Zoolook: A Revolução Sonora de Jean-Michel Jarre Completa 40 Anos
- carlospessegatti
- 29 de mar. de 2025
- 5 min de leitura

Explorando a fusão inovadora de tecnologia e diversidade linguística que marcou a música eletrônica nos anos 80
Resenha: Zoolook – Jean-Michel Jarre (1984)
Lançado em 1984, Zoolook representou uma das mais ousadas e inovadoras criações da carreira de Jean-Michel Jarre, rompendo com as estruturas tradicionais da música eletrônica que ele mesmo ajudou a consolidar nos anos 70. Se nos álbuns anteriores, como Oxygène (1976) e Equinoxe (1978), Jarre explorava paisagens sonoras sintetizadas com grandiosidade cósmica, em Zoolook ele trouxe um conceito ainda mais futurista, fundindo tecnologia, música concreta e um uso experimental da voz humana como elemento musical.
O grande diferencial do álbum é a exploração das vozes e fonemas de mais de 30 idiomas diferentes, processados digitalmente através do então revolucionário Fairlight CMI *, um dos primeiros samplers digitais disponíveis. Esse conceito não apenas adicionou uma nova dimensão à sua música, como antecipou tendências que viriam a ser exploradas na década de 90 com a música eletrônica experimental e o trip-hop.
Além de sua abordagem inovadora, Zoolook conta com participações icônicas, incluindo a lendária Laurie Anderson, pioneira da música experimental e performance art. Ela contribui com vocais na faixa Diva, trazendo sua marca inconfundível de spoken word. Outros músicos notáveis que participaram incluem Adrian Belew (guitarrista do King Crimson e colaborador de David Bowie), Marcus Miller (baixista virtuoso que trabalhou com Miles Davis), além de Yogi Horton e Fred Frith.
O álbum foi bem recebido na época, mas ao longo dos anos se consolidou como uma obra cult dentro da discografia de Jarre, sendo considerado uma peça essencial da vanguarda eletrônica dos anos 80.
Faixa a Faixa
1. Ethnicolor
A faixa de abertura é uma das mais impressionantes do álbum. Com quase 12 minutos de duração, é uma viagem progressiva que começa com um coral etéreo de vozes sintetizadas, criando uma sensação de algo tribal e futurista ao mesmo tempo. Gradualmente, percussões e sintetizadores crescem em camadas, enquanto os vocais amostrados de diversas línguas aparecem em fragmentos, evocando uma linguagem universal e alienígena. O caráter cinematográfico e a construção hipnótica fazem dessa peça um verdadeiro manifesto sonoro do álbum.
2. Diva
Aqui temos a participação de Laurie Anderson, cuja voz robótica e misteriosa se encaixa perfeitamente na estética do álbum. O uso do vocoder e dos tratamentos eletrônicos transforma a voz em um instrumento hipnótico, dialogando com camadas de sintetizadores e um groove eletrônico envolvente. A faixa tem um tom mais experimental e onírico, algo entre um mantra e uma peça de arte sonora.
3. Zoolook
Talvez a faixa mais icônica do disco, Zoolook traz uma batida forte e um uso extremamente rítmico dos samples vocais, criando um groove viciante. Os cortes abruptos das vozes e a manipulação digital do Fairlight dão um caráter pulsante e futurista. A sonoridade desta música lembra muito o trabalho de Art of Noise, que também estava explorando a tecnologia do sampling nessa época.
4. Wooloomooloo
Uma peça instrumental hipnótica e flutuante, que lembra um pouco as texturas de Oxygène, mas com uma abordagem mais percussiva e tribal. Os samples vocais aqui aparecem de forma mais atmosférica, criando um cenário sonoro que remete a rituais ancestrais misturados com a eletrônica do futuro.
5. Zoolookologie
Esta faixa é a mais dançante e acessível do disco, chegando a flertar com o pop eletrônico. O groove funky do baixo de Marcus Miller e a guitarra de Adrian Belew dão uma energia contagiante, enquanto os vocais amostrados são usados quase como um riff instrumental. Foi um dos singles do álbum e se tornou uma das músicas mais conhecidas de Zoolook, recebendo versões remixadas posteriormente.
6. Blah-Blah Café
Com um título que reflete sua proposta, essa faixa brinca com vocalizações e cortes rítmicos que simulam um diálogo frenético e sem sentido. A batida swingada e os sintetizadores dão um tom quase humorístico, lembrando algumas das experimentações sonoras de artistas como Frank Zappa e Herbie Hancock na fase eletrônica.
7. Ethnicolor II
Uma versão mais curta e sintetizada de Ethnicolor, mantendo o caráter cinematográfico e atmosférico da original, mas agora com um enfoque mais sintético e espacial. É uma bela conclusão para o disco, trazendo de volta os temas melódicos e os ambientes sonoros que amarram toda a obra.
Legado e Edição Especial de 40 Anos
Com o passar das décadas, Zoolook se consolidou como um dos trabalhos mais inovadores de Jean-Michel Jarre, sendo uma referência tanto para a música eletrônica quanto para a exploração dos limites do sampling. O álbum influenciou artistas das mais diversas áreas, desde a música experimental até o hip-hop e a ambient music.
No ano passado, em 2024, Jarre anunciou uma edição especial comemorativa de 40 anos, que promete trazer remasterizações e possivelmente faixas inéditas ou versões alternativas. Esse relançamento reafirma a importância do disco e sua relevância atemporal, mostrando como Zoolook ainda soa inovador mesmo quatro décadas após seu lançamento.
Se em Oxygène Jean-Michel Jarre nos levou ao espaço, em Zoolook ele nos transportou para um mundo onde a voz humana se dissolve e se transforma em um novo idioma musical, uma verdadeira linguagem do futuro.
Ethnicolor
Diva
* Fairlight CMI

