top of page
Buscar

Jackson Pollock: O Pintor do Inconsciente Cósmico

  • carlospessegatti
  • 7 de abr. de 2025
  • 6 min de leitura



Existem artistas que pintam com as mãos, outros com os olhos. Jackson Pollock pintava com o corpo inteiro — como se cada gesto fosse a extensão de um terremoto interior, de uma dança ritual em que a tinta se tornava extensão do próprio ser. Na vastidão de suas telas, o caos ganhava forma. O acaso virava intenção. O invisível se tornava visível.


Nascido no Wyoming em 1912, Pollock atravessou a primeira metade do século XX carregando os fantasmas da modernidade, da guerra, da angústia existencial. Ainda jovem, em contato com o trabalho de Thomas Hart Benton e mais tarde influenciado pelo muralismo mexicano, Jackson começou a moldar um estilo que já anunciava inquietude. Mas foi apenas nos anos 1940, ao mergulhar nas águas turvas do inconsciente — guiado pelo contato com o surrealismo e as ideias de Jung sobre o arquétipo — que sua obra explodiu em potência.


Com o advento do dripping, técnica que consistia em gotejar ou derramar tinta sobre a tela estendida no chão, Pollock reinventou a relação entre artista, obra e espaço. Ele não pintava “um objeto”: ele encenava um ritual. Cada tela era uma coreografia do imprevisto, um traçado de gestos irrepetíveis. Um campo de energia.


"Quando estou em meu quadro, não tenho consciência do que estou fazendo. É só depois de uma espécie de 'período de familiarização' que vejo o que estive fazendo. Não tenho medo de fazer mudanças, de destruir a imagem, porque o quadro tem vida própria. Tento deixá-la vir."— Jackson Pollock


A crítica muitas vezes não entendeu. Afinal, como capturar com palavras o que pulsa além da linguagem? Mas seu trabalho rompeu o paradigma do objeto artístico estático e conduziu a arte ocidental a uma nova fronteira: o expressionismo abstrato, que não representava o mundo, mas expressava seu desmoronamento.


Se Kandinsky, algumas décadas antes, falava da pintura como meio de alcançar a espiritualidade — e acreditava que formas e cores tinham vibrações semelhantes às notas musicais — Pollock levou essa ideia ao extremo. Ambos operavam não com o visível, mas com o intangível. Se Kandinsky pintava “as sinfonias da alma”, Pollock revelava os trovões interiores, as ressonâncias caóticas do inconsciente coletivo.


Enquanto Kandinsky falava de uma “necessidade interior” que guiava o artista, Pollock transformava essa necessidade numa espécie de transe físico. Era o corpo como instrumento, como pincel vivo. Era o cosmos derramando tinta sobre a Terra.


Pollock também encarnava o drama do artista moderno: oscilava entre genialidade e autodestruição. Sua relação com o álcool, os conflitos emocionais e sua morte prematura num acidente de carro, aos 44 anos, cristalizaram o mito — mas não o definiram. O que o define são as telas que, mesmo em seu aparente caos, transmitem uma ordem cósmica invisível, como fractais de um universo que ainda não compreendemos.


Na arte de Pollock, o acaso não é descuido, mas destino. Cada gota de tinta lançada no vazio traz consigo um traço de humanidade, um sussurro das forças ocultas que moldam o ser.


Pollock e a Dança do Caos Criador


“A pintura é um ser com vida própria. O artista só precisa escutar seus murmúrios.”— Jackson Pollock


O Corpo como Pincel, o Cosmos como Tela


Jackson Pollock não pintava quadros: ele invocava forças. Suas telas não são apenas composições visuais, mas vestígios de um transe, registros físicos de uma dança entre o artista e o abismo. Nascido em 1912, em Cody, Wyoming, Pollock cresceu sob o céu vasto do oeste americano — cenário propício para a formação de um espírito inquieto e indomável. A arte para ele nunca foi adorno, mas combustão interna, explosão de conteúdos que não cabiam nas palavras.


Sua técnica — o célebre dripping — rompeu com todas as convenções da pintura tradicional. Ao estender a tela no chão, ele a transformava em território sagrado, em campo ritualístico onde corpo, gesto e matéria se encontravam. A tinta escorria como se fosse magma psíquico, derramando sobre a superfície o que jazia oculto nas profundezas do inconsciente coletivo.


“Não uso o acaso. O acaso é só o que ignoramos da ordem.”— atribuído a Carl Jung


Pollock talvez nunca tenha lido Jung com profundidade, mas sua arte dialoga diretamente com o inconsciente arquetípico. Suas pinturas não representam o mundo — elas o capturam em sua vibração original. São registros do caos primordial, aquele mesmo que deu origem ao cosmos e que ainda pulsa dentro de nós.


Entre Fractais e Frequências Invisíveis


Ao olhar de perto suas telas, vemos algo surpreendente: não há centro, não há foco hierárquico. As composições se expandem em todas as direções, como um campo energético em movimento. Cientistas como Richard Taylor, físico da Universidade de Oregon, já comprovaram que as obras de Pollock possuem estruturas fractais, semelhantes às formas naturais que vemos nas árvores, rios, nuvens e no próprio sistema nervoso.


