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Identitarismo e Neoliberalismo: Entre o Reconhecimento e a Fragmentação Social

  • carlospessegatti
  • 18 de mar. de 2025
  • 3 min de leitura




Afirmar para Unir ou Dividir?


O identitarismo é um dos fenômenos mais marcantes da contemporaneidade, exercendo um papel central nos debates políticos e culturais. Seu objetivo primordial é dar visibilidade e reconhecimento a grupos historicamente marginalizados, promovendo sua afirmação dentro da sociedade.


No entanto, seu impacto é ambíguo: se por um lado fortalece a luta por direitos, por outro pode levar à fragmentação social e ser instrumentalizado por sistemas que buscam justamente impedir a formação de um projeto coletivo de emancipação. A questão central que emerge é: o identitarismo fortalece a coletividade ou apenas divide ainda mais a sociedade em nichos isolados?


Os Aspectos Positivos do Identitarismo


  1. Reconhecimento e Direitos


    Os movimentos identitários têm sido fundamentais para avanços históricos. As lutas contra o racismo, pelo feminismo, pelos direitos LGBTQIA+ e pelos direitos dos povos originários são exemplos claros de como a afirmação de identidades pode gerar mudanças estruturais e promover justiça social. Sem essas mobilizações, a permanência de estruturas opressivas seria ainda mais intensa.


  2. Empoderamento e Representatividade


    A visibilidade dada a grupos marginalizados cria referências importantes para novas gerações, fortalecendo subjetividades e garantindo que pessoas historicamente silenciadas possam ocupar espaços de decisão e poder.


  3. Desconstrução de Normas Excludentes


    Os discursos identitários questionam padrões culturais e institucionais que reforçam desigualdades, abrindo espaço para novas formas de organização social.


Os Riscos e a Fragmentação Social


  1. A Segmentação da Sociedade em Nichos


    Se o identitarismo for levado a uma visão excessivamente particularista, ele pode transformar a sociedade em um conjunto de guetos e tribos que competem entre si, em vez de se unirem em torno de causas comuns. Esse tipo de segmentação enfraquece movimentos coletivos de transformação estrutural, tornando mais difícil a luta contra os reais fatores de desigualdade econômica e social.


  2. A Coaptação pelo Neoliberalismo


    Segundo o sociólogo francês Pierre Bordieu, o neoliberalismo é um projeto de destruição metódica do coletivo. Ele se alimenta da fragmentação social para impedir resistências amplas contra sua agenda. Nesse sentido, a lógica identitária pode ser facilmente absorvida por um mercado que transforma reivindicações sociais em mercadoria.


    Empresas adotam discursos inclusivos, mas seguem explorando trabalhadores e precarizando condições de vida. Marcas se apropriam de causas para vender produtos, sem que haja qualquer mudança real nas estruturas de poder.


  3. O Deslocamento da Luta de Classes para a Guerra Cultural



    Um dos maiores riscos do identitarismo, quando desconectado de um projeto maior, é deslocar a atenção das desigualdades estruturais para um campo simbólico de disputas culturais. O capitalismo se fortalece quando as massas estão divididas em pequenos grupos que brigam entre si por reconhecimento simbólico, enquanto a exploração econômica continua inalterada.


Identitarismo e Sociedade Contemporânea


O mundo contemporâneo vive uma polarização intensa entre discursos identitários e projetos de nacionalismo conservador. Por um lado, temos uma luta válida e necessária pelo reconhecimento de identidades historicamente marginalizadas; por outro, temos um ambiente onde essa mesma luta é explorada para fins de mercado e para impedir a formação de alianças entre os explorados. O neoliberalismo se beneficia dessa fragmentação ao criar nichos de consumo, enquanto discursos reacionários se fortalecem ao explorar ressentimentos sociais contra essas pautas.


Para Onde Caminhar?


O desafio está em encontrar um ponto de equilíbrio entre o reconhecimento das diferenças e a construção de um projeto comum de emancipação. O identitarismo não pode ser descartado, mas também não pode ser uma ferramenta de alienação que impeça a solidariedade entre os trabalhadores e os explorados do sistema.


A questão não é eliminar as identidades, mas sim articulá-las dentro de um horizonte que não apenas busque reconhecimento, mas também transforme a estrutura econômica e social. Somente assim poderemos evitar que o identitarismo se torne apenas um instrumento do neoliberalismo e garantir que ele seja um elemento de fortalecimento da luta coletiva por uma sociedade mais justa.


 
 
 

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