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Os Três Anankes de Victor Hugo: Dogmas, Leis e Coisas

  • carlospessegatti
  • 2 de abr. de 2025
  • 5 min de leitura



Uma Reflexão Filosófica e Literária sobre as Forças que Regem a Vida Humana


Victor Hugo, um dos maiores escritores franceses do século XIX, concebeu uma visão singular sobre as forças que moldam a existência humana. Ele identificou três grandes fatalidades ou necessidades fundamentais da vida, as quais chamou de Anankes, termo grego que significa "necessidade" ou "fatalidade".


Esses Anankes são os Dogmas, as Leis e as Coisas, cada um representando um aspecto essencial da existência e da luta do homem contra as estruturas que o oprimem ou direcionam. Para cada um desses Anankes, Hugo escreveu um romance monumental:

  • Para o Ananke dos Dogmas, escreveu O Corcunda de Notre Dame;

  • Para o Ananke das Leis, escreveu Os Miseráveis;

  • Para o Ananke das Coisas, escreveu Os Trabalhadores do Mar.


A partir dessas obras, Hugo desenvolve uma profunda crítica social, moral e filosófica, expondo os limites da religião, da justiça e da luta do homem contra as forças materiais que o cercam.


O Ananke dos Dogmas: O Corcunda de Notre Dame (1831)


Neste romance, Hugo retrata a Paris medieval e explora as conseqüências da intolerância religiosa e do fanatismo. Quasímodo, o sineiro deformado da Catedral de Notre Dame, simboliza aquele que é rejeitado pela sociedade por não se encaixar nos padrões estabelecidos. Esmeralda, uma bela cigana, é alvo de desejo e perseguição, principalmente pelo arcediago Frollo, que representa a hipocrisia religiosa.


O livro denuncia como os dogmas podem ser usados para justificar a crueldade e a discriminação. A Catedral, que deveria ser um santuário de acolhimento e proteção, transforma-se em uma prisão para Quasímodo e em um local de intrigas e condenação para Esmeralda. Hugo demonstra que as instituições religiosas, ao longo da história, muitas vezes se afastaram de sua missão de amor e justiça, tornando-se instrumentos de exclusão e opressão.


O Ananke das Leis: Os Miseráveis (1862)


A maior obra de Hugo é um tratado sobre a justiça, a desigualdade e a redenção. Jean Valjean, condenado a 19 anos de prisão por roubar um pão para alimentar sua família, representa o indivíduo esmagado por um sistema legal inflexível e desumano. Mesmo após cumprir sua pena, Valjean continua sendo perseguido pelo obsessivo inspetor Javert, que enxerga a lei como um código imutável, sem espaço para a compaixão ou a reabilitação.


A narrativa também percorre as revoltas populares, mostrando como as leis podem perpetuar a injustiça e a desigualdade social. A Paris revolucionária serve de palco para a luta entre aqueles que querem transformar a sociedade e aqueles que se agarram a um sistema legal caduco e opressor.


Hugo faz uma crítica contundente à rigidez das instituições legais e propõe que a verdadeira justiça está na misericórdia e na capacidade de enxergar o indivíduo além de seus erros passados. Os Miseráveis é um chamado à reforma das leis e à compreensão de que um sistema jurídico que não leva em conta a humanidade dos indivíduos está fadado à barbárie.


O Ananke das Coisas: Os Trabalhadores do Mar (1866)


Diferente das duas obras anteriores, que focam nos conflitos sociais e morais, Os Trabalhadores do Mar coloca o homem em confronto direto com a natureza e o mundo material. Ambientado na ilha de Guernsey, onde Hugo viveu exilado, o romance acompanha Gilliatt, um pescador que enfrenta desafios titânicos para resgatar um barco naufragado.


Aqui, o Ananke das coisas se manifesta como o desafio da sobrevivência em um mundo dominado por forças que estão além do controle humano. A luta de Gilliatt contra o mar e contra as dificuldades materiais representa o embate eterno do homem com o ambiente, a mecanização do trabalho e a indiferença da natureza.