Isso nos diz muito: a “bagunça” de Pollock é, na verdade, uma ordem profunda, uma estética que espelha a lógica do universo — o caos determinista, onde cada traço aparentemente aleatório é parte de um padrão maior, invisível à primeira vista. Essa complexidade orgânica, que se revela aos poucos ao observador atento, aproxima a arte de Pollock da própria matéria viva.


Kandinsky: O Espírito que Anunciou o Corpo


É impossível não traçar um paralelo com Wassily Kandinsky, mestre da espiritualidade pictórica e precursor da abstração. Kandinsky via as cores e formas como expressões de um mundo interior, regido por ressonâncias espirituais, como se a tela fosse um instrumento musical tocando a alma do espectador.


Se Kandinsky pintava como quem medita, Pollock pintava como quem entra em transe. Ambos, no entanto, buscavam o invisível. A diferença está no veículo: o primeiro buscava o espírito, o segundo, o corpo — mas em ambos pulsava a mesma busca pela transcendência. Em Pollock, a tinta era sangue, suor, respiração; em Kandinsky, era luz, som, silêncio. Um dialogava com o divino vertical, o outro com o caos horizontal. Mas ambos eram músicos do invisível.


🎧 Trilha Sonora para a Leitura ou Contemplação:

  • Steve Reich – Music for 18 Musicians

  • Biosphere – Substrata

  • György Ligeti – Atmosphères

  • Jon Hassell – Last Night the Moon Came Dropping Its Clothes in the Street

  • Brian Eno – Discreet Music


Para Refletir:

  • O que é o acaso senão a ordem ainda não revelada?

  • Em que medida nossas criações artísticas carregam estruturas invisíveis, tal como os fractais da natureza?

  • Pode a arte, como dizia Kandinsky, ser uma ponte entre o visível e o espiritual?



Obras marcantes de Pollock e Kandinsky


Para os que desejam mergulhar ainda mais no gesto e na vibração desses dois mestres da abstração, aqui estão quatro obras que condensam suas buscas:

  • “Number 1A, 1948” e “Blue Poles, 1952” — a dança do caos em Pollock.

  • “Composition VII” (1913) e “Several Circles” (1926) — o espírito em expansão em Kandinsky.



🎨 Jackson Pollock – A Fúria Contida do Inconsciente

1. “Number 1A, 1948”

📍 MoMA – Museum of Modern Art, Nova York

Esta é uma das obras-primas do dripping painting. Com uma explosão de linhas, camadas de tinta e gestos sobrepostos, Pollock aqui alcança uma maestria onde o caos pulsa com uma estranha harmonia. A ausência de figuração revela o traço como corpo em movimento — como se o próprio universo estivesse respirando sobre a tela.


🔍 Curiosidade: O físico Richard Taylor estudou fractalmente esta obra e constatou que a complexidade das linhas é semelhante às da natureza, com padrões auto-semelhantes que nos remetem à própria estrutura da realidade.


2. “Blue Poles: Number 11, 1952”

📍 National Gallery of Australia, Canberra

Talvez a obra mais icônica e controversa de Pollock. Aqui, oito estruturas verticais azuis atravessam a tela como troncos cósmicos, em contraste com o caos de linhas que as rodeia. Muitos críticos veem essa pintura como o auge de sua maturidade artística, em que o caos e a estrutura coexistem.


🌀 Leitura simbólica: Os “pólos azuis” podem ser lidos como vetores de energia ou portais vibracionais, sustentando a instabilidade ao redor. Um cosmos em suspensão.


🎨 Wassily Kandinsky – A Pintura como Som e Espírito

1. “Composition VII” (1913)

📍 Tretyakov Gallery, Moscou

Considerada sua obra mais ambiciosa, essa pintura é uma sinfonia visual, onde formas e cores se entrelaçam com a mesma dinâmica de uma composição musical. Aqui, o espiritual se desdobra em movimento, revelando o gesto como vibração da alma.


🎼 Nota poética: Kandinsky falava da “ressonância interior” que as cores provocam. Nessa obra, vermelho, azul, amarelo e branco cantam juntos uma partitura que só o coração decifra.


2. “Several Circles” (1926)

📍 Guggenheim Museum, Nova York

Nesta pintura mais geométrica, Kandinsky explora os círculos como símbolos da totalidade, da harmonia universal. Cada círculo é um ser, uma alma, uma nota. Ao mesmo tempo estática e em fluxo, a imagem sugere uma dança cósmica silenciosa, quase newtoniana, quase quântica.


🪐 Reflexão estética: Aqui, Kandinsky se aproxima de uma cosmologia visual. Poderíamos dizer que esta obra ecoa as ideias pitagóricas da “música das esferas”.


Em um tempo em que tudo precisa ser explicado, Pollock nos convida a sentir. A nos perder. A contemplar o caos como origem, não como erro. E talvez, nesse gesto, reencontremos o que há de mais humano: nossa condição vibrátil no seio de um universo em constante criação.

CALLERA JARRELISS



Several Circles - Kandinsky




Blues Pole - Pollock




Number 1A, 1948 - Jackson Pollock




Composition VII” (1913) - Kandinsky







 
 
 

Comentários


Site de música

callerajarrelis electronic progressive music

callerajarrelis Electronic  Progressive Music

bottom of page