Stabat Mater: A Dor da Mãe, o Eco da Humanidade
- carlospessegatti
- 14 de mai. de 2025
- 5 min de leitura

Entre a mística medieval e a sublimação musical da dor, um poema sacro atravessa séculos de devoção e arte
Poucos textos litúrgicos do cristianismo carregam tamanha carga emocional e simbólica quanto o Stabat Mater. Nascido no seio da espiritualidade medieval, esse poema sacro descreve a dor lancinante de Maria aos pés da cruz, contemplando a crucificação de seu filho, Jesus. A imagem da Mater Dolorosa não é apenas uma representação da dor de uma mãe: ela se torna um arquétipo da compaixão e da condição humana diante do sofrimento e da finitude.
O título, derivado do primeiro verso latino "Stabat Mater dolorosa juxta crucem lacrimosa, dum pendebat Filius" (“Estava a Mãe dolorosa, junto à cruz lacrimosa, enquanto pendia o Filho”), estabelece o tom de uma meditação pungente sobre o sofrimento, a maternidade e a fé. Composto provavelmente no século XIII, sua autoria é tradicionalmente atribuída a Jacopone da Todi, um frade franciscano e poeta místico, embora essa atribuição ainda gere debates entre estudiosos.
O texto, com seus 20 dísticos em métrica troqueia, foi incorporado à liturgia católica como uma sequência da Missa dos Sete Dores de Maria. Em 1727, o Papa Bento XIII oficializou seu uso litúrgico na celebração da festa de Nossa Senhora das Dores, fixada em 15 de setembro. Essa consolidação na prática religiosa garantiu ao Stabat Mater um lugar de destaque na espiritualidade ocidental, tornando-o fértil terreno para a música sacra.
A musicalidade do lamento
A poderosa carga afetiva e imagética do poema atraiu compositores desde a Renascença até o século XX. A estrutura regular dos versos e seu apelo lírico convidavam a abordagens musicais que variavam entre a austeridade contrapontística e o dramatismo orquestral. A música tornou-se o canal através do qual essa dor universal ganhava forma sensível.
Giovanni Battista Pergolesi, aos 26 anos e já consumido pela tuberculose, compôs em 1736 aquela que viria a ser a mais célebre versão do Stabat Mater. Escrita para soprano, contralto, cordas e contínuo, a obra combina delicadeza melódica, harmonia expressiva e uma transparência quase celestial. O contraste entre a juventude do compositor e a profundidade da dor que ele conseguiu traduzir dá à obra uma aura trágica e comovente.
Outros grandes nomes também se debruçaram sobre esse texto: Alessandro Scarlatti, Vivaldi, Haydn, Rossini, Dvořák, Verdi, Poulenc, Arvo Pärt. Cada um à sua maneira transformou o lamento de Maria numa meditação sonora sobre a dor e a redenção, refletindo as linguagens estéticas de seus tempos. Em Scarlatti, temos o barroquismo ornamentado e comovente; em Rossini, o drama operístico aliado à solenidade sacra; em Dvořák e Verdi, a tensão romântica entre fé e tragédia.
Um arquétipo trans-histórico
Por que tantos compositores sentiram-se impelidos a musicar o Stabat Mater? Além da beleza e da regularidade poética de seus versos, o texto oferece uma profundidade emocional rara, onde se fundem a dor pessoal e a esperança escatológica. Em Maria, todos podem reconhecer sua própria dor – o abandono, a perda, a impotência –, enquanto o Filho que pende da cruz representa o mistério último da vida e da morte.
No contexto mais amplo da história da música, o Stabat Mater não é apenas uma peça litúrgica, mas um rito de passagem expressivo: nele, o compositor entra em contato com as grandes questões do humano. Sua musicalização é quase sempre um exercício de transcendência, onde técnica, fé e emoção se entrelaçam.
A versão de Pergolesi talvez ressoe tanto porque sintetiza esse espírito: a música é pura, mas intensa; suave, mas cortante. Sua morte precoce parece ter sido canalizada naquela partitura como uma forma de eternizar sua dor e sua fé – e, por isso, a obra ainda nos toca profundamente.
