top of page
Buscar

Forma e Matéria: dois olhares sobre a História da Arte

  • carlospessegatti
  • 12 de abr. de 2025
  • 4 min de leitura




Arnold Hauser e Heinrich Wölfflin — entre o materialismo histórico e a estética formal


A História da Arte, como campo de conhecimento, sempre oscilou entre diferentes paradigmas interpretativos. Entre os que a concebem como uma expressão autônoma do espírito humano, e os que a compreendem como um fenômeno indissociável das condições materiais de existência.


Dois autores sintetizam, de maneira quase paradigmática, essas posições: Heinrich Wölfflin, com sua abordagem formalista, e Arnold Hauser, com sua leitura marxista e sociológica. Neste texto, vamos analisar profundamente essas duas visões, seus fundamentos teóricos, seus limites e suas contribuições para o pensamento artístico contemporâneo.


1. Heinrich Wölfflin: a autonomia das formas visuais


Heinrich Wölfflin (1864–1945) foi um historiador da arte suíço, considerado um dos fundadores da metodologia moderna da disciplina. Sua obra mais influente, Princípios Fundamentais da História da Arte (Kunstgeschichtliche Grundbegriffe, 1915), propõe uma teoria da evolução estilística da arte baseada em categorias visuais e formais.


Para Wölfflin, a arte se desenvolve em pares de oposição estilística, tais como:

  • Linear vs. Pictórico

  • Superfície vs. Profundidade

  • Forma fechada vs. Forma aberta

  • Clareza absoluta vs. Clareza relativa

  • Unidade por adição vs. Unidade por subordinação


Essas categorias são usadas para diferenciar, por exemplo, o estilo do Renascimento (linear, racional, claro) e o do Barroco (pictórico, dinâmico, emocional). O desenvolvimento da arte, para ele, ocorre por mudanças perceptivas e psicológicas coletivas, quase como um "espírito do tempo" visual.


Wölfflin não ignora completamente o contexto histórico, mas minimiza seu papel na explicação das formas. Sua ênfase está nos modos de ver e representar o mundo, os quais seriam relativamente autônomos em relação às transformações sociais, políticas e econômicas. Assim, a arte é compreendida como um fenômeno intrínseco ao desenvolvimento interno do estilo, e não como reflexo das lutas de classe ou das estruturas de produção.


Críticas à abordagem formalista


A principal crítica que se faz a Wölfflin vem justamente daqueles que veem a arte como um produto histórico-social. Para autores marxistas ou da crítica ideológica, como Hauser, Adorno ou Benjamin, o formalismo de Wölfflin isola a arte de suas determinações concretas, transformando-a em pura fenomenologia visual. Isso reduz a potência crítica da arte e obscurece seu papel dentro das dinâmicas de poder.


2. Arnold Hauser: arte como expressão das condições sociais


Arnold Hauser (1892–1978) oferece uma abordagem radicalmente distinta. Em sua obra monumental História Social da Literatura e da Arte (Sozialgeschichte der Kunst und Literatur, 1951), ele propõe que toda manifestação artística é reflexo e expressão das condições materiais da sociedade que a produz.


Hauser, profundamente influenciado por Marx e Lukács, vê a arte como um produto histórico condicionado pelos meios de produção, pelas formas de trabalho e pelas estruturas de classe. Assim, a arte do Renascimento não é apenas um estilo visual linear — como diria Wölfflin — mas uma expressão da ascensão da burguesia mercantil e do racionalismo humanista que inaugura o mundo moderno.


Para Hauser, cada época histórica produz um tipo de sensibilidade estética, moldado pelas contradições sociais do período. A arte não é um espelho direto da realidade, mas uma mediação dialética entre o sujeito criador e a estrutura histórica que o forma.


Ele vai além ao mostrar que até os estilos mais “individuais” ou “abstratos” estão inseridos numa rede de ideologias, tensões sociais, valores de classe e estruturas simbólicas da cultura dominante.


A contribuição de Hauser: arte como crítica e síntese histórica


Hauser oferece uma das leituras mais abrangentes da arte como fenômeno social. Sua análise ultrapassa o mero conteúdo temático das obras e mostra como formas, técnicas, suportes e gêneros também carregam marcas da luta de classes, da economia e da ideologia. Ele é um dos primeiros a dar importância à indústria cultural, ao papel do mercado, e à alienação da arte nas sociedades capitalistas.


Sua crítica também aponta para a perda de função social da arte moderna, que, ao se tornar autônoma demais, rompe com o público e se aliena em formalismos, elitismos e experimentalismos vazios.


3. Confronto entre visões: autonomia estética ou determinação social?


O confronto entre Wölfflin e Hauser não é apenas metodológico, mas filosófico e político. Ele remete a uma tensão fundamental na teoria da arte:→ a arte deve ser compreendida por suas formas internas, como diria Wölfflin?→ ou por suas condições externas, históricas e sociais, como defende Hauser?


Ambas as visões têm suas forças e limites. A abordagem formalista de Wölfflin foi essencial para o desenvolvimento da historiografia da arte como disciplina técnica, e sua tipologia visual influenciou desde a iconografia até a semiótica. No entanto, sua recusa de abordar questões sociais o torna limitado para uma compreensão crítica da cultura.


Por outro lado, a abordagem de Hauser permite contextualizar a arte dentro das estruturas de poder, mas pode, por vezes, correr o risco de reduzir a complexidade estética ao determinismo histórico.


4. Um caminho possível: dialética entre forma e conteúdo


Para pensadores como Adorno, Raymond Williams ou Fredric Jameson, a saída para essa oposição está numa dialética entre forma e conteúdo, entre autonomia estética e determinação social. A arte é, ao mesmo tempo, forma sensível e expressão histórica — e sua análise deve cruzar as tensões entre subjetividade e estrutura, invenção e reprodução, liberdade e necessidade.


Arte como síntese do mundo vivido


A escolha por estudar a História da Arte com base em Arnold Hauser, que eu particularmente decidi fazer, foi mais do que uma decisão metodológica — é, antes de tudo, um posicionamento ético e político.


Significa compreender que a arte não é mero ornamento da história, mas um campo de batalha simbólico onde se expressam os conflitos, os desejos, as utopias e os impasses de uma época.A arte, neste sentido, não apenas reflete o mundo, mas participa ativamente de sua construção e crítica.


Por isso, ler Hauser hoje é mais do que revisitar um clássico — é reencontrar um pensamento vivo, atual, necessário. E lembrar, como disse Walter Benjamin, que "toda obra de arte é, em sua existência mesma, um documento da barbárie e da civilização".


 
 
 

Comentários


Site de música

callerajarrelis electronic progressive music

callerajarrelis Electronic  Progressive Music

bottom of page