A Escolha entre a Luz e a Sombra: O Livre Arbítrio em Santo Agostinho e a Origem do Mal
- carlospessegatti
- 4 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

COLEÇÃO: SÉRIE FILOSÓFICA
Entre fé e razão, Santo Agostinho forja uma teodiceia onde o mal não é substância, mas ausência – e o homem, por sua liberdade, torna-se responsável pela escuridão que escolhe.
“Não é o mal uma substância, mas a decadência de uma substância. Não é uma criação de Deus, mas a negação da criação divina dentro de nós.” — Agostinho de Hipona
Análise da Obra "Sobre o Livre Arbítrio", de Santo Agostinho
Escrito entre os anos 388 e 395, De Libero Arbitrio é uma das obras mais densas e desafiadoras de Santo Agostinho. Ela não apenas busca defender a justiça de Deus diante da existência do mal no mundo (a famosa teodiceia), como também propõe uma ontologia moral baseada na liberdade humana. É nesse ponto que Agostinho começa a flertar com uma racionalização da fé, muito antes de Descartes inaugurar oficialmente a Modernidade filosófica.
1. A Estrutura Dialógica e a Intenção da Obra
O texto se apresenta em forma de diálogo entre Agostinho e Evódio, seu discípulo. Logo no início, Evódio lança a questão fundamental: “De onde vem o mal, se Deus é o criador de tudo e é bom?” A partir daí, Agostinho tenta demonstrar que o mal não é criação de Deus, tampouco uma substância. O mal, afirma, é a ausência do bem, um afastamento voluntário da ordem divina — como uma sombra que só existe pela ausência de luz.
Essa noção já revela o quanto Agostinho está ancorado numa tradição platônica e neoplatônica, especialmente em Plotino, mas que ele adapta ao seu pensamento cristão.
2. O Livre Arbítrio: Uma Dádiva ou uma Armadilha?
Para Agostinho, o livre arbítrio (liberum arbitrium) é essencial para a moralidade: sem liberdade, não há responsabilidade; sem responsabilidade, não há justiça. Se o ser humano é capaz de escolher entre o bem e o mal, então ele pode ser justamente julgado por Deus.
Mas aqui reside a tensão central da obra: se Deus é onisciente e já sabe que iremos pecar, como podemos ser livres de fato? Agostinho não recua: a presciência divina não implica necessidade. Deus sabe, mas não determina. Essa distinção será fundamental para todo o pensamento cristão posterior e até mesmo para a filosofia moderna.
3. A Origem do Mal: Não Criado, mas Permitido
Agostinho rejeita a ideia maniqueísta (da qual ele mesmo participou na juventude) de que o mal seria uma força autônoma no universo. Para ele, o mal é privatio boni, a privação do bem. Um conceito metafísico que coloca o mal fora do campo do ser.
Esse ponto é crucial: ao negar uma substância ao mal, Agostinho preserva a bondade de Deus e responsabiliza o homem. O livre arbítrio permite que o homem se afaste do bem por orgulho, vaidade ou desejo, e ao fazê-lo, ele mergulha na ausência de luz – isto é, no mal.
4. O Uso Racional do Livre Arbítrio: Fé Rumo à Razão
Embora profundamente cristão e teológico, Agostinho estrutura sua argumentação com rigor lógico. Ele tenta provar a existência de verdades eternas e imutáveis que não dependem da experiência sensível, como os princípios da matemática ou da lógica, e que apontam para uma mente divina — antecipando a ratio como caminho para Deus.
Nesse ponto, sua filosofia se aproxima da tradição racionalista, pois ele considera que a razão pode conduzir o homem ao reconhecimento do bem e da verdade. O mal, portanto, ocorre quando o homem se recusa a seguir a razão, preferindo os prazeres sensoriais ou o orgulho de um falso domínio sobre o mundo.
5. Atualidade e Contrapontos Contemporâneos
Do ponto de vista contemporâneo, podemos reinterpretar essa concepção agostiniana como uma matriz para pensar as condições da responsabilidade ética em tempos de crise moral. Em um mundo onde algoritmos decidem, onde a vontade é capturada pelo consumo e a tecnociência, o livre arbítrio agostiniano ressurge como um chamado à consciência e à escolha ética. Afinal, a ausência do bem hoje pode ser não uma simples “sombra”, mas um vazio ativo — programado, fabricado, sistemático.



Comentários