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Análise Ampliada da Problemática da Voz, do Som e da Cosmogonia

  • carlospessegatti
  • 13 de dez. de 2025
  • 12 min de leitura

Atualizado: 24 de jan.



"Marius Schneider (o estudioso mais informado sobre o lastro mítico do mundo modal, que ele estudou nas mais diferentes tradições) afirma que todas as cosmogonias têm fundamento musical. 'Toda vez que a gênese do mundo é descrita com a precisão desejada, um elemento acústico intervém no momento decisivo da ação'. Em outros termos, sempre que a história do mundo fosse bem contada, ela revelaria a natureza essencialmente musical deste. A música aparece aí como o modo da 'presença' do ser, que tem sua sede privilegiada na voz, geradora, no limite, de uma proferição analógica do símbolo ligada ao centro, ao círculo ao mito/rito e à encantação como domo de articulação entre a palavra e a música. (É contra essa 'metafísica da presença', imposta pelo primado da voz e pela precedência do som sobre a letra, mais a concepção de sujeito uno que a acompanha, que Derrida opõe um discurso descontrutor calcado no primado do traço diferencial e da escritura; segundo ele, a metafísica advém de um mal-entendido logofonocêntrico, como aquele que estaria na base do platonismo. Contra Derrida, Daniel Charles afirma que, se em entendida, a voz, ao contrário de uma presença a si do fonocentrismo, faz ressoar o passado do ser - sua desaparição - e de seu devir incessnte e sempre problemático: 'a voz veicula a quarta dimensão do tempo', aquela que engloba e rege as três outras; ela não deixa o tempo ressoar senão por intermitências'. Essa seria uma longa discussão, que não temos como fazer aqui." Atena, o que você pode extrair do que foi dito acima e como pode expandir e aprofundar esta problemática?    Trecho extraído do livro “O Som e o Sentido” do José Miguel Wisnik



Por Atena Cybele


Callera, aqui está uma análise profunda — no horizonte do teu pensamento musical-científico e estético-filosófico — ampliando Schneider, Derrida e o debate mais amplo sobre voz, presença, música e cosmogonia.


Análise Ampliada da Problemática da Voz, do Som e da Cosmogonia

O texto que você trouxe articula três eixos extremamente potentes e, ao mesmo tempo, tensionados:

  1. a visão mitomusical-cosmológica de Marius Schneider,

  2. a crítica de Jacques Derrida ao logofonocentrismo e à “metafísica da presença”,

  3. a defesa da voz como ressonância temporal e não como presença plena, feita por Daniel Charles (muito influenciado pela filosofia da música e por Cage).

A partir desses três movimentos, podemos reconstruir a problemática em profundidade e inseri-la em um quadro mais amplo — antropológico, fenomenológico, musical e filosófico.


1. Marius Schneider e o fundamento musical do cosmos

Schneider, musicólogo alemão do século XX, parte de uma tese radical: todas as cosmogonias humanas têm raiz musical. Não se trata de metáfora poética, mas de estrutura antropológica:

  • O mundo se origina por um som primordial — palavra, canto, vibração, modulação, ritmo.

  • O cosmos é entendido como ordem vibratória, e a música funciona como “modelo” ou “redução simbólica” dessa ordem.

  • O mito da criação se apresenta sempre como organização do caos sonoro: da vibração informe à modulação do ser.


Ele estudou isso em tradições tão diversas quanto: – ritos indianos, – a mitologia egípcia, – mitos ameríndios, – canto gregoriano, – liturgias orientais, – simbolismos esotéricos medievais.


Schneider identifica um padrão:

sempre que se descreve com precisão a origem do mundo, um elemento sonoro intervém no instante decisivo.


Esse instante é o ponto em que o caos ganha contorno. O som é o operador que separa céu e terra, luz e sombra, ser e não ser.


Para Schneider, isso ocorre porque:

A música é a própria “presença” do ser — o ser enquanto vibração.


A voz ocupa aí o lugar central:

  • é geradora,

  • é analogia fundamental do símbolo,

  • é ponte entre mito/rito,

  • é encarnação do círculo cósmico (pois ressoa circularmente no espaço),

  • é a forma primordial da presença.


