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Robinson Crusoé e a Ontologia do Capital: O Indivíduo, o Trabalho e a Invenção de um Mundo

  • carlospessegatti
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura


Publicado em 25 de abril de 1719, Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, é frequentemente celebrado como um dos primeiros romances modernos. No entanto, para além de sua dimensão narrativa e aventuresca, a obra pode ser lida como um documento simbólico da emergência de uma nova racionalidade histórica: a lógica do capitalismo nascente. Não por acaso, diversos estudiosos identificam em Crusoé não apenas um náufrago, mas um arquétipo — o sujeito econômico moderno em estado puro.


Isolado em uma ilha deserta, Crusoé recria, quase do nada, as estruturas fundamentais da sociedade burguesa. Ele mede o tempo, organiza o trabalho, contabiliza recursos, planeja a produção e estabelece uma relação instrumental com a natureza. Tudo aquilo que, na Europa do século XVIII, começava a se consolidar como ethos capitalista — disciplina, cálculo, acumulação e domínio técnico — aparece condensado na experiência solitária do personagem.


Nesse sentido, a ilha não é apenas um espaço físico, mas um laboratório ontológico. Ali, desprovido de instituições, de mercado e de relações sociais complexas, Crusoé encarna a ideia de que o indivíduo, por meio do trabalho racional e contínuo, é capaz de produzir valor e transformar o mundo. Essa visão ressoa diretamente com o pensamento liberal emergente, particularmente com as ideias de John Locke, para quem o trabalho é a fonte legítima da propriedade.


Crusoé, ao cultivar a terra, domesticar animais e construir abrigo, torna-se proprietário não por herança ou tradição, mas por ação.


Entretanto, essa aparente autonomia esconde uma contradição profunda. A figura de Crusoé, muitas vezes celebrada como símbolo de autossuficiência, é também uma abstração ideológica. Sua capacidade de sobreviver e prosperar não decorre apenas de sua engenhosidade individual, mas do fato de carregar consigo, mesmo no isolamento, os saberes, técnicas e valores de uma sociedade já estruturada. Ele não começa do zero — ele transporta consigo a memória histórica do mundo europeu.


Essa leitura foi amplamente desenvolvida por Karl Marx, que via em Crusoé uma espécie de “fantasia econômica” utilizada para naturalizar as relações sociais do capitalismo. Ao apresentar o trabalho individual como origem de toda riqueza, a narrativa obscurece as dimensões coletivas, históricas e sociais da produção. O que em Crusoé aparece como esforço isolado é, na realidade, resultado de uma longa acumulação de conhecimento humano.


Além disso, a relação entre Crusoé e Sexta-Feira explicita uma dimensão colonial intrínseca ao capitalismo nascente. Ao “civilizar” o outro, impor sua língua, religião e formas de organização, Crusoé reproduz, em escala reduzida, a lógica imperial europeia. A ilha torna-se, assim, não apenas um espaço de produção, mas de dominação — onde o outro é integrado como força subordinada dentro de uma hierarquia que espelha o sistema colonial.


Sob essa perspectiva, Robinson Crusoe deixa de ser apenas uma história de sobrevivência para se revelar como uma alegoria poderosa da formação do sujeito moderno: um indivíduo que se entende como centro do mundo, mediador entre natureza e cultura, e agente da transformação material. Ao mesmo tempo, expõe as fissuras dessa construção — a ilusão da autonomia, a invisibilização do coletivo e a naturalização das relações de poder.


Ler essa obra hoje é, portanto, confrontar-se com as raízes imaginárias de um sistema que ainda estrutura nossas formas de pensar, produzir e existir. Em Crusoé, encontramos não apenas o homem isolado na ilha, mas o embrião de uma racionalidade que transformaria o planeta — e que ainda hoje define os limites e as possibilidades do nosso tempo.









 
 
 

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