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A Geração Ansiosa e a Técnica Digital: Entre a Alienação Cognitiva e a Possibilidade de Superação

  • carlospessegatti
  • 23 de mai. de 2025
  • 8 min de leitura



“Como as redes sociais moldam o futuro da juventude: entre alienação e potencial criativo”


Uma análise crítica das teses de Jonathan Haidt e Yuk Hui sobre o impacto das redes sociais e videogames no desenvolvimento infantojuvenil, à luz de uma perspectiva marxista e dos debates contemporâneos.


Nos últimos anos, tem crescido a preocupação com os efeitos das tecnologias digitais — especialmente redes sociais e videogames — no desenvolvimento cognitivo, afetivo e social das crianças e adolescentes. A produção acadêmica recente é vasta e, entre ela, destacam-se dois pensadores que, embora em tradições distintas, convergem na identificação de uma crise: Jonathan Haidt, com seu livro "The Anxious Generation" (2024), e Yuk Hui, com sua obra filosófica sobre a relação entre técnica e individuação. Este texto visa aprofundar a análise de ambos, articulando-os com uma crítica marxista da tecnologia, além de apresentar os contrapontos críticos que relativizam o pessimismo generalizado.


Jonathan Haidt e a “Grande Reconfiguração da Infância”


Em "The Anxious Generation", Jonathan Haidt argumenta que a infância contemporânea sofreu uma profunda transformação a partir da década de 2010, com a universalização dos smartphones e o acesso irrestrito às redes sociais. O autor, psicólogo social, descreve este fenômeno como "The Great Rewiring" — ou “a grande reconfiguração” — apontando que nunca antes uma geração foi tão moldada por ambientes virtuais como a atual.


Haidt apresenta uma série de dados epidemiológicos que indicam o aumento exponencial de transtornos mentais em jovens, especialmente ansiedade, depressão e automutilação, associando tais fenômenos diretamente ao uso excessivo de redes sociais. Ele enfatiza que a juventude contemporânea perdeu experiências fundamentais de desenvolvimento, como o brincar ao ar livre, a socialização espontânea e o enfrentamento gradual de desafios concretos, substituídas por interações mediadas por dispositivos que favorecem comparações sociais tóxicas, vigilância constante e gratificação instantânea.


Além disso, Haidt se preocupa com as consequências cognitivas: a superficialidade na leitura e na elaboração do pensamento, o declínio da atenção sustentada, e a diminuição da resiliência emocional. Daí temos a pergunta que não quer calar: como confiar nas futuras gerações, se estas se formam sob a lógica da distração permanente e do prazer imediato?


Propostas de Haidt:

  • Retardar o acesso a smartphones.

  • Reformular o design das plataformas para minimizar efeitos aditivos.

  • Incentivar políticas públicas que valorizem experiências presenciais e atividades ao ar livre.


Crítica marxista a Haidt: Embora valiosa na descrição dos efeitos, a análise de Haidt carece de uma crítica mais radical às condições materiais que produzem tal situação. Ele tende a naturalizar a existência dessas tecnologias como produtos neutros, não questionando suficientemente a lógica capitalista que molda a sua estrutura — baseada na economia da atenção, na monetização dos dados e na exploração do tempo de lazer e de formação dos jovens como fonte de lucro.


Yuk Hui e a Questão da Técnica: a Alienação como Destino?

Em outra vertente, o filósofo chinês Yuk Hui propõe uma reflexão mais ontológica sobre a técnica na contemporaneidade, especialmente em obras como "Recursivity and Contingency" (2019) e "Art and Cosmotechnics" (2021). Embora não trate diretamente das redes sociais ou dos videogames, sua filosofia da técnica é indispensável para compreender a infraestrutura tecno-científica que molda o ser humano no presente.


Yuk Hui critica a universalização de uma única tecnosfera global, baseada na lógica da eficiência, do controle e da expansão infinita — herdeira do projeto técnico ocidental. Ele sugere que tal unificação destruiu outras "cosmotécnicas", isto é, formas alternativas de pensar e praticar a técnica em articulação com valores culturais e espirituais locais.


Sua tese central é que vivemos uma era de alienação técnica, onde as tecnologias não são mais mediações conscientes, mas ambientes autônomos que moldam os modos de ser, pensar e sentir, de forma opaca e automatizada. Isso inclui as plataformas digitais e os sistemas algorítmicos que estruturam as redes sociais, os videogames e a cultura da gamificação generalizada.


Para Yuk Hui, a superação desse processo não se dá pela recusa das tecnologias, mas pela sua reorientação cosmopolítica: a criação de novos modos de individuação técnica que resgatem uma relação mais ética, situada e consciente com os artefatos tecnológicos.


