Ailton Krenak: A Filosofia do Pertencimento e a Esperança Ancestral
- carlospessegatti
- 4 de jun. de 2025
- 4 min de leitura

Um percurso pelos principais livros do pensador indígena que ressignifica humanidade, natureza e futuro
Ailton Krenak é hoje um dos mais importantes pensadores brasileiros contemporâneos, cuja obra literária se consolida como um manifesto de resistência, sabedoria ancestral e convite à reinvenção da existência humana. Líder indígena do povo Krenak, ambientalista e filósofo, Ailton se tornou uma das vozes mais potentes na crítica à civilização moderna e ao paradigma do desenvolvimento, apresentando uma cosmovisão onde a natureza, os humanos e os não-humanos compartilham o mesmo destino.
Seus livros são pequenos em extensão, mas imensos em densidade conceitual e afetiva. A seguir, um apanhado dos principais títulos, destacando os eixos temáticos e filosóficos que atravessam sua obra:
1. "Ideias para Adiar o Fim do Mundo" (2019)
Este livro marca a entrada de Krenak no circuito mais amplo da filosofia e literatura brasileira contemporânea. Partindo da constatação de que o modo de vida moderno — pautado pelo consumo desenfreado e pela separação entre ser humano e natureza — está levando ao colapso civilizatório, o autor propõe uma pausa: adiar o fim do mundo seria cultivar outros modos de existência, resgatar vínculos com a terra, com os rios e com a diversidade dos seres.
Krenak critica a ideia de “humanidade” como uma entidade homogênea, afirmando que muitos povos nunca participaram do “progresso” ocidental e, portanto, têm outras experiências e soluções diante das crises ambientais e sociais. Ele chama atenção para os saberes indígenas como formas vitais de resistência e como alternativas necessárias para enfrentar as catástrofes contemporâneas.
“Adiar o fim do mundo é um convite para que a gente possa sonhar, para que a gente possa se encantar novamente com a experiência de estar vivo.”
“Não somos todos humanos. Isso é uma falácia. A modernidade não conseguiu nos unificar em uma humanidade.”
2. "A Vida Não É Útil" (2020)
Dando continuidade às reflexões do livro anterior, Krenak intensifica a crítica à lógica utilitarista que domina o mundo moderno. A frase que dá título ao livro sintetiza sua provocação filosófica: reduzir a vida à utilidade é reduzir a própria experiência humana e planetária à função e ao valor de mercado.
Neste livro, o autor propõe uma ética do encantamento, da contemplação e do pertencimento, afirmando que o mundo não existe para servir aos humanos, mas é um território compartilhado de múltiplas existências, visíveis e invisíveis. A pandemia de Covid-19 surge como um pano de fundo que evidencia as limitações do modelo civilizatório vigente e reforça a urgência de uma transformação profunda nos modos de ser e viver.
“A vida não precisa ter utilidade; ela precisa ter sentido.”
“Nós não somos separados da natureza. Somos natureza que sente, que pensa e que fala.”
3. "Futuro Ancestral" (2021)
Este é talvez o livro mais filosófico e propositivo de Ailton Krenak. Aqui, ele desenvolve a ideia de que não há separação entre passado e futuro, pois o que nos orienta para frente é justamente a força dos saberes ancestrais. O “futuro ancestral” é a aposta numa continuidade que se enraíza na tradição, na memória e no respeito aos ciclos naturais, e não na aceleração tecnológica ou na busca por soluções que aprofundam a dissociação entre humanidade e natureza.
Krenak recorre a histórias de seu povo, metáforas cosmológicas e reflexões sobre a espiritualidade indígena para propor um horizonte onde o humano se reconhece como parte de uma teia complexa e sagrada da vida. A obra sugere que o caminho para o futuro é um retorno aos princípios que sustentaram a vida nas comunidades indígenas por milênios: solidariedade, reciprocidade e cuidado.
“Nosso futuro é ancestral, porque está sustentado por milhares de anos de experiência de viver bem com a Terra.”
“A memória é uma tecnologia para nos fazer lembrar de que pertencemos a algo muito maior do que nós.”
4. "O Amanhã Não Está à Venda" (2020)
Nesta obra, Krenak reforça sua crítica à mercantilização da vida e ao avanço destrutivo do neoliberalismo. O título é um chamado para que se pense o tempo como dimensão existencial e não como recurso econômico. O amanhã, enquanto possibilidade de existência para as próximas gerações, não deve ser negociado ou sacrificado em nome do lucro e da produtividade.
O livro articula política, filosofia e poesia, com reflexões sobre a necessidade de desacelerar e de criar “tempo livre” para o pensar, o sonhar e o criar. Krenak convoca a imaginação como força revolucionária, capaz de romper com o fatalismo que anuncia o colapso ambiental e social como inevitável.
“O amanhã não está à venda. Não podemos colocar preço na esperança, na solidariedade, no tempo de sonhar.”
“A nossa maior potência é imaginar outros mundos possíveis.”
Cosmovisão Krenak: A Terra como um Ser Vivo
Em todos esses livros, Ailton Krenak manifesta uma visão de mundo que rompe com a separação moderna entre natureza e cultura. Para ele, a Terra é um ser vivo e, como tal, merece respeito, cuidado e devoção. A filosofia Krenakiana convida a uma reconexão profunda com os rios, as montanhas, as florestas e todos os seres que compõem a comunidade da vida.
Sua obra é, portanto, não apenas um pensamento político, mas também uma poética da existência e uma espiritualidade que desloca as fronteiras do antropocentrismo. É uma filosofia do pertencimento, onde o humano se reconhece como parte — e não como dono — do mundo.
A relevância para o contemporâneo
Ailton Krenak emerge como uma das figuras mais importantes para pensar alternativas ao colapso socioambiental, ao esgotamento dos recursos naturais e à crise existencial da modernidade. Sua escrita se articula com a filosofia decolonial, com o pensamento ecológico profundo e com as cosmologias ameríndias que oferecem horizontes de esperança e de reinvenção.
Sem querer parecer pretensioso demais, eu diria que a minha obra dialoga de forma intensa com as suas reflexões sobre contemporaneidade, ciência, filosofia e criação artística, especialmente ao propor novas formas de habitar o mundo, mais próximas da harmonia cósmica e menos reféns da destrutividade civilizatória.
"Adiar o fim do mundo é, talvez, o gesto mais radical e poético que podemos fazer hoje." — Ailton Krenak
“A Terra é um grande organismo vivo, e nós fazemos parte desse organismo.”
“Enquanto houver um rio correndo, uma montanha respirando e uma floresta pulsando, há esperança.”




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