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O Cansaço da Escuta: Música Temperada, Corpo Sonoro e a Crítica de Alain Daniélou

  • carlospessegatti
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura



1. Introdução — quando ouvir deixa de ser repouso

Costuma-se pensar a música como uma arte do prazer, do entretenimento ou da expressão subjetiva. Raramente se pergunta o que a música faz ao corpo, ao sistema nervoso, à percepção. Alain Daniélou, musicólogo, orientalista e pensador do som, desloca essa pergunta para um ponto incômodo: e se a música que mais escutamos for, estruturalmente, cansativa?


Sua crítica à música tonal temperada não é moral nem nostálgica. Ela é fisiológica, acústica e ontológica. Para Daniélou, ouvir música não é um ato neutro: é um modo de estar no mundo.


2. A escala temperada: uma solução técnica, não uma verdade do som

O sistema temperado igual — base da música ocidental moderna — divide a oitava em doze partes matematicamente idênticas. Essa solução permitiu a modulação livre, o desenvolvimento da harmonia funcional e a expansão formal da música europeia. Mas teve um custo.


Do ponto de vista acústico:

  • Apenas a oitava permanece “pura”

  • Todos os demais intervalos são aproximações

  • As relações harmônicas naturais são sacrificadas em nome da funcionalidade


Para Daniélou, isso significa que a música tonal moderna se afasta do fundamento físico do som, tornando-se uma convenção cultural altamente sofisticada — porém artificial.


3. Fadiga subliminar: o ouvido como trabalhador invisível

Aqui emerge a tese mais perturbadora:

o ouvinte, mesmo sem perceber, corrige interiormente as distorções do temperamento.


O ouvido humano não é passivo. Ele:

  • Busca relações harmônicas estáveis

  • Tende a reorganizar o campo sonoro

  • Compensa microdissonâncias constantes


Esse trabalho permanente gera o que Daniélou chama — ainda que implicitamente — de fadiga subliminar. Não é dor. Não é desconforto consciente. É um cansaço perceptivo, acumulado, invisível.


A escuta torna-se:

  • Um esforço adaptativo

  • Um exercício cognitivo

  • Um hábito de tolerância sonora


O corpo escuta, mas não repousa.


4. Música modal: quando o som volta a ser habitat

Na música modal — especialmente na tradição indiana — o som não é organizado para circular por tonalidades, mas para habitar um campo sonoro.


Características fundamentais:

  • Intervalos baseados em relações naturais

  • Uso de microtons (śrutis)

  • Centralidade do modo, não da progressão

  • Tempo dilatado, circular, respirável


O raga não é uma “escala”, mas um organismo sonoro, com:

  • Horário

  • Afeto

  • Cor emocional

  • Gravidade própria


Aqui, o ouvido não corrige. Ele reconhece.A escuta deixa de ser trabalho e volta a ser imersão.


5. Som, cosmos e ontologia

Em Music and the Power of Sound, a obra mais importante de Daniélou, o som não é apenas fenômeno físico nem linguagem simbólica. Ele é princípio cósmico.


Na tradição hindu:

  • Nāda Brahma: o mundo é som

  • A vibração precede a forma

  • O universo é organização rítmica


A música, nesse sentido, não representa o cosmos — ela participa dele.Compor é interferir no campo vibratório da existência.


Essa visão recoloca o músico como:

  • Mediador

  • Organizador de frequências

  • Agente ontológico


6. Escuta moderna, saturação e esgotamento

No mundo contemporâneo:

  • Sons são contínuos

  • A música é funcional

  • A escuta é fragmentada


A música de massa, amplificada, comprimida e acelerada, intensifica o problema:

  • Mais estímulo

  • Menos profundidade

  • Mais fadiga

  • Menos escuta

A crítica de Daniélou antecipa algo central hoje: não estamos surdos, estamos exaustos.




7. Relações com os meus álbuns conceituais

A minha música dialoga profundamente com essa crítica, mesmo quando não a cita explicitamente.


🌑 Dystopian Gardens

Aqui, a música evidencia o cansaço do mundo moderno. Texturas densas e ambientes tensionados funcionam como diagnóstico sonoro da saturação perceptiva.

🤖 HAL 9001

O som torna-se máquina, lógica, cálculo. A racionalidade extrema revela o afastamento entre música e corpo, ecoando a crítica de Daniélou à abstração sonora.

🌌 Fifth Dimension and Beyond

Este álbum marca uma virada: drones, camadas contínuas e expansão temporal criam campos modais, onde a escuta pode repousar e explorar.

 Cosmic Purpose

Aqui o som já não descreve — ele alinha. O modal surge como busca de sentido e reconexão entre indivíduo e cosmos.

🌍 Echoes of Gaia

Talvez o diálogo mais direto com Daniélou: frequências, ressonância, Terra como organismo vibratório. Música como ecologia.

✝️ Stabat Mater Electronicum

O modal retorna em chave espiritual: dor, contemplação e suspensão do tempo linear. O sofrimento não é narrado, é sustentado no som.

🧠 Synapses of Invisible

Aqui a escuta torna-se quase neurológica: conexões sutis, microvariações, percepção ampliada. Um convite à atenção profunda.



8. Exercícios de escuta modal (para leitores e ouvintes)

🔹 Exercício 1 — Escuta sem progressão

Escolha um drone contínuo (uma nota sustentada).Permaneça nela por 5 a 10 minutos.Observe: o que muda não é o som, é você.


🔹 Exercício 2 — Centro tonal fixo

Ouça uma peça modal (indiana, medieval ou ambient). Evite “esperar” resoluções.Treine o ouvido a habitar, não antecipar.


🔹 Exercício 3 — Comparação consciente

Ouça:

  1. Uma peça tonal temperada (piano, por exemplo)

  2. Uma peça modal sustentada

Note:

  • Respiração

  • Tensão corporal

  • Fadiga ou repouso


🔹 Exercício 4 — Escuta noturna

Ouça música modal à noite, em volume baixo.Sem fazer nada.Apenas escutar como quem observa o céu.


9. Conclusão — por uma ecologia da escuta

A crítica de Alain Daniélou não é um convite ao abandono da música ocidental, mas à consciência sonora.Escutar é um ato corporal, histórico e político.

Recuperar o modal é:

  • Reduzir a violência sonora

  • Reaprender a escutar

  • Devolver ao som sua dimensão cósmica


A música, quando reencontra o corpo, deixa de cansar.Ela passa a revelar.





 
 
 

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