Tales from Topographic Oceans – A Obra Monumental do Yes
- carlospessegatti
- 15 de mar. de 2025
- 4 min de leitura

Lançado em 7 de dezembro de 1973, Tales from Topographic Oceans é um dos álbuns mais ambiciosos da história do rock progressivo. Este trabalho do Yes, uma obra conceitual grandiosa, marcou um momento de transição para a banda, com mudanças na formação e divisões criativas internas. Concebido a partir de inspirações filosóficas e espirituais, Tales é um álbum duplo composto por quatro longas faixas, cada uma ocupando um lado do LP original. A recepção foi polarizadora, gerando tanto admiração quanto críticas, mas sua importância no legado do Yes e do rock progressivo permanece indiscutível.
Concepção e Inspiração
A gênese de Tales from Topographic Oceans aconteceu quando Jon Anderson, vocalista e principal letrista da banda, leu Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda. O livro trazia conceitos espirituais baseados nos ensinamentos do hinduísmo e da filosofia védica. Anderson se impressionou com um trecho em que se descrevia o conhecimento dividido em quatro partes distintas, conceito que se tornou a espinha dorsal do álbum.
Durante a turnê de Close to the Edge (1972), Anderson discutiu a ideia com o guitarrista Steve Howe, e juntos começaram a estruturar o álbum como uma jornada espiritual dividida em quatro segmentos. No entanto, nem todos na banda estavam tão entusiasmados com o conceito. O tecladista Rick Wakeman, em particular, não estava convencido da abordagem musical e temática, sentindo que as composições eram excessivamente prolixas. Isso culminaria na sua saída do Yes após a turnê do álbum.
Além disso, Tales foi o primeiro álbum gravado com Alan White na bateria, substituindo Bill Bruford, que havia partido para o King Crimson.
Gravação e Produção
O álbum foi gravado entre agosto e outubro de 1973 no Morgan Studios, em Londres. As sessões foram complexas e cheias de tensão. A banda se viu dividida entre a ambição de Anderson e Howe e a frustração de Wakeman, que frequentemente se retirava para comer comida chinesa em vez de participar ativamente da gravação. As extensas composições e a abordagem experimental tornaram a produção exaustiva.
Apesar das dificuldades, a sonoridade do álbum é rica e multifacetada, misturando elementos acústicos, passagens sinfônicas grandiosas e improvisações instrumentais. Chris Squire, baixista da banda, e Alan White também contribuíram significativamente para as dinâmicas rítmicas intrincadas do disco.
Análise Faixa a Faixa
1. The Revealing Science of God (Dance of the Dawn)
A primeira peça do álbum, com cerca de 20 minutos, estabelece o tom épico da obra. A música começa com um canto etéreo, quase como um mantra, evocando uma atmosfera de reverência espiritual. À medida que se desenvolve, apresenta temas líricos que exploram a busca pela verdade e pelo conhecimento divino.
Musicalmente, a faixa alterna entre seções melódicas e complexos interlúdios instrumentais. A guitarra de Steve Howe brilha com passagens tanto agressivas quanto suaves, enquanto Rick Wakeman contribui com texturas sintetizadas que evocam paisagens etéreas. O refrão grandioso e repetitivo reforça a sensação de jornada espiritual.
2. The Remembering (High the Memory)
A segunda faixa mantém um clima mais introspectivo e melancólico. Aqui, a abordagem musical é mais atmosférica, com passagens longas e progressões harmônicas evocativas. A letra aborda a memória coletiva e o processo de evolução espiritual, sugerindo que o conhecimento verdadeiro é redescoberto ao longo do tempo.
Os teclados de Wakeman criam uma base etérea sobre a qual Jon Anderson canta melodias quase hipnóticas. A faixa culmina em uma seção final acelerada, remetendo à progressão dinâmica de Close to the Edge.
3. The Ancient (Giants Under the Sun)
Esta é a peça mais experimental do álbum. The Ancient explora texturas dissonantes e ritmos tribais, evocando civilizações antigas e suas conexões com o divino. A bateria de Alan White e o baixo pulsante de Chris Squire criam uma base rítmica instável e complexa, enquanto Steve Howe utiliza a guitarra de forma percussiva, criando um efeito quase abstrato.
A segunda parte da música se acalma e traz um dos momentos mais belos do álbum, com Howe tocando uma melodia acústica delicada e Jon Anderson entregando uma performance vocal etérea. O contraste entre a primeira e a segunda parte reforça a ideia de uma conexão entre os tempos antigos e a nossa percepção moderna.
4. Ritual (Nous sommes du soleil)
A faixa final sintetiza os temas espirituais e musicais do álbum. Ritual representa a celebração da jornada descrita nas faixas anteriores, culminando em um clímax que simboliza a união entre humanidade e cosmos.
A música apresenta seções marcadas por solos virtuosos, passagens instrumentais dinâmicas e um final glorioso. Há um interlúdio de percussão tribal intensa, no qual Alan White demonstra sua habilidade com padrões complexos.
Nos minutos finais, a melodia ressurge de forma triunfante, com Anderson repetindo a frase "Nous sommes du soleil" ("Nós somos do sol"), reforçando a conexão espiritual e cósmica do conceito do álbum.
Recepção e Legado
Tales from Topographic Oceans foi um sucesso comercial, alcançando o topo das paradas no Reino Unido e vendendo bem nos Estados Unidos. No entanto, a crítica da época foi dividida. Muitos jornalistas musicais acharam o álbum excessivamente pretensioso e longo, criticando sua estrutura extensa e sua abordagem conceitual densa.
Por outro lado, fãs de rock progressivo e músicos reconheceram Tales como uma obra-prima ousada e inovadora. Ele influenciou gerações de artistas e consolidou o Yes como uma das bandas mais ambiciosas do gênero.
A saída de Rick Wakeman após a turnê do álbum marcou o fim de um ciclo para a banda. Ele retornaria mais tarde para gravar Going for the One (1977), mas sua ausência no álbum seguinte, Relayer (1974), levou a uma nova direção musical.
Tales from Topographic Oceans é um marco na história do rock progressivo. Seu conceito ambicioso, sua estrutura épica e sua riqueza musical fazem dele uma obra única. Embora tenha dividido opiniões na época, seu impacto e influência continuam vivos, e para muitos, ele representa a essência da experimentação artística do Yes. Seja visto como um exagero ou como uma obra-prima, Tales permanece um testemunho do espírito inovador do rock progressivo dos anos 70.




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