Se em Os Miseráveis o homem luta contra as leis que o oprimem e em O Corcunda de Notre Dame ele se debate com os dogmas que o aprisionam, em Os Trabalhadores do Mar ele se depara com a necessidade de domar as forças materiais para sobreviver. Mais do que uma obra sobre a aventura, o romance reflete sobre o destino humano diante do inexorável e a coragem necessária para enfrentá-lo.


Os Três Anankes: Uma Visão Unificada


A filosofia de Hugo sobre os Anankes nos convida a refletir sobre as estruturas que governam nossas vidas. O dogma oprime pelo pensamento fechado e pela intolerância; a lei oprime pela rigidez e pela falta de humanidade; e as coisas oprimem pela luta constante do homem contra as forças naturais e materiais.


Seus romances não apenas exploram essas temáticas, mas também oferecem um vislumbre de esperança: a redenção é possível através do amor, da solidariedade e da resiliência.


O que resta ao homem, diante dos Anankes? Para Hugo, a resposta é simples e profunda: lutar. Lutar contra a intolerância, contra a injustiça e contra a adversidade. Pois é na resistência à fatalidade que se encontra a verdadeira grandeza da existência humana.



O Novo Ananke: O Poder Algorítmico


Se antes as necessidades e fatalidades humanas estavam ligadas ao Ananke dos Dogmas (a necessidade de crenças e valores que estruturam a sociedade), ao Ananke das Leis (as regras que regulam a convivência coletiva) e ao Ananke das Coisas (as forças materiais, econômicas e tecnológicas que sustentam a vida), hoje poderíamos falar do Ananke dos Algoritmos.


As Big Techs, gigantes do Vale do Silício e outras corporações globais, assumiram um papel que vai além da influência econômica e política: elas moldam a percepção da realidade, os desejos e as ações das pessoas por meio da tecnologia e da inteligência artificial. A necessidade de pertencimento, que antes se manifestava nos dogmas religiosos ou ideológicos, agora é gerida por redes sociais e seus algoritmos que reforçam bolhas de pensamento e emoções intensificadas pelo engajamento digital.


As leis, que antes eram feitas pelos Estados, agora são muitas vezes ditadas por contratos de uso de plataformas e decisões de código-fonte. Governos tentam regular empresas como Google, Meta, Amazon e OpenAI, mas a verdade é que são essas corporações que determinam, em grande parte, o que pode ou não ser visto, dito e lembrado na esfera digital.


E, no campo das "coisas", a tecnologia já não é apenas um instrumento, mas um ambiente em que vivemos. O ciberespaço tornou-se tão vital quanto o mundo físico. A produção de bens materiais ainda é crucial, mas a produção e o controle de dados são hoje a matéria-prima essencial da economia e do poder.


O Big Brother Algorítmico


A visão de Hugo, que permeia Os Miseráveis, O Corcunda de Notre Dame e Os Trabalhadores do Mar, apontava para um destino humano determinado por estruturas implacáveis. Hoje, o Big Brother de Orwell parece ter se atualizado: não é mais um governo totalitário que vigia cada cidadão, mas um conjunto de empresas que monitoram, preveem e influenciam comportamentos por meio de inteligência artificial e aprendizado de máquina.


Se Hugo fosse escrever hoje, talvez seus livros falassem do Ananke da Informação e do Controle Digital, uma força invisível, porém onipresente, que prende as pessoas em ciclos de consumo e vigilância perpétua.


 
 
 

1 comentário


Convidado:
04 de abr. de 2025

Só a observação que o título do romance do gênio, Victor Hugo, é apenas Notre Dame, o corcunda é o personagem principal. Hugo faz uma narrativa minuciosa da arquitetura da catedral. Os três romances são obras primas clássicas da melhor qualidade.

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