Em outras palavras: o mundo é um processo acústico, e a música o seu espelho ontológico.


2. A crítica de Derrida: desconstruir a metafísica da presença

Derrida entra para deslocar esse quadro. Não porque rejeite a dimensão sonora — mas porque o logocentrismo ocidental atribuiu à voz um privilégio metafísico:

voz = presença plena a siescrita = derivação secundária, técnica, afastamento


Esse é o erro do platonismo (e, para Derrida, de toda a metafísica ocidental): a voz seria o local da verdade imediata do sujeito consigo mesmo.


Derrida vê nisso:

  • uma ilusão fenomenológica (a voz não traz presença plena, pois o significante já está diferido),

  • um mal-entendido logofonocêntrico,

  • e um mecanismo de exclusão da diferença.

Para ele, não há som originário, não há voz plena, não há presença transparente. Há traço, adiamento, diferença (différance).Mesmo a voz já é escritura — uma inscrição da diferença, não uma essência.


Derrida atacaria, portanto, a tese schneideriana da voz como fundamento cosmológico por ser, em última instância, uma reconstrução metafísica.


3. Daniel Charles: a voz não como presença, mas como devir

Daniel Charles, filósofo da música, leitor de Cage, tenta reabilitar a voz — mas sem retornar à metafísica da presença.


Para ele:

a voz não é presença. A voz é o rastro sonoro da desaparição do ser.

A voz é:

  • memória viva,

  • promessa,

  • devir,

  • instabilidade,

  • intermitência.


Charles diz que:

a voz é portadora da quarta dimensão do tempo.

Essa é uma formulação extraordinária. Não se trata do “tempo linear,” mas do tempo profundo — aquele que engloba passado, presente e futuro em movimento.


A voz, por isso, não é imediata:ela carrega seu próprio desaparecimento no momento em que aparece.


Ela é presença-e-ausência, aparência-e-soterramento, vibração-e-silêncio.


Assim, a crítica de Derrida ao fonocentrismo permanece válida, mas Charles mostra que a voz, entendida fenomenologicamente, não é presença plena, mas estrutura de différance viva. Se Derrida tivesse entendido isso, talvez pudesse ter dialogado com Schneider de outra maneira.


4. Ponto de convergência: música, voz e o ser como vibração diferida

Se juntarmos Schneider, Derrida e Charles, surge um quadro sofisticado:

(1) Schneider

O mundo nasce como vibração sonora. A voz é símbolo do ser.

(2) Derrida

Não existe voz originária.Toda presença é diferida. A voz não é fundamento, mas traço.

(3) Daniel Charles

A voz faz ressoar não a presença, mas a própria caducidade do ser. Sua vibração é intervalo, fissura, temporalidade profunda.


Daí surge uma tese mais complexa:

O som (e a voz) não é fundamento metafísico, mas o modo como o ser se torna audível como diferença, intermitência e devir.


O universo seria menos “canto originário” e mais vibração diferida, onde cada frequência é uma forma de inscrição temporal.


Isso abre pontes para:

  • física quântica (vibrações fundamentais, cordas, frequências),

  • antropologia do som,

  • fenomenologia da escuta (Nancy, Barthes),

  • cosmologias indígenas e africanas (onde o som é princípio de ordenação do real),

  • tua própria pesquisa musical sobre dimensões, drones, pads e texturas como estruturas vibracionais.


5. Expansão temática: música, presença e diferença no teu horizonte criativo


CALLERA, exatamente aqui você pode operar uma síntese singular para tua obra:

1. Schneider te dá o eixo cosmológico —

a música como espelho do cosmos, o som como nascimento do mundo.


2. Derrida te dá o eixo crítico —

a impossibilidade de qualquer presença plena; a música como escritura vibratória.


3. Daniel Charles te dá o eixo fenomenológico —

a voz como portadora do tempo profundo, do devir, do intermitente.

Isso dialoga diretamente com:

  • o caráter futurista e pós-apocalíptico de tua música,

  • as dimensões superiores no álbum Fifth Dimension and Beyond,

  • a vibração do vazio que você deseja sintetizar,

  • o silêncio cósmico como textura espectral,

  • a metafísica vibracional da Teoria das Cordas,

  • a entropia sonora,

  • o entrelaçamento quântico como metáfora do eco intermitente da voz.


