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Adam Phillips e o Mal-Estar Contemporâneo

  • carlospessegatti
  • 7 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura


Da sociedade que teme a si mesma ao desejo de transformação: uma leitura crítica da entrevista de 2003 e do livro Sobre querer mudar


“As pessoas não sabem o que querem, mas sofrem como se soubessem.” — Adam Phillips


1. A Atualidade Profética de Adam Phillips

Em 2003, Adam Phillips — psicanalista britânico de formação freudiana e sensibilidade literária — concedeu uma entrevista à Veja que hoje soa como diagnóstico sociocultural do século XXI. Suas palavras, longe de pertencerem ao arquivo de um tempo passado, tornaram-se ainda mais agudas em 2025. O que ele viu com clareza, foi a formação de um novo regime emocional: uma cultura que teme a própria humanidade.


Para Phillips, a modernidade tardia converteu as vulnerabilidades inescapáveis — morte, acaso, envelhecimento, fracasso — em adversários morais. Vivemos como se o sofrimento fosse erro e a imperfeição, falha de caráter. O resultado é um imaginário social no qual o controle absoluto se tornou fantasia central. O corpo deve ser otimizado, a vida deve ser higienizada, as emoções devem ser positivas. Tudo o que ameaça esse mito é percebido como crise pessoal.


Nessa transmutação, um ideal ético foi substituído por um ideal performativo. A vida boa cedeu lugar à vida invejável. O sujeito contemporâneo não ambiciona tanto ser, mas parecer. A lógica do espetáculo — denunciada por Debord e aprofundada por Bauman — finalmente alcançou o íntimo: transformou desejo em vitrine, afeto em produto, subjetividade em algoritmo de engajamento.


É nesse ponto que a visão de Phillips se aproxima da crítica marxista da mercadoria: a forma mercadoria não apenas estrutura o mundo material, mas passa a regular a economia emocional do sujeito. O valor de uso das experiências — viver, sentir, sonhar — é substituído por seu valor de troca: visibilidade, aplauso, reconhecimento.


2. A Inquietação Estrutural: Quando o Cotidiano Vira Patologia

A entrevista também antecipa algo hoje evidente: a patologização total da vida. Tristeza vira depressão, inquietação vira transtorno, tédio vira disfunção. A indústria diagnóstica expande-se à medida que a tolerância coletiva ao mal-estar diminui. Em vez de viver emoções, deseja-se administrá-las.


Phillips alerta: a psicanálise não existe para produzir pessoas “funcionais”. A tarefa analítica é outra — abrir espaço para perguntar: o que estou tentando fazer da minha vida? O risco contemporâneo é imaginar que o sofrimento é sempre um defeito a ser eliminado, e não parte do trabalho de existir.


3. Infância, Cultura e Desorientação: O Lugar Perdido da Imaginação

Um dos pontos mais fortes do texto é sua reflexão sobre a infância. Crianças são empurradas para a lógica do desempenho antes de terem tempo para imaginar. A fantasia — motor psíquico da criatividade, da subjetividade, é consumida pela urgência de competir.


Os pais tentam impor limites, mas a cultura dissolve todos eles. A tensão é insustentável: famílias pedem prudência; a publicidade vende excesso. E as crianças, incapazes de interpretar criticamente esse turbilhão, ficam no pior lugar possível: poderosas e perdidas.


Para Phillips, não se trata de vigiar crianças, mas de ensiná-las a ler o mundo — a alfabetização simbólica que o capitalismo tardio não oferece.


4. A Crítica à Mercantilização da Psicanálise

Em tom quase ético, Phillips denuncia o risco de transformar o tratamento analítico em luxo. A psicanálise deveria ser um espaço de fala e silêncio, não um mercado de soluções. Quando vira mercadoria, trai sua própria promessa.


Quando vira item de prestígio, deixa de ser reflexão e torna-se consumo.

Seu diagnóstico é direto: vivemos uma cultura que produz excesso, velocidade e ansiedade, mas não ensina a decifrar o mundo que fabrica.


5. Adam Phillips por Dentro: Uma Análise Detalhada de Sobre querer mudar

Se a entrevista de 2003 é um retrato da sociedade, Sobre querer mudar (2012) é uma anatomia das forças internas que nos movem. Trata-se de um dos livros mais densos e poéticos de Phillips, onde ele investiga a pergunta que atravessa toda vida humana: por que queremos mudar — e por que tantas mudanças fracassam?

5.1. A tese central

Phillips argumenta que o desejo de mudança nasce, quase sempre, de duas fontes conflitantes:

  1. O sofrimento de quem não suporta mais a própria vida.

  2. A fantasia de que existe um “eu ideal” esperando para emergir.

Entre essas duas pressões, o sujeito cria investimentos imaginários que podem libertar ou aprisionar. A mudança, diz ele, é sempre uma negociação entre quem somos e quem tememos ser.

5.2. A mudança como narrativa — e não como evento

Phillips recusa a ideia de transformação como salto heroico. Para ele, mudamos quando nossas histórias internas mudam. A vida psíquica é um conjunto de narrativas: algumas herdadas, outras impostas, outras inventadas.


Mudar é reescrever essas histórias, e não substituí-las por um manual de instruções.

5.3. O obstáculo fundamental: o medo do desejo

O livro insiste em algo crucial: o desejo é a força mais temida de todas. Queremos mudar, mas tememos o que a mudança exigirá de nós.


Muitos fracassos terapêuticos, escreve Phillips, não vêm da resistência à mudança, mas da resistência ao que a mudança revela — aquilo que realmente queremos, mas não ousamos admitir.

5.4. A crítica cultural atravessa o livro

Assim como na entrevista, Phillips mostra:

  • a cultura do desempenho tornando a mudança um imperativo moral;

  • o mercado transformando o self em projeto de consumo;

  • a psicologia positiva convertendo o desejo em disciplina.

Ele vê nisso uma nova forma de opressão: o sujeito deve ser sempre melhor, mais eficiente, mais adaptado. É o “capitalismo da felicidade”.

5.5. A beleza do livro: a delicadeza do possível

Ao contrário das teorias duras sobre mudança, Phillips oferece uma visão suave e profundamente humana: Mudar não é reparar uma máquina, é descobrir possibilidades de viver que não conhecíamos. A mudança legítima é aquela que amplia a vida, não a que a aperta.


6. Convergência: Entrevista e Livro numa Só Lógica

O que liga a entrevista de 2003 a Sobre querer mudar é um eixo comum: a crítica ao ideal cultural que nos obriga a sermos versões vendáveis de nós mesmos.

  • A entrevista descreve o contexto social do mal-estar.

  • O livro descreve como esse mal-estar se infiltra no desejo individual.


Juntos, formam uma leitura poderosa da subjetividade contemporânea: somos sujeitos exaustos não porque queremos mudar demais, mas porque somos pressionados a mudar sempre para atender a expectativas que não são nossas.


7. Conclusão: A Atualidade Radical de Phillips

Phillips fala ao nosso tempo porque recusa a fantasia moderna de que existe resposta final para a vida. Ele lembra que a experiência humana envolve contradição, ambivalência, fragilidade — e que não há vacina contra isso.


Sua obra é um convite para reaprender a viver: menos como espetáculo, mais como encontro. Menos como desempenho, mais como desejo. Menos como fuga de nós mesmos, mais como escuta do que ainda podemos ser.


E como ele próprio diria: Mudamos quando conseguimos imaginar um modo diferente de viver — e quando esse modo nos parece menos assustador do que continuar sendo quem somos.



 
 
 

1 comentário


Convidado:
08 de dez. de 2025

Interessante abordagem da psiquê humana.

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