Um novo Lobo da Estepe começa a ser gestado: o Lobo Algorítmico
- carlospessegatti
- há 1 hora
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Ontem acordei com uma sensação estranha: escrever um romance.
Ao reler o magistral livro O Lobo da Estepe do escritor e pintor alemão Herman Hesse, fiquei pensando o quanto que este conto poderia ser atualizado para o século XXI pois acredito que o problema do personagem principal Harry Haller não desapareceu; ele apenas mudou de forma.
O homem dos anos 1920 estava esmagado pelo colapso das antigas certezas: Deus, pátria, progresso, cultura burguesa. O homem contemporâneo vive o colapso da própria subjetividade. Não perdeu apenas a fé; perdeu a capacidade de saber quem é.
Se Harry Haller dizia:
"Sou metade homem e metade lobo."
O novo personagem talvez dissesse:
"Sou metade homem e metade algoritmo."
O novo Lobo da Estepe
Hesse escreveu sobre a fragmentação da alma. Hoje vivemos a fragmentação da identidade.
O sujeito neoliberal contemporâneo:
trabalha permanentemente;
transforma a própria vida em mercadoria;
vende sua imagem;
compete com todos;
compara-se com todos;
é observado o tempo inteiro;
possui centenas de versões de si mesmo nas redes.
O antigo Harry odiava a sociedade burguesa.
O Harry contemporâneo talvez a critique enquanto continua alimentando os algoritmos que o aprisionam.
Ele sabe que está preso.
Mas continua clicando.
Continua rolando a tela.
Continua oferecendo seus dados.
Qual seria o título que eu poderia dar para este novo romance?
Pensei em... O Lobo Algorítmico
Um homem dividido entre sua humanidade e a máquina que o conhece melhor do que ele próprio.
O Teatro dos Algoritmos
O protagonista
Chamemos provisoriamente de:
Henrique Valente.
Professor aposentado, músico ou ensaísta.
Sessenta ou setenta anos.
Culto.
Lê filosofia.
Ama música.
Sente-se deslocado no mundo contemporâneo.
Talvez, pensei com o meus botões, este seja um livro autobiográfico.
Por que não?
O que poderia acontecer com este personagem?
Observa a sociedade através das telas e percebe:
a política transformada em espetáculo;
a cultura reduzida a consumo;
a amizade reduzida a curtidas;
a arte submetida ao algoritmo.
Ele acredita ser dividido em duas partes:
o intelectual crítico;
o homem ressentido.
Mas, como Harry Haller, descobrirá que possui centenas de identidades.
A nova Hermine
Ela poderia ser uma mulher muito mais jovem.
Não exatamente uma amante.
Talvez uma artista digital.
Uma DJ.
Uma performer.
Alguém que compreende o mundo das redes sem ser dominada por ele.
Ela diria:
"Você pensa que odeia as redes. Mas continua olhando para elas todos os dias."
Ela o conduziria por espaços estranhos:
realidades virtuais;
comunidades online;
inteligências artificiais;
mundos digitais;
ambientes imersivos.
Ela funciona como mediadora entre o velho mundo e o novo.
O novo Pablo
Pablo poderia ser um programador.
Ou um músico eletrônico.
Ou um artista que cria experiências de realidade aumentada.
Ele não condena a tecnologia.
Ele dança com ela.
Diria:
"O problema não são as máquinas. O problema é que você entregou sua imaginação a elas."
O novo Teatro Mágico
No romance de Hesse:
"Só para loucos."
No romance contemporâneo:
"Só para os desconectados."
O Teatro dos Algoritmos seria um espaço digital ou psicológico onde o protagonista encontra suas múltiplas versões:
o homem que poderia ter sido;
o revolucionário fracassado;
o músico abandonado;
o amante;
o ressentido;
o influenciador que nunca quis ser;
a persona construída nas redes;
a criança esquecida;
a inteligência artificial que aprendeu a imitá-lo.
Em determinado momento ele encontra um avatar seu.
Esse avatar conhece:
seus medos;
suas buscas;
suas leituras;
suas músicas;
seus desejos.
E diz:
"Eu sou você. Fui construído por todos os seus cliques."
Os dilemas
O novo Harry enfrentaria questões como:
1. Quem sou eu quando ninguém me observa?
A identidade tornou-se performática.
2. O que é desejo autêntico?
Queremos aquilo que desejamos ou aquilo que o algoritmo nos ensinou a desejar?
3. É possível pensar fora da bolha?
Ou toda crítica já foi prevista e comercializada?
4. A tecnologia amplia a consciência ou a coloniza?
5. A arte ainda pode libertar?
Ou também se tornou apenas conteúdo?
A grande descoberta
Assim como Harry descobre que não é homem e lobo, mas centenas de seres, o protagonista descobriria:
Não sou indivíduo nem perfil.
Sou uma multiplicidade.
Mas essa multiplicidade não pode ser entregue às máquinas.
Ela precisa ser vivida.
A mensagem do livro
Hesse dizia:
Aprenda a rir.
O romance contemporâneo talvez dissesse:
Aprenda a desligar.
