Albert Camus: O Absurdo e a Revolta como Fundamentos da Liberdade Humana
- carlospessegatti
- 31 de jul. de 2025
- 5 min de leitura

Entre a indiferença do universo e a paixão pela vida, Camus edifica uma ética da dignidade sem ilusões, uma filosofia do meio-dia em pleno deserto do sentido.
I. Camus, o “Filósofo da Luz Negra”
Albert Camus (1913–1960), nascido na Argélia colonial, é muitas vezes confundido com um existencialista. Mas ele se separa nitidamente de Sartre e da tradição existencialista por rejeitar tanto o niilismo quanto a transcendência. Sua filosofia é solar, mediterrânea, trágica e, ao mesmo tempo, rebelde. Ele pensa sob o céu azul de Argel e escreve à sombra da morte, da peste, da guerra e do deserto — sem jamais se render ao desespero.
O centro de sua filosofia é o Absurdo: a colisão entre o desejo humano de sentido e a mudez do universo.
II. O Absurdo como Começo
No seu ensaio mais importante, O Mito de Sísifo (1942), Camus pergunta:
“Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio.”
A frase não é um artifício de choque. Camus parte de uma constatação radical: o mundo não responde ao nosso desejo de sentido. Os deuses estão ausentes, a razão não oferece garantias, e a ciência, ao descrever o universo, não explica por que estamos nele. Viver é confrontar-se com o absurdo, ou seja, com a desproporção entre nós e o real.
Mas o absurdo, para Camus, não é uma conclusão, e sim um ponto de partida. Ele rejeita tanto o salto religioso (Kierkegaard) quanto o salto existencialista da criação arbitrária de sentido (Sartre). A atitude correta diante do absurdo é a revolta lúcida, não o suicídio nem a fuga.
“A consciência do absurdo não deve levar à morte, mas à liberdade.”
III. O Mito de Sísifo: Um Hino Trágico à Liberdade
Camus recorre à figura mítica de Sísifo, condenado pelos deuses a rolar eternamente uma pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta. Esse é o destino humano: um esforço constante, sem recompensa transcendente.
Mas a grande virada camusiana está no final:
“É preciso imaginar Sísifo feliz.”
Essa felicidade não nasce de uma ilusão, mas da lucidez trágica. O homem absurdo recusa-se a ceder, vive sem apelo, sem esperança metafísica. E justamente por isso é livre. Ele transforma o castigo em obra; a condenação, em destino escolhido. Sua liberdade reside em assumir o absurdo sem resignação.
IV. Revolta: Do Indivíduo à História
Após o absurdo, Camus propõe um segundo movimento: a revolta como forma de vida ética e coletiva. Em O Homem Revoltado (1951), ele amplia sua reflexão: a consciência do absurdo leva não à indiferença, mas à recusa da injustiça.
A revolta é o grito de quem diz: "Não!", mas que, ao fazê-lo, afirma um "Sim" à dignidade comum.
“Revolto-me, logo existimos.”
A revolta camusiana é medida, solidária e ética. Ela não justifica a violência indiscriminada nem a tirania em nome do futuro. Camus rompe com Sartre e o marxismo ortodoxo nesse ponto: para ele, nenhuma utopia justifica o assassinato.
V. A Estética da Claridade: O Sol, a Areia, o Mar
Camus é também um artista. Sua linguagem é clara como a luz do Mediterrâneo, sua filosofia é uma poética da lucidez. Em textos como Núpcias e O Verão, ele celebra a beleza sensível, o corpo, a terra quente, o prazer da existência. Para ele, a arte é uma forma de revolta contra o nada, uma tentativa de inscrever formas e significados num mundo que não os oferece.
“No meio do inverno, descobri em mim um verão invencível.”
VI. Entre o Som e o Absurdo
Há muito de Camus em minha busca já que ela navega entre o vazio cósmico e a vibração da vida, entre o silêncio do vácuo e a tentativa humana de dar sentido à existência por meio de sons, frequências e texturas.
A ideia de criar mesmo sabendo da ausência de garantias últimas, de compor não porque o mundo tem sentido, mas porque ele merece ser habitado com beleza, aproxima minha arte da ética camusiana, da revolta sensível.
VII. Conclusão: O Absurdo como Chamado à Liberdade
Camus não é um pensador do desespero, mas da coragem. Ele não oferece redenção, mas verticalidade diante do destino. Ele nos convida a viver com dignidade, clareza e paixão, mesmo quando tudo parece desprovido de sentido.
“O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. Não é nem um nem outro que o define, mas a sua presença comum.”
“A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente.”(Albert Camus, O Homem Revoltado)
Sísifo Feliz
Eu penso que no Mito de Sísifo existe um momento onde o homem encontra uma folga, uma liberdade de poder respirar e apreciar a vida de uma forma mais leve. Mesmo sem receber recompensas transcendentes, nos momentos em que desce para ir buscar a pedra que rolou morro abaixo, ele se vê livre para acreditar, mesmo sabendo que o universo não vai responder aos seus anseios, que pode ser livre, nem que por breves e efêmeros momentos.
Esta leitura me soa belíssima — e extremamente fiel ao espírito de Camus. Acho que captei algo essencial que muitos leitores deixam escapar: é justamente no intervalo, no entre-tempos da repetição absurda, que o homem camusiano encontra sua liberdade mais pura e sua humanidade mais autêntica.
Esses momentos em que Sísifo desce a encosta, quando já não carrega a pedra, são os instantes da consciência límpida, do respiro lúcido — e é neles que reside a verdadeira potência do mito.
Camus escreve:
“É durante o retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que labuta tão próximo das pedras já é ele próprio pedra! Vejo esse homem descendo com passo lento para o tormento do qual ele nunca se livrará. Essa hora que é como uma trégua, como uma pausa na dor, é também a hora da consciência. Nesse instante, Sísifo é superior ao seu destino. Ele é mais forte do que sua rocha.”
A leveza camusiana não é alienada, nem ingênua: ela é trágica e luminosa. O homem, ao saber que o universo é indiferente, liberta-se da obrigação de esperar que ele responda. Ele se afirma como criador de sentido na ausência de sentido, como poeta da própria existência, mesmo diante do silêncio do céu.
Minha formulação quando digo “ele se vê livre para acreditar, mesmo sabendo que o universo não vai responder aos seus anseios” — revela essa maturidade estética e ética que Camus cultivava: viver sem apelo, mas com amor à vida. É o triunfo da dignidade sobre o absurdo.



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