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Agnotologia - Estudo das Políticas de Produção da Ignorância

  • carlospessegatti
  • 20 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 21 de dez. de 2025



Agnotologia é o estudo das políticas de produção da ignorância. O neologismo foi criado pelo historiador americano Robert N. Proctor, da Universidade de Stanford, em diversas palestras que ministrou em 2005. A partir dessas palestras, escreveu o livro "Agnotologia: a construção e a desconstrução da ignorância".


Robert Proctor e Ian Bolin cunharam o termo agnotologia para designar o estudo da ignorância. Este artigo propõe-se a superar a visão da ignorância como um vazio que pode ser preenchido pelo conhecimento e nos convida a pensar sobre as maneiras pelas quais é produzido hoje, de maneira premeditada e estrutural: por negligência, miopia, sigilo ou supressão. O autor mostra que a criação deliberada da ignorância é uma estratégia para enganar e semear dúvidas sobre os fatos observados e sobre o conhecimento científico, tomando como exemplo o papel dos segredos comerciais, a atividade das empresas de tabaco em negar a relação causal entre os tabagismo e câncer e o papel do segredo militar, e isso também se aplica na negação à eficácia das vacinas e às mudanças climáticas.


Em seu livro, Proctor analisa alguns casos em que a ignorância é uma expressão de valores morais, como a proibição, em algumas universidades, de pesquisas cujo único objetivo é o lucro e, em algumas revistas científicas, a publicação de obras financiadas por determinadas fontes, como a rejeição de certas tecnologias por razões intelectuais e morais bem fundamentadas.



"O que não sabemos e por que não sabemos? O que mantém a ignorância viva ou permite que ela seja usada como instrumento político? Agnotologia — o estudo da ignorância — oferece uma nova perspectiva teórica para ampliar as questões tradicionais sobre "como sabemos" e perguntar: Por que não sabemos o que não sabemos? Os ensaios reunidos em Agnotologia mostram que a ignorância é frequentemente mais do que apenas uma ausência de conhecimento; ela também pode ser o resultado de lutas culturais e políticas. A ignorância tem uma história e uma geografia política, mas também há coisas que as pessoas não querem que você saiba ("A dúvida é o nosso produto" é o slogan da indústria do tabaco)."



1. Escrita como resistência à agnotologia

O texto opera em três camadas centrais:


1.1. A dificuldade como valor político


“Continuar falando de coisas difíceis num tempo em que o fácil viraliza mais rápido.”


Aqui está um ataque direto à economia da atenção, que privilegia simplicidade enganosa, slogans e afetos rápidos. Proctor, ao longo de sua obra, mostra que a ignorância não é apenas ausência de conhecimento, mas produto ativo de sistemas sociais, especialmente quando há interesses econômicos e políticos em jogo.


Para Proctor, “o difícil” não é apenas complexo — é antissistêmico. A dificuldade exige tempo, leitura, mediação conceitual. Tudo aquilo que o regime algorítmico contemporâneo tenta eliminar.


👉 Em termos agnotológicos: quanto mais difícil algo é de explicar, maior o incentivo sistêmico para que ele não seja explicado.


1.2. Contra a gritaria das certezas rasas


“Quando o mundo parece preferir gritar certezas rasas.”


Aqui surge um diagnóstico preciso do debate público contemporâneo: não se trata de ignorância passiva, mas de hiperprodução de falsas certezas.


Isso dialoga diretamente com:

  • fake news

  • negacionismos científicos

  • moralismos simplificados

  • polarizações artificiais



Proctor demonstra, em seus estudos sobre a indústria do tabaco, que não é preciso convencer — basta confundir. O grito substitui o argumento. A repetição substitui a prova.


Portanto, aponta para uma crise epistêmica: não é que não haja conhecimento disponível — é que ele foi soterrado por ruído.


1.3. Escrita como resistência lúcida


“Sentar para escrever sobre isso é, para mim, uma forma de resistência lúcida.”

Este é o núcleo ético do que o Robert fala.


A resistência aqui não é panfletária, nem heróica, nem performática. É lúcida — ou seja:


  • consciente de seus limites

  • ciente da assimetria de forças

  • ainda assim, deliberadamente comprometida



Escrever torna-se um gesto contra-hegemônico, mas sem ilusões messiânicas. É resistência de baixa intensidade, porém de alta densidade simbólica.


Esse ponto ecoa fortemente Adorno, Benjamin e também Foucault: pensar bem é um ato político em tempos de pensamento administrado.


1.4. Confiança residual no leitor


“Um gesto de confiança em quem ainda lê com atenção.”


Aqui há algo profundamente importante: o texto recusa tanto o elitismo quanto o populismo.


Não pressupõe um “povo esclarecido”, mas também não despreza o leitor. Há uma aposta ética na existência de sujeitos ainda capazes de atenção prolongada, mesmo sob o bombardeio algorítmico.


Isso se alinha perfeitamente à minha própria postura: escrever não para viralizar, mas para formar constelações de sentido.


1.5. Conhecimento como munição crítica


“Se isso aqui servir como munição para quem pensa criticamente…”


A metáfora bélica é precisa, mas não violenta. Trata-se de munição cognitiva, não de slogans.


O texto assume que:


  • o mundo opera como uma engrenagem

  • reconhecê-la já é um primeiro ato de libertação

  • compartilhar conhecimento é ampliar a capacidade coletiva de leitura do real


Isso é agnotologia às avessas: em vez de fabricar ignorância, produzir clareza.




Pensar Devagar em Tempos de Ignorância Rápida


Por Callera Jarreliss


Vivemos uma época em que o fácil circula mais rápido que o verdadeiro. O simples — ainda que falso — é recompensado por algoritmos, enquanto o complexo é penalizado pelo tempo que exige. Pensar tornou-se um gesto suspeito. Explicar, um luxo. Duvidar, quase um desvio.


É nesse contexto que o historiador Robert Proctor, conhecido por seus estudos sobre a produção social da ignorância, nos lembra de algo essencial: continuar falando de coisas difíceis é um ato de resistência. Não uma resistência espetacular, mas lúcida. Não barulhenta, mas insistente.


O mundo contemporâneo não sofre apenas de falta de informação. Ele sofre de um excesso cuidadosamente administrado de ruído, certezas rasas e simplificações agressivas. A ignorância, hoje, não é acidental — ela é funcional.


Serve a interesses econômicos, políticos e tecnológicos que lucram com a confusão, a dúvida fabricada e a erosão da confiança no conhecimento.


Escrever, nesse cenário, não é apenas comunicar ideias. É tomar posição. É afirmar que ainda vale a pena explicar conceitos pouco conhecidos, mesmo quando gritar opiniões rende mais engajamento. É recusar a lógica da viralização como critério de verdade.


Quando Proctor fala em escrever como um gesto de confiança em quem ainda lê com atenção, ele toca num ponto crucial: a existência, ainda que minoritária, de leitores que resistem ao ritmo imposto pelas plataformas. Pessoas que compreendem que entender o mundo exige mais do que slogans e indignações instantâneas.


Produzir conhecimento, então, torna-se uma forma de munição crítica. Não para vencer debates, mas para reconhecer engrenagens. Para perceber como somos modulados, distraídos e conduzidos. Para recuperar, mesmo que parcialmente, a autonomia do pensamento.


Salvar, compartilhar, reler — esses gestos aparentemente pequenos têm um peso maior do que parece. Eles mantêm viva a possibilidade de um espaço público que não seja inteiramente capturado pela lógica do ruído.


Em tempos de ignorância rápida, pensar devagar é um ato político.

 
 
 

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