Antígona: A Desobediência como Forma de Honra
- carlospessegatti
- 3 de ago. de 2025
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Escrita por Sófocles por volta do ano 441 a.C., Antígona é a terceira peça da trilogia tebana, que inclui Édipo Rei e Édipo em Colono. Ainda que seja cronologicamente posterior às outras, Antígona foi a primeira a ser escrita. Nesta tragédia, encontramos uma heroína que rompe com os padrões da obediência cega ao Estado, guiada por princípios éticos que transcendem as convenções humanas.
Num tempo em que a obediência era considerada virtude, Antígona se levanta contra a ordem de Creonte, rei de Tebas, que proibira o sepultamento de seu irmão Polinices, considerado traidor. Ao desobedecer essa ordem, ela desafia o poder estabelecido, movida por leis superiores: as leis dos deuses, da família e da consciência. Seu ato transforma-se num símbolo eterno de resistência moral.
A tragédia da escolha: lei, poder e ética
A força de Antígona reside em sua estrutura trágica: não há heróis ou vilões no sentido clássico. Tanto Antígona quanto Creonte agem por convicções inabaláveis. Ela, por fidelidade à família e às leis divinas; ele, por acreditar que a ordem pública e a razão de Estado devem prevalecer.
A tragédia se desenrola a partir desse conflito: não é uma luta entre o bem e o mal, mas entre dois bens inconciliáveis. Antígona acredita que negar o enterro ao irmão é desumano, mesmo que ele tenha cometido traição. Creonte, por sua vez, teme que o perdão a Polinices fragilize a autoridade real e incentive a anarquia.
É esse embate entre duas éticas — a ética da convicção (Antígona) e a ética da responsabilidade (Creonte) — que torna a peça uma obra viva, atual, inquietante.
Antígona como figura da resistência feminina
No universo grego, em que a mulher era relegada ao espaço doméstico e ao silêncio, Antígona emerge como uma figura de ruptura. Ela desafia não apenas uma lei, mas a estrutura patriarcal do poder. Fala quando deveria se calar, age quando esperam sua passividade, escolhe o destino quando esperam resignação.
Sua coragem é também sua tragédia: ela aceita a morte como consequência do seu ato. Mas, ao fazê-lo, se torna símbolo do poder da consciência, do amor incondicional e da desobediência como gesto ético.
Em tempos modernos, Antígona foi interpretada como arquétipo da resistência política (sob ditaduras), como metáfora da luta feminista e como símbolo do embate entre justiça e legalidade.
Atualidade da tragédia: o que Antígona nos ensina hoje
Atenas do século V a.C. se dissolveu no tempo, mas Antígona permanece. Por quê?
Porque ainda vivemos dilemas éticos entre o que é legal e o que é justo. Porque ainda sepultamos nossos mortos em meio a guerras e injustiças, e ainda há quem não possa enterrar seus entes queridos. Porque o luto, quando negado, torna-se tortura política.
A peça ecoou fortemente no século XX, especialmente após os horrores do nazismo. Hannah Arendt, ao discutir o julgamento de Adolf Eichmann, refletiu sobre o papel do indivíduo diante de ordens injustas. O que fazemos quando a lei se torna desumana? A resposta de Antígona é clara: resistir.
Hoje, em meio a governos autoritários, crises humanitárias, políticas de exclusão e discursos que negam a dignidade de certos grupos, Antígona nos olha nos olhos e pergunta: até onde você iria por aquilo que considera justo?
A pedra, a flor e a eternidade
Antígona é enterrada viva por ter enterrado um irmão morto. Essa inversão cruel da lógica da vida e da morte é o ápice da tragédia: ela dá sepultura à carne, mas o poder a sepulta viva na pedra.
No entanto, como toda grande figura trágica, Antígona vence ao morrer. Sua morte reverbera como grito eterno de dignidade. Na rocha onde foi deixada, germina a semente da insubmissão que floresce até hoje, onde quer que a justiça clame por nomes, por corpos, por lembrança.




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