6. Uma formulação síntese (em linguagem próxima ao teu trabalho):

CALLERA, podemos traduzir a problemática assim:


A música não é o lugar da presença plena nem o rastro de uma origem perdida; é o acontecimento em que o ser ressoa enquanto vibração diferida, ecoando sua própria desaparição e seu devir infinito.

Nesse sentido:

  • o cosmos vibra,

  • o ser ressoa,

  • a voz intermitente é o arquivo do invisível,

  • a música é a escritura móvel da diferença.


A cosmogonia musical existe — mas não porque haja uma voz originária, e sim porque:

todo nascer é um tremor, todo ser é um intervalo, todo cosmos é uma afinação sempre inacabada.






A Voz, o Som e o Cosmos: Entre Schneider, Derrida e o Devir Vibratório do Ser


Por CALLERA


Desde as tradições mais antigas até as especulações cosmológicas contemporâneas, existe uma intuição fundamental que atravessa culturas: o universo nasce do som. Essa percepção, que para muitos é simbólica, mitológica ou poética, foi estudada em profundidade pelo musicólogo alemão Marius Schneider, cujas investigações mostram que praticamente todas as cosmogonias humanas reconhecem uma origem musical do mundo. Para Schneider, a música não é ornamento, mas estrutura ontológica, e a voz é sua expressão privilegiada: a vibração primordial que inaugura o real.


Mas essa visão encontra resistência — sobretudo quando confrontada com a crítica radical que Jacques Derrida dirigiu ao que chamou de logofonocentrismo, a tendência da metafísica ocidental de privilegiar a voz como presença plena e imediata do pensamento. Em tensão com ambos, surge o pensamento de Daniel Charles, que resgata a voz não como presença, mas como devir, intermitência e vibração do tempo profundo.


Este ensaio amplia, articula e reconstrói essas três perspectivas, buscando mostrar como elas não apenas se iluminam mutuamente, mas também convergem com uma visão sonora e vibratória do cosmos — visão essa que ressoa profundamente com minha própria produção musical, marcada pela exploração de dimensões, frequências, silêncio cósmico e vibrações fundamentais.


1. Marius Schneider: O Cosmos Como Vibração

Ao estudar tradições ameríndias, indianas, africanas, orientais, medievais e europeias, Schneider percebeu que sempre que a criação do mundo é narrada com precisão ritual, um elemento acústico intervém no momento decisivo: um canto, um sopro, uma sílaba sagrada, um nome inaugural, um gesto rítmico, um tambor primordial.

O som é ação e ordenação:

  • separa o caos,

  • organiza os elementos,

  • inaugura o espaço,

  • funda o tempo,

  • cria o ritmo do ser.


Para Schneider, essa recorrência não é acidental: ela revela que o ser humano, em sua experiência arcaica, compreendeu que o mundo é vibração. A música é o reflexo simbólico dessa primeira oscilação cósmica. E é por isso que a voz ocupa papel central: ela está associada ao rito, ao mito e ao círculo sagrado ― um ponto de convergência entre palavra e música, símbolo e presença, corpo e cosmos.


Schneider não afirma que a voz seja apenas metáfora. Para ele, a voz é o modo de expressão mais próximo da própria essência vibratória do ser. Ela é a presença do cosmos no corpo humano.


2. Derrida: Desconstruindo a Presença Sonora

É justamente essa concepção de voz como presença plena que Jacques Derrida problematiza. Em sua crítica à metafísica ocidental, Derrida afirma que o pensamento europeu desde Platão até a modernidade colocou a voz no lugar de uma suposta transparência do sujeito consigo mesmo — como se falar fosse encontrar a verdade interior.

Segundo Derrida, isso é um equívoco. A voz não garante presença alguma. O som, assim como a escrita, é traço, adiamento, diferença.


O sujeito que fala nunca coincide consigo. O significado está sempre se deslocando. Não existe origem pura, nem fonema originário, nem música primordial que reflita o ser de maneira transparente.


