O Caminho de Narada e a Ilusão de Maya
- carlospessegatti
- 26 de fev. de 2025
- 3 min de leitura

Conta-se que Narada, o sábio errante, aproximou-se de Vishnu com um desejo profundo de compreender a verdade última.
— Senhor, percorri os reinos, estudei as escrituras e escutei os mestres, mas ainda não compreendo o verdadeiro poder da ilusão. O que é, de fato, Maya?
Vishnu sorriu, como quem já ouvira essa pergunta incontáveis vezes.
— Se queres compreender Maya, venha comigo.
E num instante, como uma gota que se dissolve no oceano, Narada e Vishnu deixaram aquele lugar.
Diante dele, surgiu uma vasta planície dourada onde o vento soprava suavemente sobre campos de trigo. O sol se derramava em tons de âmbar sobre um rio cristalino que deslizava preguiçoso.
— Tenho sede — disse Vishnu. — Poderias buscar-me um pouco de água?
Narada, obediente, caminhou até uma vila próxima, onde avistou uma jovem de olhos radiantes que carregava um jarro de barro. Aproximando-se, pediu-lhe água. Mas no instante em que seus olhos se encontraram, algo aconteceu. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, e seu coração pareceu conhecer aquela mulher antes mesmo que sua mente pudesse entender.
Um instante tornou-se um diálogo. Um diálogo tornou-se dias. Dias transformaram-se em anos.
Narada esqueceu-se de Vishnu.
Ele casou-se com a jovem, construiu uma casa à beira do rio, teve filhos que brincavam entre os campos dourados e envelheceu ouvindo suas risadas.
Plantou, colheu, riu e chorou. Conheceu a doçura do amor e o peso da saudade.
Mas então, numa noite de tempestade, a terra tremeu. O rio transbordou e engoliu tudo. O vento gritou entre os escombros. A água tomou sua casa, seus filhos, sua esposa. Narada correu em desespero, mas era tarde demais. Com lágrimas nos olhos e o coração dilacerado, foi arrastado pelas águas impiedosas.
Quando seu último fio de esperança se rompeu, quando sua alma gritou ao cosmos sem resposta, ouviu uma voz.
— Narada… onde está minha água?
E num instante, tudo desapareceu.
Narada abriu os olhos.
Diante dele, Vishnu sorria serenamente. O rio já não existia. A vila jamais estivera ali. Nenhuma tempestade, nenhuma casa, nenhuma esposa, nenhum filho.
Ele estava ali, de volta ao momento em que tudo começou. Apenas segundos haviam se passado.
— Agora compreendes Maya? — perguntou Vishnu.
Narada caiu de joelhos, tremendo.
— Mas… eu vivi uma vida inteira. Amava minha esposa. Segurei meus filhos nos braços. Senti alegria, dor, esperança e perda. Como poderia não ser real?
Vishnu tocou sua fronte com leveza.
— Assim é Maya. Tudo o que percebes como sólido e eterno é apenas um lampejo no fluxo do tempo. Tu acreditaste na realidade que te envolveu, esqueceste tua busca, esqueceste até de mim. Assim fazem todos os seres, presos ao ciclo da existência, esquecendo que são centelhas do divino.
Narada respirou fundo. Sua mente oscilava entre a clareza e o torpor, como um homem acordando de um longo sonho.
— Mas se tudo é ilusão, o que é real?
O sorriso de Vishnu se aprofundou.
— Aquilo que permanece quando tudo se dissolve.
E num instante, Vishnu desapareceu.
Narada ficou ali, sozinho, sentindo o vento soprar sobre a planície. Mas agora, tudo lhe parecia diferente. Pois dentro dele, uma voz sussurrava, suave como a brisa:
"Desperta… tudo é Maya."
Reflexão Filosófica: O Véu da Ilusão
Esta história, profundamente simbólica, carrega o ensinamento de que nossa experiência no mundo é transitória, assim como os sonhos que desaparecem ao amanhecer. Na tradição hindu e budista, Maya é a ilusão que nos faz crer que somos indivíduos separados, que o tempo é linear e que nossa existência tem um começo e um fim.
Narada experimentou o que todos os seres experimentam: o apego à identidade, ao desejo, à dor e à alegria, esquecendo-se de sua verdadeira natureza. Mas Vishnu revela-lhe que o tempo e a experiência podem ser tão ilusórios quanto uma miragem no deserto.
Se tudo é ilusão, isso significa que nada importa?
Ao contrário: significa que devemos viver com consciência. A experiência humana, mesmo sendo impermanente, tem um propósito. A vida não é para ser negada, mas compreendida. O sofrimento existe porque acreditamos ser separados do Todo. Mas quando despertamos, percebemos que nunca fomos ondas isoladas—sempre fomos o oceano.
Aqueles que entendem Maya não se perdem mais na ilusão, mas dançam com ela. Sabem que o mundo é um sonho, mas mesmo em um sonho, ainda se pode escolher agir com amor, compaixão e sabedoria.
Desperta… tudo é Maya. Mas ainda assim, dançamos.



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