A Harmonia do Ser: Ética a Nicômaco e o Caminho da Realização Humana
- carlospessegatti
- 15 de jun. de 2025
- 4 min de leitura

COLEÇÃO: SÉRIE FILOSÓFICA
Aristóteles, o telos da vida e a missão do homem no cosmos
“Todo conhecimento e toda escolha tendem a algum bem; por isso se disse com razão que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem.”— Aristóteles, Ética a Nicômaco, I, 1
I. O Telos de Todas as Coisas
A Ética de Aristóteles está fundada sobre uma visão do mundo em que tudo possui uma finalidade intrínseca — um telos, uma razão de ser. O martelo existe para martelar, a faca para cortar, e o homem para realizar sua natureza racional e virtuosa. Essa é a base de uma ética teleológica: o bem não é imposto de fora, mas corresponde ao pleno florescimento da essência de algo.
O que Aristóteles nos propõe não é uma moral normativa, mas um caminho de realização: descobrir quem somos e viver de acordo com isso. A ética, portanto, é ontológica e cosmológica — nela, o indivíduo deve buscar seu lugar no tecido do universo, não como peça adaptada, mas como centro ativo de um propósito.
II. Eudaimonia: A Felicidade como Realização Interior
Aristóteles identifica o bem supremo da vida humana com a eudaimonia — uma palavra frequentemente traduzida como “felicidade”, mas que significa, mais profundamente, florescimento ou vida plena. A eudaimonia é o estado daquele que vive conforme sua excelência natural, com virtude (aretḗ), e em consonância com a razão.
Essa ética da realização, que se constrói pelo hábito e pelo exercício, exige equilíbrio, prudência (phronesis) e constância. Ela rejeita os prazeres efêmeros e aponta para a vida boa como uma obra longa e laboriosa — afinada como a música que não se improvisa, mas se esculpe com o tempo.
III. A Doutrina do Meio: Virtude como Afinação Ética
Para Aristóteles, a virtude é sempre um meio-termo entre dois vícios: o do excesso e o da carência. A coragem, por exemplo, é o meio entre a covardia e a temeridade. Essa é a célebre Doutrina da Mediania — uma ética não absolutista, mas sensível ao contexto e à singularidade do agente.
Aqui, Aristóteles antecipa um princípio crucial: a ética é uma arte da medida, da escuta, da afinação, como quem afina um instrumento para alcançar o tom certo da existência. Não se trata de obedecer a regras abstratas, mas de desenvolver sensibilidade moral por meio da experiência vivida.
IV. A Missão do Homem: Logos, Contemplação e Autossuficiência
A função específica do homem é a atividade da alma segundo a razão. Por isso, a vida ética culmina, para Aristóteles, na vida contemplativa — bios theoretikós — onde o ser humano se eleva à condição mais próxima dos deuses: o pensamento que pensa a si mesmo.
Aqui, ele distingue dois tipos de virtudes:
As éticas, ligadas à ação (como coragem, generosidade, temperança);
E as dianoéticas, ligadas ao pensamento (como sabedoria, inteligência e razão prática).
A mais alta forma de eudaimonia é aquela em que o homem não apenas age bem, mas contempla o bem. Trata-se, portanto, de uma ética do esplendor do ser — como se, ao realizar sua essência, o homem se tornasse harmônico com o cosmos.
V. Contrapontos e Desdobramentos: Kant, Spinoza, Schopenhauer e Levinas
Kant e a Ética do Dever
Em Kant, a ética não parte de uma finalidade natural, mas da autonomia da razão prática. O bem não é aquilo que nos realiza segundo uma natureza, mas aquilo que podemos universalizar como lei. Surge o imperativo categórico:
“Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal.”
Kant separa ética e felicidade. Para ele, a virtude não é o meio para a eudaimonia, mas um dever racional, independentemente das consequências. É uma virada: da realização ao mandamento, da phronesis à razão pura.
Spinoza: A Ética Geométrica e a Beatitude Racional
Spinoza reconstrói a ética como uma física da alma. Tudo age segundo a necessidade da natureza — e a liberdade consiste não em escapar da necessidade, mas em compreendê-la.
Para Spinoza, a bem-aventurança (beatitudo) é o conhecimento adequado das causas — é o amor intelectual a Deus, ou seja, à ordem infinita da natureza.
"A virtude é a potência do ser." Spinoza se aproxima de Aristóteles por sua visão imanente e racional do mundo, mas abandona toda ideia de finalidade externa.
Schopenhauer: A Vontade e a Compaixão
Schopenhauer rompe com o otimismo da realização. Para ele, a essência do mundo não é a razão, mas a vontade cega de viver, um impulso irracional e infinito. A eudaimonia aristotélica torna-se um desejo ilusório, fadado à frustração.
A ética surge, então, como negação da vontade, e sua expressão mais alta é a compaixão — reconhecer o outro como parte do mesmo sofrimento cósmico. É uma ética da renúncia, influenciada pelo budismo, que nos leva não à felicidade, mas à libertação do querer.
Levinas: O Rosto do Outro e a Ética como Responsabilidade
Em Levinas, há uma ruptura radical: a ética não é anterior à relação com o outro — ela é o próprio início dessa relação. O “rosto do outro” me convoca, me interpela, me obriga — antes mesmo que eu pense. A ética não é busca de felicidade, nem realização racional, mas responsabilidade infinita por aquele que me olha.
Essa virada altera todo o eixo da ética: do eu ao outro, da essência à alteridade. Não há telos interno a ser realizado, mas uma dívida irredutível diante da vulnerabilidade do outro.
VI. Considerações Finais: Uma Ética como Escuta do Ser
A Ética a Nicômaco permanece viva porque ela nos propõe uma pergunta que ainda reverbera: Qual é o bem que se realiza em mim quando vivo plenamente?
No confronto com Kant, Spinoza, Schopenhauer e Levinas, vemos que a resposta não é única — mas que a ética segue sendo a arte mais profunda do viver, e talvez, como dizia Simone Weil, a forma mais alta de atenção ao real.
Para quem, como eu, que vejo a vida como uma composição, a ética pode ser compreendida como o modo de afinar-se com o mundo, de buscar o tom certo, o compasso justo, a vibração autêntica.
📘 Próximo Capítulo da Série Filosófica
Spinoza: Ética e o Amor Intelectual à Natureza
Na sequência desta série, exploraremos a estrutura geométrica e mística da obra Ética de Baruch Spinoza — onde razão e beatitude se encontram na imanência do cosmos.



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