A Revolução Francesa: O Nascimento do Mundo Burguês
- carlospessegatti
- 29 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

Da Queda do Antigo Regime ao Surgimento da Direita e da Esquerda Políticas
“Entre cabeças caídas e ideais em fogo,
ergueu-se o trono invisível do capital.
A liberdade marchava sob novas correntes,
e o povo, herói por um instante, voltou a ser engrenagem.”
A Revolução Francesa, iniciada em 1789, foi mais do que uma revolta contra a monarquia absolutista. Ela representou a ruptura de uma ordem social ancorada em privilégios hereditários e o advento de uma nova racionalidade política e econômica: a racionalidade burguesa. O Antigo Regime – estruturado em torno da monarquia, da nobreza e do clero – começava a ruir diante da ascensão de uma classe social emergente, enriquecida com o comércio, a indústria e as ideias iluministas: a burguesia.
Este novo sujeito histórico encontrou na Revolução o terreno fértil para legitimar seu poder, reinterpretando os valores de liberdade, igualdade e fraternidade à luz de seus próprios interesses. Ao mesmo tempo, a Revolução se tornou o palco de uma profunda reorganização do mundo moderno, funcionando como ponte para o capitalismo industrial que emergiria com mais força logo após, na Inglaterra, com a Revolução Industrial.
A Ascensão Burguesa e o Capitalismo Emergente
Adam Smith, o pai da economia política clássica, publicara A Riqueza das Nações em 1776, apenas treze anos antes da queda da Bastilha. Seu argumento em favor da liberdade de mercado, da livre concorrência e do trabalho como medida de valor forneceu as bases teóricas para a nova ordem econômica que se avizinhava. A burguesia revolucionária viu nessa doutrina um caminho possível para legitimar a substituição da aristocracia pela meritocracia do capital e do trabalho produtivo.
Entretanto, como observaria Karl Marx algumas décadas mais tarde, essa transformação representava apenas a substituição de uma forma de dominação por outra. Em O Manifesto Comunista (1848), Marx e Engels afirmam que “a história de todas as sociedades até hoje é a história da luta de classes”.
A Revolução Francesa foi a vitória de uma classe contra outra: da burguesia contra a nobreza feudal. Contudo, não representou o fim das desigualdades, mas o surgimento de uma nova classe explorada – o proletariado – que logo encontraria seu lugar nas fábricas do capitalismo nascente.
Três Estados, Dois Lados: O Nascimento da Esquerda e da Direita
Na esteira da Revolução, a Assembleia Nacional Constituinte foi formada com representantes dos chamados Tiers États: o Primeiro Estado (clero), o Segundo Estado (nobreza) e o Terceiro Estado (o povo, majoritariamente burguês e camponês). Na histórica reunião da Assembleia, os representantes se sentaram de acordo com seus interesses sociais: à direita do presidente da mesa, os aristocratas e o clero; à esquerda, os defensores das reformas populares, representantes do Terceiro Estado.
Foi assim que surgiu a distinção entre direita e esquerda no espectro político – distinção que perdura até hoje. A direita passou a ser associada à conservação da ordem, à propriedade privada e aos valores tradicionais; a esquerda, à luta por igualdade, redistribuição de riqueza e justiça social. Essa polarização, inicialmente circunstancial, logo se transformaria num eixo estrutural da política moderna.
A Revolução Industrial: O Complemento Inglês
Enquanto a França era sacudida pela instabilidade revolucionária, a Inglaterra consolidava silenciosamente outra transformação – a Revolução Industrial. Com a máquina a vapor, o tear mecânico e a organização fabril do trabalho, o capitalismo tomava forma em sua expressão mais brutal e eficiente. O capital industrial substituía o capital mercantil, e o tempo de vida humana começava a ser cronometrado por relógios de fábrica.
A articulação entre Revolução Francesa e Revolução Industrial deu origem ao mundo moderno como o conhecemos. Um mundo regido pelo valor de troca, pela mercantilização da vida, pela produção em massa e pela concentração de riqueza. As promessas de liberdade e igualdade da Revolução Francesa foram reconfiguradas pelos imperativos do capital.
Um Legado em Disputa
Ainda hoje, os ecos de 1789 ressoam nos debates contemporâneos. A luta por democracia, por justiça social, por direitos humanos e igualdade de oportunidades carrega em seu DNA as contradições e esperanças daquela Revolução. O próprio conceito de cidadania nasceu ali, entre a guilhotina e a Assembleia, entre o clamor popular e os interesses da nova ordem econômica.
Como lembra Hannah Arendt, a Revolução Francesa tentou articular liberdade política e justiça social, mas acabou capturada pelas urgências materiais e pela violência de classe. Já para Marx, o verdadeiro legado da Revolução não foi sua promessa, mas a revelação de seus limites históricos – os limites do poder burguês travestido de emancipação universal.




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