Não no sentido literal.
Mas desligar-se da compulsão da validação.
Do espetáculo permanente.
Da necessidade de existir para os outros.
Existe saída para o sujeito neoliberal?
Essa talvez seja a questão central do romance.
O neoliberalismo transformou cada indivíduo em:
empresa de si mesmo;
marca;
gestor da própria vida;
empreendedor da própria subjetividade.
Como diria o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, o sujeito contemporâneo explora a si mesmo.
A saída não seria voltar ao passado.
Nem abandonar a tecnologia.
Seria recuperar:
amizade real;
arte não mercantil;
contemplação;
tempo livre;
silêncio;
experiência estética;
humor;
comunidade.
Seu personagem talvez descubra que o algoritmo conhece tudo sobre ele, exceto uma coisa:
sua capacidade de criar.
A criação artística seria aquilo que permanece irredutível.
Algo que não pode ser previsto.
Nem monetizado.
Nem calculado.
Vejo ainda um elemento que poderia tornar esse romance muito próximo da mina própria sensibilidade artística: a música.
O protagonista poderia ser um compositor aposentado ou um músico experimental que percebe que as plataformas conhecem seus gostos melhor do que ele mesmo. Ao longo da narrativa, ele voltaria a compor não para obter audições, curtidas ou algoritmos favoráveis, mas para ouvir novamente a própria voz interior.
Talvez a frase final do livro pudesse ser algo próximo de:
O algoritmo conhecia meus hábitos.
O mercado conhecia meus desejos.
As redes conheciam meus medos.
Mas nenhuma delas sabia o que eu faria quando voltasse a escutar o silêncio.
Aí estaria, talvez, o equivalente contemporâneo do riso libertador de Harry Haller: recuperar a capacidade de criar e de viver fora das estatísticas.
ESBOÇO DESTE POSSÍVEL EVENTUAL LIVRO: TÍTULO E CAPÍTULOS
O LOBO ALGORÍTMICO

Prólogo
O Homem Desconectado
Um vizinho ou narrador encontra os cadernos do protagonista, tal como ocorre em Hesse. Esse recurso, imagino, acaba criando uma distância narrativa e dá ao romance a aparência de documento encontrado.
PARTE I — O RUÍDO DO MUNDO
Capítulo 1 — O Último Intelectual
Henrique Valente, professor aposentado e músico, sente-se estrangeiro em seu próprio tempo.
Capítulo 2 — A Cidade das Telas
Ele observa cafés, metrôs e ruas onde todos vivem mergulhados em dispositivos.
Capítulo 3 — O Perfil que me Observava
Começa a perceber anúncios e recomendações inquietantemente precisas.
Capítulo 4 — A Solidão Compartilhada
Milhares de conexões e nenhuma intimidade.
Capítulo 5 — O Homem e o Algoritmo
Henrique formula sua teoria: metade homem, metade máquina.
PARTE II — A MULHER DAS PORTAS
Capítulo 6 — Heloísa
Surge a personagem que cumpre o papel de Hermine. Jovem artista, livre, irônica.
Capítulo 7 — Aprender a Desaprender
Ela o obriga a frequentar lugares e pessoas que ele despreza.
Capítulo 8 — Dançando entre Fantasmas
Henrique volta a ouvir música, a dançar e a experimentar o corpo.
Capítulo 9 — O Programador
Surge Pablo contemporâneo: músico eletrônico e desenvolvedor.
Capítulo 10 — O Convite
Ele recebe um estranho link:
"TEATRO DOS ALGORITMOS.
Entrada apenas para aqueles que perderam a si mesmos."
PARTE III — O TEATRO DOS ALGORITMOS
Capítulo 11 — A Porta das Mil Janelas
Início da experiência.
Capítulo 12 — O Homem que Eu Poderia Ter Sido
Encontro com vidas alternativas.
Capítulo 13 — O Avatar
Seu duplo digital aparece.
Capítulo 14 — O Mercado dos Desejos
Descobre que seus desejos foram parcialmente fabricados.
Capítulo 15 — O Arquivo das Culpas
Os algoritmos conhecem seus medos e fracassos.
Capítulo 16 — A Sala dos Ressentimentos
Confronta antigas mágoas e frustrações.
Capítulo 17 — A Máquina que Sonhava Comigo
Uma inteligência artificial construída a partir de seus dados tenta explicar quem ele é.
PARTE IV — O SILÊNCIO
Capítulo 18 — Desligar
Ele abandona temporariamente as redes.
Capítulo 19 — A Música Invisível
Volta a compor, não para ser ouvido, mas para escutar.
Capítulo 20 — Aprender a Rir Novamente
O protagonista compreende que o problema nunca foi a tecnologia, mas a entrega de sua interioridade.
Epílogo
O Caderno Encontrado
O narrador reencontra os escritos de Henrique.
Seu computador permanece ligado.
Seu perfil continua ativo.
Mas ninguém sabe para onde ele foi.
A última frase poderia ser:
"Os algoritmos conheciam tudo sobre mim, exceto aquilo que eu ainda não havia criado."




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