György Lukács (1885–1971) - Vida e Contexto
- carlospessegatti
- 18 de abr. de 2025
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György Lukács (1885–1971) foi um filósofo húngaro, marxista, crítico literário e um dos maiores teóricos do pensamento dialético. Filho de uma família judia rica de Budapeste, inicialmente estudou estética e literatura sob forte influência de pensadores como Kant e Kierkegaard. Ainda jovem, foi marcado pelo idealismo alemão (especialmente Hegel), mas também pela obra de Dostoiévski e do existencialismo ético.
Seu ponto de virada foi a Revolução Russa de 1917. A partir daí, abandonou o idealismo e mergulhou no marxismo revolucionário. Tornou-se membro do Partido Comunista Húngaro e até ministro da cultura em um breve governo revolucionário em 1919. Depois de exílios e perseguições, Lukács permaneceu quase sempre numa tensão entre o compromisso com a revolução e a crítica aos dogmatismos do stalinismo.
📚 Obras Fundamentais
Aqui estão algumas das obras que transformaram não só o marxismo, mas também a crítica literária e a filosofia do século XX:
1. História e Consciência de Classe (1923)
A obra que definiu seu lugar como o maior filósofo marxista do Ocidente.
Introduz o conceito de totalidade e a consciência de classe como categorias centrais.
Crítica feroz ao reducionismo econômico e à alienação.
Aqui aparece a ideia de reificação: o mundo humano transformado em coisa, produto, mercadoria.
Frase marcante:
“A reificação é a perda da essência humana pela dominação das coisas.”
2. A Ontologia do Ser Social (escrita entre 1964-1971, publicada
postumamente)
Sua obra mais sistemática.
Retoma a ontologia marxista partindo da atividade prática (praxis).
Mostra como o ser humano é constituído historicamente, através de suas relações sociais.
Aqui Lukács busca responder ao positivismo, existencialismo e estruturalismo com uma ontologia da práxis.
Frase marcante:
“A essência do homem não é algo dado, mas um processo, algo que se realiza historicamente.”
3. A Estética (também publicada postumamente)
Monumental esforço para construir uma estética marxista.
Mostra que a arte tem poder de revelar a totalidade do mundo.
Rompe com a ideia de arte como simples reflexo da realidade, defendendo sua capacidade de revelação ontológica.
4. A Teoria do Romance (1916)
Obra pré-marxista, mas já crítica e profunda.
Descreve o romance como a forma literária da modernidade desiludida, um mundo em que os “deuses” se calaram.
Antecipação do conceito de alienação.
Frase marcante:
“O romance é a epopeia de um mundo abandonado por Deus.”
5. Lenin: A Coerência de um Pensamento Revolucionário (1924)
Um tributo à figura de Lênin como o maior pensador da práxis revolucionária do século XX.
Aponta Lênin como o realizador da dialética hegeliana no plano da ação revolucionária concreta.
💥 Ideias Centrais
🔸 Totalidade
Lukács acreditava que a totalidade é a chave do pensamento marxista. Só entendemos o real se compreendermos como as partes estão inseridas no todo. O mundo não é um conjunto de fatos isolados, mas uma estrutura dialética em movimento.
🔸 Reificação (ou Coisificação)
Talvez seu conceito mais poderoso. A vida no capitalismo transforma relações humanas em coisas. O trabalhador se torna mercadoria, e a consciência se automatiza. A alienação se torna uma estrutura de percepção.
🔸 Consciência de Classe
A classe trabalhadora, ao perceber sua própria condição, pode se tornar o sujeito da história. Mas essa consciência não é espontânea — ela precisa ser construída, dialeticamente.
🔸 Práxis
A ação transformadora que une teoria e prática. A filosofia, para Lukács, só tem sentido se ligada à luta concreta por emancipação humana.
🎭 Lukács e a Arte
Ele via na literatura realista (como a de Balzac, Tolstói e Thomas Mann) a capacidade de revelar a complexidade da vida social. A arte que mostra a luta entre sujeito e mundo — entre essência e aparência — é revolucionária. Por isso, foi crítico do formalismo e das tendências que esvaziam o conteúdo histórico da arte.
📣 Frases Notáveis
“Ser radical é ir à raiz. E a raiz do homem é o próprio homem.”
“A liberdade não é dada, é conquistada.”
“A consciência é um produto social.”
“A alienação não é um erro intelectual, mas uma forma de vida.”
🔥 Lukács é perigoso?
Sim, no melhor dos sentidos. Ele nos obriga a ver o mundo como processo, como história. Lê-lo é como sair de um mundo opaco e perceber que por trás das formas sociais há luta, conflito e possibilidade de transformação. Por isso ele transforma quem o lê. Ele não oferece consolo, mas desassossego criativo.
📘 1. "História e Consciência de Classe" (1923)
Essa é a obra que marca Lukács como um dos pilares do marxismo ocidental. Aqui ele recupera a dialética de Hegel (e a reinterpreta via Marx), defendendo que só por meio da totalidade e da consciência de classe é possível compreender a realidade e superá-la.