O sintetizador CMI Fairlight é um instrumento eletrônico revolucionário que foi criado na década de 1970 pela empresa australiana Fairlight. A primeira versão do CMI (Computer Musical Instrument) foi lançada em 1979 e rapidamente se tornou um dos sintetizadores mais avançados e procurados da época.
O CMI Fairlight foi projetado por Peter Vogel e Kim Ryrie, dois engenheiros australianos que queriam criar um instrumento que pudesse gerar sons de alta qualidade e oferecer recursos avançados de edição e manipulação de som.
O CMI Fairlight é capaz de produzir uma ampla gama de sons, desde sons simples de sintetizador até sons complexos e texturizados. Ele possui uma arquitetura de sintese de som baseada em amostras de áudio, o que permite que os usuários criem sons personalizados a partir de amostras de áudio gravadas.
O CMI Fairlight também oferece recursos avançados de edição e manipulação de som, incluindo a capacidade de editar e manipular amostras de áudio, criar sequências de som e controlar o instrumento por meio de uma interface gráfica.
O CMI Fairlight foi amplamente utilizado por muitos músicos e produtores de música eletrônica da época, incluindo Jean-Michel Jarre, que o usou em muitas de suas gravações, incluindo o álbum "Zoolook" de 1984.
Outros usuários notáveis do CMI Fairlight incluem:
• Kate Bush
• Peter Gabriel
• Trevor Horn
• Brian Eno
• Kraftwerk
O CMI Fairlight é considerado um dos instrumentos mais influentes da história da música eletrônica e continua a ser usado por muitos músicos e produtores de música hoje em dia.
Ficha técnica do CMI Fairlight:
• Tipo: Sintetizador de amostras de áudio
• Lançamento: 1979
• Fabricante: Fairlight
• Arquitetura: Síntese de som baseada em amostras de áudio
• Memória: 16 KB (expandível para 64 KB)
• Interface: Interface gráfica com tela de LCD
• Entradas/Saídas: Entradas de áudio, saídas de áudio, interface MIDI
• Preço (no lançamento): Aproximadamente US$ 20.000




Zoolook é uma viagem!