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A Fronteira da Razão: Quando a Razão Precisa se Conter

  • carlospessegatti
  • 26 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura


A crítica de Kant aos limites da razão diante do incondicionado


Immanuel Kant, em sua filosofia crítica — especialmente na Crítica da Razão Pura (1781) e na Crítica da Razão Prática (1788) — nos ensina que a razão humana não é onipotente. Ela é condicionada pelas estruturas que ela mesma impõe ao mundo. Sua principal tese é que a razão funciona muito bem dentro dos limites da experiência possível, mas tropeça e se perde quando tenta ultrapassá-los.


🔹 A Razão Pura e Seus Limites

Na Crítica da Razão Pura, Kant diferencia entre dois tipos de conhecimento:

  • Conhecimento empírico: aquele que parte da experiência sensível (por meio da intuição e da percepção).

  • Conhecimento a priori: independente da experiência, como os conceitos puros do entendimento (as categorias) e as formas puras da sensibilidade (espaço e tempo).


Kant mostra que toda tentativa de usar a razão pura especulativa para tratar de questões como Deus, a imortalidade da alma ou a liberdade absoluta — isto é, aquilo que está fora do espaço e do tempo — leva ao erro. Ele chama isso de antinomias da razão: contradições inevitáveis que surgem quando tentamos estender a razão além do domínio dos fenômenos (aquilo que podemos experimentar).


🔸 O Caso da Ideia de Deus

A razão, diz Kant, naturalmente busca o incondicionado — ela quer encontrar uma causa primeira, um fundamento último, algo que não dependa de nada além de si. E assim ela chega à ideia de Deus. Mas essa ideia, para Kant, é apenas uma ideia reguladora, não constitutiva. Ou seja: é uma ideia que serve para orientar nosso pensamento, mas não podemos provar sua existência pela razão pura.


👉 Tentativas racionais de provar Deus, como as provas ontológica (a partir do ser), cosmológica (a partir da causa primeira) ou teleológica (a partir da ordem do mundo), são desmanteladas por Kant — não porque sejam absurdas, mas porque a razão está tentando operar além do seu alcance legítimo.


🛑 O Momento em que a Razão Para

Kant afirma que:

"A razão deve reconhecer os limites que ela mesma impõe."


Essa frase resume sua atitude crítica. Kant nos adverte que há uma fronteira — o mundo dos númenos (das coisas em si) — que não pode ser atravessada pela razão teórica. Nós só conhecemos fenômenos, isto é, aquilo que aparece a nós sob as formas do espaço, do tempo e das categorias do entendimento.


Portanto, quando a razão tenta "ver Deus", ou "provar a alma", ou "compreender o infinito absoluto", ela não está mais operando cientificamente, mas metafisicamente, no sentido clássico — e isso, para Kant, é um erro inevitável, mas ainda assim um erro.


🕊️ A Razão Prática: Onde a Fé Racional Tem Lugar

Na Crítica da Razão Prática, Kant abre um novo campo: a razão moral.

Se não podemos provar Deus teoricamente, Kant afirma que precisamos supor a existência de Deus, da liberdade e da imortalidade da alma como postulados práticos, para que a moral faça sentido.


"Tive que restringir o saber para dar lugar à fé."


Essa frase célebre expressa a transição: a razão pura é limitada, mas a razão prática — ou seja, a razão que nos orienta na ação moral — exige que haja um bem supremo, uma justiça final, um fundamento ético absoluto — e esse é o campo onde a ideia de Deus volta com força, mas como exigência da razão prática, e não como certeza especulativa.


🎼 A Harmonia Entre os Limites e a Aspiração ao Infinito

Aqui há um ponto belíssimo que casa com a minha sensibilidade artística e filosófica:Kant não está simplesmente descartando Deus ou a metafísica, mas dizendo que essas ideias habitam uma zona liminar: não são objetos de conhecimento, mas ideias reguladoras que nos inspiram a buscar o Bem, a agir com retidão, e a olhar para o infinito com reverência, não com arrogância racional.


 Em resumo:

  • A razão não pode tudo: ela é limitada às condições da experiência sensível.

  • Conceitos como Deus, alma, liberdade são ideias transcendentes que a razão deseja, mas não pode conhecer.

  • O uso legítimo dessas ideias é prático e moral, não especulativo.

  • A filosofia crítica de Kant nos ensina a humildade do saber e a grandeza do agir.




 
 
 

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