A Condição Humana em Ruínas: O Existencialismo como Espelho de um Século Ferido
- carlospessegatti
- 8 de jul. de 2025
- 4 min de leitura

Das ruínas da guerra à angústia da liberdade: os filósofos que confrontaram o absurdo da existência
Após os horrores da Primeira e, principalmente, da Segunda Guerra Mundial, a Europa mergulhou em uma crise profunda — não apenas econômica ou política, mas sobretudo existencial. O que significava viver após Auschwitz, após Hiroshima? Como justificar o humano depois do colapso das grandes narrativas religiosas, éticas e científicas que antes sustentavam o mundo moderno? Foi nesse abismo de sentido que emergiu uma das correntes mais potentes e provocadoras do pensamento contemporâneo: o Existencialismo.
Mais do que uma doutrina fechada, o existencialismo é uma atitude filosófica e cultural. Um gesto que questiona, antes de tudo, a própria existência humana, com sua liberdade, angústia, responsabilidade e finitude. É uma filosofia do limite — do homem diante de si mesmo, diante do nada, do tempo, do outro e de Deus (ou da ausência dele). Ela transborda para a literatura, o cinema, a psicanálise, a arte e a política, ecoando nas vozes de quem se pergunta: por que estamos aqui? E, mais ainda: o que fazer com essa liberdade brutal de sermos quem somos?
Raízes e origens: o solo fértil da angústia
Embora o existencialismo tenha se consolidado no século XX, suas raízes filosóficas são anteriores. O pensador dinamarquês Søren Kierkegaard (1813–1855) é considerado o "pai do existencialismo". Cristão fervoroso, Kierkegaard escreveu sobre o desespero e o salto da fé, mostrando que o indivíduo é chamado a uma escolha radical diante do absurdo da vida e da impossibilidade de certezas. Para ele, a verdade é subjetiva, e a existência é vivida em tensão com o infinito.
Outro precursor é o alemão Friedrich Nietzsche (1844–1900). Anticristão e trágico, Nietzsche proclamou a morte de Deus e a necessidade de o homem tornar-se o Übermensch (além-do-homem), criando seus próprios valores. Com ele, surge o pensamento do niilismo, a consciência do vazio deixado pela ausência de fundamentos objetivos para a vida. Ao lado de Kierkegaard, Nietzsche inaugura o palco para os dramas do século XX.
A consolidação no século XX: Sartre, Beauvoir, Camus
O existencialismo ganha corpo como movimento filosófico e cultural sobretudo com Jean-Paul Sartre (1905–1980). Para ele, a existência precede a essência: o ser humano não tem uma natureza fixa, mas se constrói a partir de seus atos. Isso significa que somos condenados à liberdade — sem escapatória. Toda escolha nos define, e fugir disso é cair na "má-fé". Sartre escreveu romances e peças teatrais, como A Náusea e Entre Quatro Paredes, que dramatizam essa angústia da existência.
Ao lado de Sartre, brilha Simone de Beauvoir (1908–1986), pensadora e feminista, que aplica os princípios existencialistas à condição da mulher. Em O Segundo Sexo, ela afirma: “não se nasce mulher, torna-se mulher”, desafiando papéis sociais naturalizados e apontando para a construção histórica e existencial da identidade.
Albert Camus (1913–1960), por sua vez, embora rejeitasse o rótulo de existencialista, é um dos autores mais associados ao movimento. Em obras como O Estrangeiro e O Mito de Sísifo, Camus descreve o absurdo da vida — a contradição entre a busca humana por sentido e o silêncio indiferente do universo. Para ele, viver é resistir ao absurdo com lucidez e rebeldia, como o Sísifo que empurra eternamente a pedra montanha acima, mesmo sabendo de sua queda inevitável.
Dostoiévski e os dilemas morais da liberdade
O romancista russo Fiódor Dostoiévski (1821–1881) também é figura central para a construção do pensamento existencial. Em obras como Notas do Subsolo e Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski antecipa os dilemas da liberdade radical, da culpa e da responsabilidade. Seu famoso personagem Ivan Karamázov proclama:
“Se Deus não existe, tudo é permitido”, confrontando o leitor com a vertigem da liberdade moral sem amarras divinas.
Em seus personagens, vemos o homem dilacerado entre fé e razão, entre redenção e destruição, que se torna espelho das angústias existenciais mais profundas da modernidade.
Desdobramentos e vozes contemporâneas
Nos tempos atuais, pensadores como Michel Houellebecq trazem um eco sombrio do existencialismo, misturando-o com a crítica social, o desencanto neoliberal e a solidão afetiva do mundo pós-moderno. Seu romance Plataforma, por exemplo, mostra um mundo onde o erotismo e o afeto são mercantilizados, e a busca por sentido se dá num vazio repleto de consumo e desespero.
Outros autores contemporâneos atualizam o existencialismo em diálogo com temas como a tecnologia, a biopolítica, o transumanismo e o colapso ambiental, mostrando que a pergunta sobre “o que é existir” permanece pulsante.
Críticas e contrapontos ao existencialismo
Embora influente, o existencialismo não ficou sem críticas. Uma das principais veio do estruturalismo, com pensadores como Michel Foucault e Claude Lévi-Strauss, que acusaram o existencialismo de excesso de subjetividade e de negligenciar as estruturas sociais, culturais e linguísticas que moldam o indivíduo. Para Foucault, a ideia de um “sujeito livre” é uma construção histórica, e a liberdade sartreana seria uma ilusão burguesa.
O marxismo ortodoxo também foi um crítico feroz do existencialismo, acusando-o de idealismo e de afastar-se das determinações materiais e históricas que moldam a existência humana. Sartre, em resposta, tentou uma síntese entre marxismo e existencialismo em obras como Crítica da Razão Dialética.
O legado do existencialismo
O existencialismo permanece como uma das expressões mais pungentes da crise da modernidade. Ele nos convida não a fugir da angústia, mas a encará-la como constitutiva da liberdade humana. A vida não tem um sentido pré-dado — e é exatamente por isso que pode ser construída.
Na música, no cinema, na arte e na literatura, o eco existencialista ainda ressoa. É um chamado a viver de forma autêntica, assumindo os riscos de ser, sem garantias. Como escreveu Sartre:
“O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo.”




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