O som da compaixão
O Stabat Mater permanece como uma das formas mais sublimes da aliança entre poesia, espiritualidade e música. Ele continua a ser recriado e reinterpretado, pois seu tema é intemporal: a dor redentora que aproxima o divino e o humano. Em tempos de fragmentação e desumanização, ele nos lembra que a compaixão – como vibração estética e ética – é ainda uma das formas mais altas de resistência e beleza.
Stabat Mater de Pergolesi: A Delicadeza da Dor Transcendida
Entre o barroco tardio e o presságio romântico, uma meditação musical sobre a finitude e a luz
Quando Giovanni Battista Pergolesi compôs seu Stabat Mater, estava à beira da morte. A tuberculose já consumia seu corpo, e seu espírito parecia buscar, na música, uma forma de redenção. O resultado não foi apenas uma das obras mais belas do período barroco tardio, mas uma peça que tocou e continua a tocar um ponto nevrálgico da condição humana: o confronto entre a fragilidade da vida e a possibilidade de sentido mesmo na dor.
Ao contrário das abordagens grandiosas ou solenes de outros compositores, Pergolesi opta pela intimidade. A instrumentação é enxuta — apenas um soprano e um contralto dialogando com um pequeno conjunto de cordas e contínuo. Essa escolha confere à obra um tom quase camerístico, como se escutássemos uma oração murmurada nos recessos da alma. É nesse recolhimento que a força da música se manifesta.
As lágrimas como forma
O primeiro movimento, Stabat Mater dolorosa, já nos lança numa atmosfera de suspensão: uma linha melódica simples, dolorosa e ascendente, que hesita, que respira. A harmonia não se apressa. O tempo é o do lamento. Não há urgência, apenas entrega. A escrita vocal é profundamente expressiva, mas nunca dramática no sentido operístico — ela é comedida, porque o sofrimento aqui não é teatralizado, mas interiorizado.
Ao longo dos doze movimentos, Pergolesi alterna duetos e árias solo, estabelecendo uma tessitura que lembra um diálogo não só entre vozes humanas, mas entre o humano e o divino, entre o pranto e a esperança. A forma da obra obedece à lógica do texto latino, mas também à lógica emocional: é um ciclo de estados afetivos que vai da dor à súplica, da resignação à visão da glória celeste.
Harmonia e pathos barroco
O que confere à obra seu caráter tão singular é a síntese entre clareza melódica e intensidade afetiva. Há ecos da tradição napolitana, da qual Pergolesi é herdeiro, especialmente na leveza rítmica e nas linhas vocais cantábile. Mas o pathos barroco está ali, refinado, destilado. A harmonia explora dissonâncias suaves, suspensões, cadências que não se resolvem de imediato — tudo cuidadosamente calibrado para manter o ouvinte num estado de tensão emocional.
É também notável como Pergolesi utiliza a repetição como gesto expressivo. Em Quando corpus morietur, por exemplo, os motivos se tornam quase meditativos, como um mantra que se enrosca na escuta e amplia o efeito da contemplação.
Uma obra fora do tempo
Apesar de enraizada em sua época, a obra parece transcender seu próprio contexto histórico. Ela antecipa, em certa medida, o sentimentalismo do pré-romantismo, especialmente na maneira como a música comunica uma emoção interior sem ornamento excessivo. Não à toa, o Stabat Mater de Pergolesi foi um fenômeno já em sua época: copiado, adaptado, imitado — até mesmo Johann Sebastian Bach reorquestrou partes dele em sua Tilge, Höchster, meine Sünden (BWV 1083), adaptando o texto para o alemão e expandindo seu uso litúrgico.
Com apenas 26 anos, Pergolesi parece ter, paradoxalmente, captado algo de definitivo, de maduro, de eterno. O Stabat Mater foi sua obra final, e talvez por isso ressoe como um testamento — não apenas religioso, mas artístico e humano.



Comentários