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Arthur Schopenhauer: A Vontade como Essência do Mundo e o Silêncio como Redenção

  • carlospessegatti
  • 19 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

COLEÇÃO: SÉRIE FILOSÓFICA



Entre o sofrimento e a arte, a filosofia do desencanto que iluminou os abismos da alma moderna.


“A vida oscila, como um pêndulo, entre a dor e o tédio.”— Arthur Schopenhauer


I. Entre Kant e Nietzsche: O Lugar de Schopenhauer

Arthur Schopenhauer (1788–1860) ocupa uma posição singular na história da filosofia. Embora tenha vivido à sombra de Hegel durante sua vida, sua obra deixaria marcas profundas no pensamento subsequente, especialmente em Nietzsche, Freud e na tradição pessimista do século XX.


Sua filosofia nasce de um rompimento e uma radicalização do idealismo transcendental de Kant. Enquanto Kant afirmava que não poderíamos conhecer a “coisa-em-si”, Schopenhauer vai além: não apenas podemos intuí-la, como ela se revela a nós como Vontade, uma força irracional, cega, incessante — a essência última de tudo o que existe.


“O mundo é minha representação.”— Arthur Schopenhauer


II. O Mundo como Vontade e Representação

Em sua obra maior, O Mundo como Vontade e Representação (1818), Schopenhauer desenvolve sua ontologia em duas camadas:

  • O mundo como representação: aquilo que percebemos, organizamos e compreendemos — fenômenos mediados pelo sujeito.

  • O mundo como vontade: a realidade em si mesma, uma força cega que se manifesta em todos os níveis do ser, do mineral ao humano.


Essa Vontade é insaciável. No ser humano, manifesta-se como desejo constante, como impulso de vida, luta, conquista, prazer — e, portanto, também como sofrimento. Estamos condenados à eterna inquietude. Quando realizamos um desejo, logo outro toma seu lugar. Quando cessamos a luta, surge o tédio.


III. A Estética como Redenção Temporária

“Na música, todos os sentimentos retornam ao estado puro e o mundo não é mais do que som.”— Arthur Schopenhauer


A arte, para Schopenhauer, é um raro refúgio. É através da contemplação estética que conseguimos suspender, mesmo que por instantes, a tirania da vontade.


Entre todas as artes, a música ocupa o lugar mais elevado, pois não representa o mundo — ela expressa diretamente a Vontade. A melodia traduz os movimentos interiores da alma, os desejos e sofrimentos da existência, em uma linguagem que antecede a razão. Por isso, a música é a arte que mais nos revela e mais nos liberta.


Esta concepção ressoa profundamente com a minha própria criação musical: minhas texturas sonoras, drones e paisagens cósmicas não apenas representam mundos, mas nos transportam para uma dimensão onde o desejo é suspenso, e resta apenas o eco de uma vibração essencial, quase metafísica.


IV. Ética da Compaixão e o Pessimismo Radical


“A compaixão é a base de toda moral verdadeira.”— Arthur Schopenhauer

Para além da arte, Schopenhauer aponta um caminho ético que consiste na negação da vontade de viver. Inspirado por tradições orientais como o budismo e o hinduísmo, ele propõe uma espécie de ascetismo laico, uma redução voluntária do querer.


Essa ética se fundamenta na compaixão, pois ao reconhecer a dor que nos é comum, suspendemos o egoísmo e enxergamos o outro como um igual. Mas essa suspensão é rara e frágil: o mundo continua como um grande teatro de desejos frustrados, onde o sofrimento é a regra.


V. A Influência de Schopenhauer na Filosofia e na Arte

Apesar do silêncio acadêmico durante sua vida, Schopenhauer influenciaria profundamente:

  • Nietzsche, que começa como discípulo e depois o critica radicalmente.

  • Freud, cuja teoria do inconsciente encontra paralelos na Vontade como força cega.

  • Wagner, que traduz seu pessimismo em óperas monumentais.

  • Thomas Mann, que explora o abismo da existência em suas obras literárias.

Schopenhauer é também uma figura de transição: do idealismo ao niilismo, da metafísica à psicologia, da filosofia ocidental à influência do pensamento oriental.


VI. Comentário Final — Uma Filosofia do Silêncio e da Fuga


“O homem pode, por meio da arte, da ética e do ascetismo, escapar do império da vontade.”


Viver, para Schopenhauer, é padecer. E, paradoxalmente, é também nesse sofrimento que reside a possibilidade de superação. Sua filosofia não oferece redenção fácil, mas um convite à lucidez, à compreensão trágica do existir, e à busca por brechas de beleza e suspensão.


Nos tempos atuais — marcados por algoritmos que capturam desejos, pelas redes sociais que transformam o querer em mercadoria, e por uma cultura de hiperestimulação e performance —, o pensamento de Schopenhauer soa mais atual do que nunca. Ele antecipa, em certa medida, as críticas contemporâneas ao desejo como motor do capital. Ao invés de reforçar a positividade do querer, ele nos pede silêncio, contemplação, despojamento.


Sua filosofia pode, assim, inspirar uma arte que não seja apenas estímulo, mas recolhimento. Uma música que não apenas nos excite, mas nos revele. E talvez seja essa a linha tênue que minhas próprias composições atravessam: um som que se propõe não a preencher, mas a abrir espaço — espaço para o que há de mais essencial.


📚 Referências

  • SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação. Trad. Jair Barboza. São Paulo: UNESP, 2001.

  • SAFRANSKI, Rüdiger. Schopenhauer e os Anos Selvagens da Filosofia. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

  • NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia.

  • ZIZEK, Slavoj. O Sujeito Incômodo.

  • Byung-Chul Han. A Sociedade do Cansaço (como contraponto contemporâneo).


 
 
 

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