A Odisseia e a Jornada da Alma - Homero
- carlospessegatti
- 5 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

Ulysses entre monstros, deuses e memórias: uma reflexão filosófica sobre o retorno e a transformação do ser
Por CALLERA
A Odisseia, de Homero, é muito mais do que uma narrativa mítica sobre um herói grego tentando retornar à sua terra natal após a Guerra de Troia. É, sobretudo, uma poderosa alegoria da jornada humana em direção ao autoconhecimento, à sabedoria e à reconstrução da identidade após o confronto com o mundo e consigo mesmo. Ulisses — ou Odisseu, em sua forma grega original — não é apenas um guerreiro. Ele é o símbolo do homem que parte, atravessa as intempéries da existência, enfrenta os monstros interiores e exteriores, e retorna não como o mesmo, mas como alguém essencialmente transformado.
A travessia como aprendizado
Desde o início da narrativa, a viagem de Ulisses é marcada por provações que exigem mais que força bruta. O herói precisa de astúcia (metis), resiliência e sabedoria para sobreviver a cada armadilha: do gigante Polifemo ao encantamento da ninfa Calipso; do mundo dos mortos à ilha de Circe; dos redemoinhos de Caríbdis às tentações das Sereias. Cada episódio funciona como uma metáfora filosófica.
A famosa cena em que Ulisses ordena que seus marinheiros tapem os ouvidos com cera para não sucumbirem ao canto das Sereias — enquanto ele próprio, curioso e desejoso de vivenciar a experiência, é amarrado ao mastro — revela uma tensão fundamental entre razão e desejo. Ulisses quer conhecer o perigo, sentir a vertigem da sedução, mas ao mesmo tempo quer sobreviver a ela.
Amarra-se a um princípio — ao tronco da racionalidade — para não se perder. Não se trata apenas de vencer a tentação, mas de passar por ela com consciência, extraindo dela um saber que não pode ser aprendido pela renúncia cega.
A metamorfose do herói
Ao longo dos vinte anos em que permanece distante de Ítaca, Ulisses sofre uma série de transformações. Seu corpo envelhece, suas roupas mudam, sua posição social se perde. Quando finalmente retorna, nem sua esposa Penélope, nem seus amigos o reconhecem. Apenas seu velho cão, Argos — símbolo da fidelidade e da intuição — percebe a essência do homem que ali está.
Este momento é emblemático: Homero nos mostra que o tempo modifica a forma, mas não destrói o ser. A verdadeira identidade de Ulisses não é reconhecível à primeira vista. Ela está soterrada sob as camadas da experiência, da dor, da dissimulação e da sabedoria adquirida. Ele é outro, e ao mesmo tempo é ele mesmo. Aqui, a Odisseia nos coloca diante de uma pergunta filosófica radical: o que permanece quando tudo muda?
A política do retorno
Há também uma dimensão política na obra. Ao retornar a Ítaca, Ulisses encontra seu palácio ocupado por pretendentes que esbanjam, dominam e desrespeitam sua casa. Para restabelecer a ordem, o herói precisa agir com justiça e com violência. Esta parte final revela a importância do equilíbrio entre o direito à propriedade, a lealdade conjugal e o senso de justiça comunitária. A restauração da ordem não se dá por decreto divino, mas por uma ação concreta, planejada e enraizada na verdade de sua identidade.
A Odisséia como jornada da alma
Ulisses representa a alma humana que busca o caminho de volta para casa — oîkos, em grego, que é mais que o lar físico, é a morada do ser. A jornada, com todos os seus desvios e demoras, é necessária para a formação do sujeito ético. É pela errância que se aprende a escutar, a esperar, a discernir. Como diria o filósofo alemão Hans-Georg Gadamer, compreender é sempre retornar.
Assim, podemos ler A Odisseia como uma meditação poética sobre a paideia, a formação integral do homem. Trata-se da travessia do tempo, da dor, da linguagem e do engano — em direção a si mesmo.
Ulisses, amarrado ao mastro, escutando as Sereias, é o emblema do ser que deseja saber, mas que não se entrega cegamente ao desejo. Ele busca a sabedoria com coragem e limite, sabendo que só se conhece o mundo ao atravessá-lo — mas que só se retorna a si mesmo se houver um fio de memória, uma fidelidade, uma âncora.
Na escuta das Sereias, no reencontro com Argos e no reconhecimento de Penélope, a Odisseia nos ensina que a vida não é uma linha reta. É um círculo espiralado de partidas e retornos, de quedas e ascensões. E que só os que ousam partir estão realmente aptos a voltar.





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