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Antonio Gramsci: O Intelectual da Esperança e a Luta pela Hegemonia

  • carlospessegatti
  • 29 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura


Série – Pensadores Marxistas



Entre grades e ideias, Gramsci forjou um pensamento revolucionário sobre cultura, política e a transformação histórica do mundo


O nascimento de um pensamento insurgente

Antonio Gramsci nasceu em 1891, na Sardenha — uma região esquecida pelo desenvolvimento da Itália recém-unificada. Ainda criança, enfrentou pobreza e enfermidades que marcaram seu corpo, mas jamais atrofiaram seu espírito crítico. Mais tarde, já como jornalista e militante socialista, tornou-se um dos fundadores do Partido Comunista Italiano, atuando nas trincheiras da luta política com uma atenção refinada à cultura, à linguagem e às formas de dominação não violentas, como a educação, a religião e a imprensa.


A história de Gramsci é inseparável do contexto europeu do início do século XX: ascensão do fascismo, colapso dos impérios, Revolução Russa e o questionamento das formas tradicionais de poder. Preso por Mussolini em 1926, passou mais de uma década atrás das grades, onde redigiu seus célebres Cadernos do Cárcere — obra que só viria a ser publicada postumamente, mas que mudou para sempre a teoria marxista e as ciências humanas.


Hegemonia: o poder que se infiltra

Se Marx analisou os alicerces econômicos do capitalismo, Gramsci revelou seus andaimes ideológicos. Seu conceito-chave é o de hegemonia: o poder da classe dominante não se sustenta apenas pela força bruta, mas sobretudo pela capacidade de fazer seus valores parecerem universais, naturais, aceitáveis por todos.


A hegemonia, segundo Gramsci, é conquistada no terreno da cultura. Ela é reproduzida nas escolas, nas igrejas, na imprensa, nas famílias e nas formas de linguagem. Por isso, para ele, a revolução não pode ser apenas econômica — ela deve ser também cultural. Trata-se de uma “guerra de posições”, lenta e estratégica, diferente da “guerra de movimento” típica das insurreições armadas.


O intelectual orgânico: repensar o papel do saber

Gramsci propôs uma reconfiguração do papel dos intelectuais. Para ele, todo ser humano é um intelectual em potência, pois todos pensam, organizam sua visão de mundo, fazem escolhas culturais. Mas nem todos são intelectuais orgânicos— aqueles que se vinculam às classes sociais e atuam ativamente na construção de novos consensos sociais.


O intelectual orgânico é, portanto, aquele que está enraizado nas lutas concretas do povo. Ele não é um especialista distante, mas um agente de transformação. Isso coloca a educação, a arte, a música, o jornalismo e toda forma de criação simbólica como terrenos fundamentais na disputa pela consciência das massas.


O cárcere como laboratório de ideias

Gramsci escreveu mais de trinta cadernos enquanto preso — reflexões filosóficas, anotações sobre literatura, pedagogia, história, economia e política. Ali, sem acesso a bibliotecas, mas guiado por uma mente incansável, ele reelaborou o marxismo em uma chave culturalista e humanista, capaz de dialogar com o cotidiano e com os processos subterrâneos da sociedade civil.


A profundidade de sua análise sobre Maquiavel, o conceito de “bloco histórico”, os estudos sobre folclore e linguagem — tudo isso compõe uma obra que não serve a dogmas, mas à crítica e à emancipação.


Um legado vivo para tempos sombrios

Gramsci faleceu em 1937, aos 46 anos, pouco após ser libertado do cárcere — seu corpo frágil não resistiu às privações. Mas sua obra resistiu. E continua sendo uma das mais férteis sementes do pensamento crítico no século XX e XXI.


Hoje, em tempos de guerras culturais, fake news, supremacismo e controle da informação por algoritmos, a noção de hegemonia ganha contornos ainda mais urgentes. Quem domina a narrativa, domina a realidade. Nesse sentido, Gramsci permanece um farol para os que lutam por justiça, pluralidade e emancipação.


Finalizando

Publicar Gramsci é mais do que lembrar o passado: é convocar o presente a pensar o futuro. A cultura não é apenas reflexo das estruturas; ela é campo de batalha. E a mudança começa quando os sujeitos passam a enxergar a dominação invisível, transformando a consciência em prática.


Em tempos em que o neoliberalismo penetra afetos e subjetividades, pensar com Gramsci é um gesto de resistência. E como ele mesmo escreveu:


“O velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Neste interregno, aparecem os fenômenos mórbidos mais variados.”


Cabe a nós, intelectuais orgânicos das margens, da música, da arte, da palavra viva — plantar o novo.




 
 
 

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