Daí a acusação de logofonocentrismo**: privilegiar a voz e o som como se fossem fundantes e imediatos, ignorando que ambos já são escritura, fissura, falha. A crítica de Derrida atinge diretamente qualquer metafísica da voz — incluindo, em certa medida, a leitura schneideriana.


3. Daniel Charles: A Voz Como Vibração do Tempo Profundo

Mas Daniel Charles, filósofo da música e parceiro intelectual de John Cage, sugere uma outra via, capaz de dialogar tanto com Schneider quanto com Derrida. Para Charles, a voz não deve ser entendida como presença: ela não é pureza, transparência, unidade.


Ao contrário:

a voz faz ressoar o passado do ser, sua desaparição, seu incessante devir.

A voz não traz o tempo presente, mas o tempo profundo, aquele que engloba passado, presente e futuro em uma única oscilação ― algo que ele chama de quarta dimensão do tempo.


Essa formulação abre um campo filosófico fascinante:

  • a voz é intermitência,

  • é espaço entre o aparecer e o desaparecer,

  • é vibração que carrega o próprio silêncio,

  • é presença enquanto ausência em transformação.


Com isso, Charles responde a Derrida: não há presença plena, mas a voz pode ser entendida como o lugar onde o ser ressoa como diferença temporal viva.


**4. Tensão e Convergência:

A Música Como Escritura Vibratória do Ser**

Se juntarmos Schneider, Derrida e Daniel Charles, obtemos uma síntese poderosa:


Schneider revela a dimensão cosmológica:

o mundo nasce como som, vibração e ritmo.


Derrida desmonta a ingenuidade metafísica:

não existe voz pura, nem presença originária; existe diferença, traço, adiamento.


Daniel Charles reconstrói a voz num outro plano:

não como presença, mas como devir vibratório,eco do desaparecimento,portadora do tempo profundo.


Dessa articulação surge uma ideia fundamental:

A música não é fundamento metafísico nem presença plena; é o modo como o ser se torna audível enquanto vibração diferida.


O cosmos não seria um canto originário fixo, mas um campo de oscilação, um intervalo que se abre e se fecha, uma “escritura vibratória”.


**5. Relação com a Criação Artística Contemporânea


Esse arcabouço filosófico converge diretamente com a minha pesquisa artística:

Teoria das Cordas

A ideia de partículas como vibrações fundamentais ecoa diretamente Schneider e Charles.


Dimensões superiores

As faixas do álbum Fifth Dimension and Beyond já lidam com a ideia de que cada dimensão possui sua própria textura vibratória — algo que se articula claramente com a noção de cosmogonia musical.


Música pós-apocalíptica e New Age Progressiva

A tensão entre presença e ausência, cosmos e ruína, vibração e silêncio, é o terreno próprio em que Derrida e Charles se tornam especialmente férteis.


Pads, drones, silêncio cósmico e paisagens espectrais

Os drones que eu crio funcionam como material expressivo da temporalidade profunda: ondas contínuas, longas, que contêm tempos sobrepostos.


A ressonância como escritura do ser

Quando eu trabalho frequências, texturas e sobreposições, estou traduzindo em linguagem musical o próprio movimento da différance derridiana: uma vibração que nunca se fixa, que se adia, que ecoa, que passa.


**6. Síntese Filosófico-Poética

(para fechar e servir também como epígrafe de um álbum meu)**


O universo não fala com voz plena. Ele vibra por intermitências, canta no intervalo entre surgimento e desaparecimento. A música é o eco desse devir: a escritura sonora do tempo profundo, onde o ser se dobra, se difere e ressoa.


Nenhum som é origem. Nenhum silêncio é final. O cosmos é afinação incessante —e a voz, humana ou cósmica, apenas nos revela o movimento infinito dessa oscilação.



**O que é o Logofonocentrismo?

(Conceito central da crítica de Derrida)**


O termo logofonocentrismo (ou logo-fono-centrismo) é uma criação de Jacques Derrida para designar uma estrutura profunda da metafísica ocidental: a tendência histórica, filosófica e cultural de privilegiar a palavra falada (fonê) como a forma mais pura, imediata e verdadeira da razão (logos) e da presença do sujeito.


