A "Fala Interior" na Fenomenologia: Merleau-Ponty e Sartre
- carlospessegatti
- 17 de mai. de 2025
- 2 min de leitura

A fala interior (ou "discurso interno") é um conceito-chave na fenomenologia, especialmente em Maurice Merleau-Ponty e Jean-Paul Sartre. Ambos filósofos investigam como a linguagem e a consciência se entrelaçam na experiência humana, mas com abordagens distintas.
1. Merleau-Ponty: A Fala como Expressão Corporal
Para Merleau-Ponty, a fala interior não é um diálogo mental puramente abstrato, mas uma manifestação do corpo no mundo. Sua análise aparece principalmente em Fenomenologia da Percepção (1945).
Principais Ideias:
A fala nasce do gesto: Antes de ser um sistema de signos, a linguagem é um ato corporal, como um gesto que expressa significado.
Ex.: Quando dizemos "sim", não apenas pensamos a palavra – nosso corpo inteiro a vive (aceno de cabeça, tom de voz).
A linguagem é pré-reflexiva: A fala interior não é planejada racionalmente; emerge da nossa relação encarnada com o mundo.
Antes de articularmos palavras, já temos uma intenção silenciosa que o corpo traduz em linguagem.
O silêncio é fundante: A fala interior não é um "monólogo" – é um silêncio habitado por significados que só se tornam palavras depois.
Exemplo Merleau-Pontyano:
Quando você pensa "estou com fome", essa percepção já está carregada de uma experiência corporal (o estômago ronca, a boca saliva), não é um pensamento puramente intelectual.
2. Sartre: A Fala como Consciência de Si
Em O Ser e o Nada (1943), Sartre aborda a fala interior como parte da estrutura da consciência, ligada ao autoengano (má-fé) e à liberdade radical.
Principais Ideias:
A fala interior é uma forma de "consciência de si":
Quando pensamos "por que fiz isso?", estamos nos objetivando, como se fôssemos outro.
Isso revela a dualidade da consciência: somos ao mesmo tempo o que fala e o que escuta.
A linguagem pode ser má-fé:
Usamos a fala interior para fugir da liberdade, justificando ações como se fossem inevitáveis.
Ex.: "Eu sou assim mesmo" (como se a identidade fosse fixa, não uma escolha).
O silêncio da consciência pré-reflexiva:
Antes da fala interior, há um nível não verbal da consciência, onde simplesmente somos sem mediação de palavras.
Exemplo Sartriano:
Se você pensa "sou um fracassado", Sartre diria que essa fala interior é uma tentativa de se fixar numa identidade, negando a liberdade de mudar.
Comparação: Merleau-Ponty vs. Sartre
Aspecto | Merleau-Ponty | Sartre |
Origem da fala | Corporal (gestual) | Consciência autorreflexiva |
Relação com o mundo | Pré-linguística (já somos significado) | Mediação linguística (nos separa do ser) |
Papel do silêncio | Fundante (o não dito sustenta a fala) | Vazio a ser preenchido pela liberdade |
Crítica social | Menos presente | Ligada à má-fé e alienação |
Por Que Isso Importa?
A fenomenologia mostra que a fala interior não é um simples "pensar em palavras":
Para Merleau-Ponty, ela revela como o corpo pensa.
Para Sartre, ela expõe como nos iludimos com narrativas.
Ambos concordam: a linguagem não é um instrumento neutro – ela molda (e às vezes distorce) nossa experiência de existir.
Pergunta para reflexão:Quando você ouve sua "voz interna", ela parece mais um gesto corporal (Merleau-Ponty) ou um julgamento sobre si mesmo (Sartre)?
Referências:
MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção (1945).
SARTRE, J.-P. O Ser e o Nada (1943).



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