Viés marxista na leitura de Yuk Hui: Sua crítica se aproxima de uma visão marxiana da alienação, embora sem o apelo à luta de classes como motor histórico. Ainda assim, ao denunciar a perda de autonomia humana diante de um sistema técnico global autônomo, Yuk Hui aponta para uma necessidade que Marx já identificava: a subordinação da técnica aos fins humanos, e não o contrário.


As Correntes Críticas que Defendem Potenciais Positivos

Embora Haidt e Yuk Hui desenhem quadros sombrios, há pensadores que defendem uma visão mais ambivalente ou até positiva sobre o envolvimento das crianças e adolescentes com as redes sociais e os videogames.

Entre eles, destacam-se:


  1. Jenkins, Ito e boyd, na obra "Participatory Culture in a Networked Era" (2016): defendem que as redes sociais promovem novas formas de participação cultural, colaboração e criação. Para esses autores, jovens não são apenas vítimas passivas, mas agentes ativos que podem desenvolver habilidades criativas, políticas e cognitivas no ambiente digital.

  2. Katie Salen e Eric Zimmerman, teóricos dos Game Studies, argumentam que os videogames são espaços importantes de desenvolvimento de habilidades como pensamento estratégico, resolução de problemas, cooperação e até ética.

  3. Críticas ao tecnopessimismo: Muitos estudiosos alertam para os perigos de uma visão excessivamente apocalíptica, que pode reforçar discursos geracionalistas e moralistas, desconsiderando as desigualdades sociais e a diversidade de experiências juvenis. Como destaca Sonia Livingstone, o impacto das tecnologias digitais não é homogêneo, mas mediado por fatores como classe, gênero e contexto familiar.


Síntese Crítica: Entre a Alienação e a Emancipação

O debate sobre o impacto das redes sociais e dos videogames na formação da juventude é, no fundo, um debate sobre os rumos da própria civilização tecnológica. Haidt diagnostica com clareza os sintomas, mas sua análise peca por não atingir as causas estruturais — ligadas à lógica do capital e da mercantilização da infância. Yuk Hui, por sua vez, oferece uma filosofia profunda sobre a alienação técnica, mas sua proposta de reorientação cosmopolítica carece de uma estratégia prática mais definida.


As visões otimistas, embora importantes, podem inadvertidamente reforçar o status quo, ao apostar na capacidade dos jovens de se adaptarem criativamente a um sistema técnico que, na essência, visa à extração de valor e à reprodução da lógica capitalista.


Sob uma perspectiva marxista, seria necessário articular a crítica à técnica com a crítica à propriedade privada dos meios tecnológicos e à centralização do poder informacional nas mãos de poucas corporações. A emancipação juvenil, nesse sentido, não passa apenas pela moderação no uso ou pela alfabetização digital, mas pela construção de uma sociedade em que a técnica esteja a serviço do desenvolvimento humano integral, e não subordinada à valorização do capital.


Outras obras e estudos importantes:

  • "Screen Schooled" (2017) de Joe Clement e Matt Miles — obra que antecipa algumas dessas discussões, enfatizando o impacto negativo das telas na educação.

  • Sherry Turkle em "Reclaiming Conversation" (2015) — aborda a perda da capacidade de diálogo e empatia com o predomínio das interações mediadas pela tecnologia.

  • Diversos estudos acadêmicos recentes, como aqueles publicados na revista Journal of Adolescence e Developmental Psychology, têm reforçado as preocupações com o impacto neurocognitivo do excesso de estímulos digitais.




    Leituras Complementares


    1. Bernard Stiegler — Tecnologias do Espírito (2010)


    Descrição:


    Stiegler, filósofo francês influenciado por Simondon e Derrida, desenvolve a ideia de que a técnica é constitutiva da própria individuação humana, mas denuncia que, no capitalismo contemporâneo, ocorre uma captura industrial da atenção, provocando a “destruição simbólica” e o empobrecimento do espírito. Sua obra oferece um dos mais sofisticados diagnósticos sobre o impacto psíquico e social das tecnologias digitais, aproximando-se da crítica feita por Yuk Hui.



    2. Shoshana Zuboff — A Era do Capitalismo de Vigilância (2019)


    Descrição:


    Zuboff analisa como a lógica do capitalismo de plataforma explora os dados pessoais, transformando a vida cotidiana em matéria-prima para acumulação de capital. Sua crítica ajuda a compreender as redes sociais não como instrumentos neutros, mas como mecanismos estruturais de controle e predição de comportamentos, aprofundando a alienação juvenil apontada por Haidt.



