carregava multidões por dentro. Cada heterônimo era um modo de ver o mundo, uma tentativa de responder à pergunta que talvez o perseguia desde sempre: "O que sou eu, senão a soma de tudo o que finjo ser?"


Sua obra é uma orquestra de silêncios, um espelho estilhaçado que reflete os pedaços da alma humana em sua tragicidade, ternura e mistério.


As Sombras Silenciosas: Heterônimos Menores, Ecos Maiores


Embora Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos sejam os vértices mais visíveis da constelação pessoana, outros nomes habitam as penumbras da sua criação. Não são menos significativos: são vozes interiores que não gritam — sussurram. E nesses sussurros, muitas vezes, há mais verdade do que no clamor dos poetas maiores.


1. Bernardo Soares — O Sonhador do Cotidiano (O Semi-Heterônimo)

"Tenho em mim um cansaço que vem do futuro."


Bernardo Soares é considerado por Pessoa um semi-heterônimo, pois se parece muito com ele mesmo, mas em estado de despersonalização. É o autor do monumental e fragmentário “Livro do Desassossego” — obra-diário, obra-ruína, obra-labirinto.


Bernardo é o arquétipo do Escriba Melancólico, funcionário de escritório em Lisboa, que escreve para não enlouquecer. Seus textos são confissões sem confessor, espelhos sem reflexo fixo. Fala de tédio, de angústia metafísica, de beleza súbita em pequenas coisas.


Fragmento — Bernardo Soares:

"Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do Mundo..."


2. António Mora e o Barão de Teive — O Filósofo e o Suicida


António Mora é o pensador que Fernando Pessoa usou para desenvolver sua teoria do paganismo moderno, ou “neo-paganismo”. Mora defende uma espiritualidade baseada na harmonia com a natureza, com raízes na Grécia Antiga, mas resgatada à luz da crise espiritual do Ocidente moderno.


Já o Barão de Teive, por sua vez, é um heterônimo trágico. Escreve o “Diário de um vencido do cansaço”, obra jamais concluída, em que narra o suicídio intelectual de um homem que compreendeu demais e sentiu de menos.


Ambos representam vozes filosóficas — o Pensador Esotérico (Mora) e o Cético Absoluto (Teive) — que ecoam a crise do sentido na modernidade. Um busca restaurar o mito; o outro, afunda no niilismo.


IV. Um Pensador do Contemporâneo


Fernando Pessoa pode ser lido como um pensador da pós-modernidade antes mesmo que ela nascesse. Suas tensões internas, sua recusa às identidades fixas, seu jogo com a máscara e o duplo, tudo isso antecipa temas fundamentais da filosofia contemporânea — de Nietzsche a Foucault, de Freud a Baudrillard.


Ele soube habitar a contradição. E fez disso poesia. Transformou o desassossego em matéria estética, e a fragmentação do eu em linguagem.


V. Conexão com o Hoje: A Pluralidade como Destino


No mundo atual — múltiplo, líquido, interconectado — Pessoa talvez seja mais atual do que nunca. Em tempos em que o sujeito se desdobra em avatares digitais, em que os perfis se sobrepõem às essências, sua obra ecoa como um oráculo.


Ele nos ensina que ser muitos é uma forma legítima de ser inteiro. E que toda busca por autenticidade passa, paradoxalmente, pela aceitação de nossas máscaras.


VI. A arte de ser abismo e ponte

Fernando Pessoa não nos oferece respostas, mas mapas do enigma. Sua obra nos convida a mergulhar no mistério de sermos muitos dentro de nós.


Ele sabia — como os antigos gregos — que a verdadeira sabedoria reside em conhecer-se a si mesmo. Mas, ao olhar para dentro, encontrou uma multidão. E deu voz a cada uma dessas presenças com a delicadeza de quem sabe que a alma humana é feita de silêncios que falam alto.


 
 
 

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