Principais conceitos:
Totalidade: o real só pode ser entendido em seu movimento histórico e contraditório. Um fato isolado (como o preço de um produto ou o desemprego) só faz sentido dentro da estrutura do capitalismo como um todo.
Consciência de classe: a classe trabalhadora pode se tornar sujeito histórico quando compreende sua posição e papel na superação do sistema.
Reificação (ou coisificação): o momento central do livro. O mundo social capitalista aparece como um mundo "natural", onde tudo — inclusive o ser humano — se transforma em coisa, objeto, engrenagem.
📗 2. "A Ontologia do Ser Social" (1964–1971, póstuma)
Aqui, Lukács retoma Marx de forma sistemática para construir uma ontologia que tem como ponto de partida a práxis social. É uma obra monumental, escrita nos seus últimos anos de vida.
Destaques:
A práxis é o fundamento do ser social: a realidade humana é constituída por ações coletivas que transformam o mundo e o próprio sujeito.
A alienação é histórica e superável, não uma condição eterna.
Ele confronta o positivismo, o estruturalismo, e até certas leituras existencialistas que considerava idealistas ou paralisantes.
A teleologia é recuperada de Hegel, mas numa chave materialista: a ação humana visa fins, mas os resultados não são nunca determinados mecanicamente.
📕 3. "A Estética" (póstuma, anos 1960)
Esse projeto — monumental — pretendia oferecer uma estética marxista que reconhecesse a arte como forma privilegiada de revelação da totalidade.
Ponto-chave:
A arte, quando realista, revela as contradições da vida concreta, não como uma reprodução fotográfica, mas como uma criação que capta a essência humana.
Ele valoriza os clássicos do realismo (Balzac, Thomas Mann, Tolstói), contra o formalismo e o experimentalismo desligado da vida social (onde ele confronta o modernismo estético de vanguarda).
A arte, para ele, é onde o humano ainda resiste à reificação.
🤝 Paralelos com Adorno, Benjamin, Gramsci e Cia.
🌀 Adorno e a Teoria Crítica
Ambos se opõem ao positivismo, mas seguem caminhos diferentes.
Adorno vê a cultura de massa como devastadora; Lukács acredita no realismo como forma de resistência.
Adorno é mais pessimista: a razão instrumental destruiu as possibilidades emancipadoras.
Lukács é mais hegeliano-dialético: há uma contradição interna no capitalismo que pode ser superada.
Convergência: Crítica à reificação e à cultura como mercadoria. Divergência: Adorno prefere formas fragmentadas, atonais; Lukács exige o enraizamento social e histórico da arte.
🔥 Benjamin
Ambos marxistas, mas Benjamin é mais lírico, fragmentário e messiânico.
Benjamin vê na arte moderna (inclusive no cinema) uma possibilidade de abalo da reificação — o que Lukács rejeita como alienação estética.
Benjamin não acredita na “essência” da arte — mas na possibilidade de interrupção do fluxo reificado da história.
🛠️ Gramsci
Convergência clara na ênfase no papel do sujeito histórico, na crítica ao economicismo e na valorização da culturacomo campo de luta.
Gramsci vê o intelectual como orgânico, ligado à base social — Lukács também insiste nisso, mas num nível mais filosófico do que político-prático.
🔩 O que é Reificação?
✳️ Definição geral:
A reificação é o processo pelo qual as relações sociais entre pessoas assumem a forma de relações entre coisas. O ser humano, em vez de sujeito criador da história, passa a ser coisificado, tratado como engrenagem, número, mercadoria, função.
É quando a vida perde o calor da experiência e da intuição concreta, sendo absorvida por formas abstratas e automáticas.
🏭 Exemplo simples:
Um operário que trabalha 10 horas por dia repetindo o mesmo movimento, sem saber o destino de sua produção nem o sentido do que faz.
O ser humano se reduz a função produtiva. Ele vira uma "coisa útil" para o sistema.
Tudo vira valor de troca. Até sentimentos, tempo, desejos, a própria subjetividade.
🧱 Lukács em “História e Consciência de Classe” (1923)
🧬 Como nasce a reificação?
Ela é produto da forma mercadoria descrita por Marx.
No capitalismo, tudo é produzido para ser trocado. Isso faz com que os objetos passem a ter uma existência social autônoma — parecem agir por si mesmos.
O mundo aparece como natural, inevitável, despolitizado.
“O que é específico da mercadoria não é o fato de ela ser uma ‘coisa’, mas o fato de que nela se manifesta uma relação social entre os homens que assume a forma de uma relação entre coisas.”
🧠 Efeitos na consciência:
A consciência se adapta à fragmentação, ao automatismo, ao cálculo técnico.
O pensamento se torna reificado: a lógica instrumental substitui a dialética.
A vida perde o sentido orgânico, histórico, existencial. A subjetividade é amputada.
🎭 Reificação na vida moderna
Lukács antecipa muito do que hoje vemos em temas como:
Burnout: o corpo como máquina esgotada.
Datas e algoritmos regulando afetos: a temporalidade humana convertida em produtividade.
Redes sociais: a imagem coisificada de si, performance como mercadoria.
Relacionamentos: mediadores mercadológicos (apps, padrões estéticos), que transformam o amor em valor de uso/troca.



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