    3. Eva Illouz — As Emoções Capitalistas: O Afeto como Mercadoria (2019)


    Descrição:


    Illouz analisa como o capitalismo contemporâneo mercantiliza não apenas bens, mas também afetos e formas de subjetividade. A autora revela como plataformas como Instagram e TikTok transformam a exposição emocional em ativo econômico, alimentando ciclos de ansiedade e validação que impactam especialmente jovens e adolescentes.



    4. David Harvey — O Enigma do Capital (2010)


    Descrição:


    Harvey, geógrafo e teórico marxista, oferece uma leitura crítica da expansão do capital e de sua necessidade de colonizar novas esferas da vida. Embora não trate diretamente de redes sociais, sua análise ajuda a entender como o capitalismo digital representa uma nova fronteira para a valorização e extração de mais-valia, inclusive sobre o tempo livre e as interações juvenis.



    5. Henry Jenkins, Mizuko Ito e danah boyd — Participatory Culture in a Networked Era (2016)


    Descrição:


    Obra que contrapõe o tecnopessimismo ao ressaltar as possibilidades criativas e colaborativas abertas pela cultura participativa online. Mostra como jovens podem se engajar na produção de conteúdo, desenvolver competências cívicas e artísticas, desafiando a visão puramente patologizante do envolvimento juvenil com as mídias digitais.



    6. Yuk Hui — Recursivity and Contingency (2019)


    Descrição:


    Nesta obra seminal, Hui elabora sua teoria da recursividade como princípio fundamental dos sistemas técnicos, argumentando que as tecnologias moldam, mas também são moldadas pelas contingências culturais e históricas. Essencial para aprofundar a compreensão da sua crítica à tecnificação global e à necessidade de novas cosmotécnicas.



    7. Jonathan Haidt — The Anxious Generation (2024)


    Descrição:


    Obra mais recente de Haidt, onde sintetiza anos de pesquisa sobre saúde mental juvenil e redes sociais. Apresenta um panorama claro e acessível sobre os efeitos deletérios da digitalização da infância, sugerindo propostas de mitigação, ainda que sem aprofundar as causas estruturais do problema.



    8. Byung-Chul Han — Psicopolítica: Neoliberalismo e as Novas Técnicas de Poder (2014)


    Descrição:


    Han diagnostica a passagem de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de autocontrole e autoexploração, na qual sujeitos internalizam a lógica da produtividade e da exposição. Sua crítica ao “poder inteligente” que opera pelas tecnologias de comunicação complementa e aprofunda as análises de Haidt e Hui sobre o impacto das redes sociais.



    9. Silvia Federici — O Ponto Zero da Revolução (2017)


    Descrição:


    Federici investiga a colonização capitalista dos corpos e das subjetividades, oferecendo um aporte importante para pensar como o tempo de reprodução social — que inclui o lazer infantojuvenil — é transformado em tempo produtivo pela lógica das plataformas digitais. Essencial para pensar uma crítica feminista e marxista das tecnologias.



    10. Mark Fisher — Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo (2009)


    Descrição:


    Fisher explora como o capitalismo cria um clima de resignação e desamparo, moldando não só as instituições, mas também as formas de percepção e de desejo, inclusive das novas gerações. Sua crítica ao mal-estar subjetivo contemporâneo se articula diretamente com a “geração ansiosa” descrita por Haidt.



    Conclusão


    Diante do diagnóstico crítico sobre os impactos das redes sociais e da hiperexposição tecnológica na formação subjetiva das novas gerações, fica evidente que não se trata apenas de um problema individual ou psicológico, mas de uma profunda mutação cultural e econômica, inscrita no próprio metabolismo do capitalismo contemporâneo. As análises de Yuk Hui e Jonathan Haidt revelam, cada qual a seu modo, as dimensões técnicas e psicossociais dessa transformação, enquanto pensadores como Stiegler, Zuboff, Illouz, Han e Fisher aprofundam a compreensão de como o capital se infiltra nas camadas mais íntimas da experiência humana, transformando a atenção, os afetos e até mesmo o lazer em formas de extração de valor. 


Entretanto, obras como a de Jenkins, Ito e boyd lembram que, mesmo nesse cenário adverso, existem frestas de resistência, criatividade e apropriação emancipadora das tecnologias. Assim, uma crítica marxista atualizada não pode recair nem na tecnofobia reacionária, nem na apologia ingênua da inovação, mas deve buscar pensar caminhos de superação que articulem a crítica radical do capitalismo à defesa de formas de vida mais livres, conscientes e solidárias, sobretudo para as novas gerações que herdarão este mundo em crise.



 
 
 

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