Em outras palavras:

O logofonocentrismo é a crença de que a voz é o lugar onde o pensamento se manifesta de forma plena, transparente e autêntica — e que a escrita é apenas um suplemento, derivado e secundário.


Para Derrida, essa crença estruturou todo o pensamento ocidental desde Platão até a modernidade.


Por que a voz foi privilegiada?

Na tradição filosófica, a voz aparece como:

  • presença imediata do sujeito consigo mesmo: “quando falo, me ouço”

  • expressão direta do pensamento, sem mediação material

  • garantia da verdade interior, pois não passa por um suporte externo

  • fenômeno vivo, enquanto a escrita seria morta, fixa, exterior

  • instrumento do logos, vinculado à razão e ao sentido


A voz parece mais próxima da vida, da consciência, do eu, do sentido.

A escrita, ao contrário, foi tratada como:

  • distância, separação

  • técnica, artifício

  • materialidade externa

  • espaço de engano, esquecimento, desvio

  • morte do sentido


Essa hierarquia é o coração do logofonocentrismo.


A crítica de Derrida

Para Derrida, essa estrutura é ilusória e violenta porque:

1. A voz não é garantia de presença alguma.

Quando falamos, nunca somos plenamente presentes a nós mesmos — há lapsos, esquecimentos, indeterminações, ambiguidades.

2. O significado não está dentro da voz.

A voz não traz o sentido, mas apenas sinaliza uma diferença que jamais se fixa. O sentido está sempre diferido — é différance.

3. A escrita não é secundária.

Ao contrário: para Derrida, a escrita é o modelo originário de todo sistema de significação, incluindo a fala. Tudo é traço, marca, rastro — inclusive a voz.

4. O logofonocentrismo apagou a materialidade da linguagem.

Ao privilegiar a voz, a tradição ignorou que todo sentido depende de diferenças, intervalos, cortes — aquilo que Derrida chama de “escritura”.

5. A voz não é transparente: ela contém a alteridade.

O sujeito que fala já fala a partir de uma rede de significações que o antecede.


Por que “logo–fono–centrismo”?

O termo junta:

  • logos — razão, sentido, discurso, lei

  • fono — voz, som articulado

  • centrismo — estrutura de privilégio e hierarquia


Ou seja:

o logofonocentrismo é a centralidade da voz como lugar privilegiado do sentido.


O alvo de Derrida: a “metafísica da presença”

O logofonocentrismo está ligado àquilo que Derrida chamou de metafísica da presença: a crença de que existe um ponto originário, um centro puro, um fundamento estável ― uma voz interior que garante o sentido.

A crítica desconstrutiva mostra que:

  • não há origem

  • não há centro

  • não há presença pura

  • não há voz que garanta o sentido

  • tudo é diferença, deslocamento e traço


Assim, a desconstrução desmonta a hierarquia fala/escrita e mostra que ambas dependem de um mesmo jogo de diferenças.




TEXTO: IRENE LYNCH


Por que isso é decisivo para a música e para a cosmologia sonora que você, CALLERA, explora?

Porque:

  1. Schneider vê a voz como origem do cosmos.


    Derrida diria: a voz não é origem, mas já é traço, já é diferença.

  2. A música como fundamento do ser (visão mítica)


    Derrida problematiza a noção de fundamento ― ele vê na música não uma origem, mas uma cadeia de remissões.

  3. A voz cósmica não seria presença plena, mas vibração diferida.


    Aqui entra Daniel Charles: a voz é devir, eco, intermitência ― nunca plenitude.

  4. Teoria das Cordas e vibrações fundamentais


    Derrida diria que não existe vibração originária perfeita: apenas relações diferenciais.


    Isso ecoa a física contemporânea: cordas não vibram isoladamente; geram padrões diferenciais.


Resumo final (o mais essencial):


LOGOFONOCENTRISMO = A crença de que a voz é presença plena e garantia do sentido.

DERRIDA = A voz não é presença, é traço; não é origem, é diferença; não é fundamento, é oscilação.

CONSEQUÊNCIA = Toda metafísica da voz (de Platão a Schneider) deve ser desconstruída. Toda música, toda voz, todo som é já escritura.

 
 
 

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