Bertrand Russell e o Mito da Felicidade Religiosa
- carlospessegatti
- 15 de mai. de 2025
- 5 min de leitura

Uma reflexão a partir do ensaio Existe um Deus? (1952)
Por Callera Jarreliss
A frase de Bertrand Russell, retirada de seu ensaio Existe um Deus? (1952), traz uma das críticas mais lúcidas e desafiadoras à crença generalizada de que a religião seria condição sine qua non para a felicidade humana. O texto, originalmente encomendado pela Illustrated Magazine, acabou sendo vetado antes da publicação, tamanha a polêmica que poderia causar à época. Isso não impediu que suas ideias circulassem – e reverberassem – nos âmbitos filosófico e social ao longo das décadas seguintes.
Russell afirma:
“A felicidade ou a infelicidade dependem de uma série de fatores. [...] a maioria das pessoas será feliz, independentemente da sua teologia. [...] Este argumento da importância da religião na contribuição para a felicidade individual é muito exagerado.”
Trata-se aqui não apenas de uma crítica à religião institucionalizada, mas de uma tentativa racional de compreender a complexidade do fenômeno humano.
Russell, matemático, lógico e um dos mais proeminentes filósofos britânicos do século XX, foi também um incansável crítico dos dogmas religiosos, especialmente daqueles que impõem verdades absolutas e associam moralidade ou felicidade a uma crença teísta específica.
No excerto citado, o autor desloca o eixo da discussão sobre a felicidade do plano metafísico para o plano material, psicológico e social. Para ele, a felicidade não é um dom divino ou uma graça concedida por alguma entidade superior, mas um estado que emerge – ou não – de condições concretas da existência: saúde, alimentação, afeto, reconhecimento e equilíbrio mental. A religião, nesse contexto, aparece mais como um paliativo psíquico do que como uma solução substancial.
Essa análise, escrita em pleno século XX, permanece urgente em um tempo em que o apelo religioso ainda funciona, em muitos casos, como instrumento de manipulação emocional e política. A frase de Russell ecoa com força entre aqueles que, como eu, buscam compreender o humano em sua inteireza – não como uma alma a ser salva, mas como um corpo-sujeito imerso em tramas históricas, sociais e materiais.
O texto de Russell aproxima-se, de certo modo, da crítica marxista à religião como “ópio do povo” – não no sentido vulgarmente interpretado como ataque gratuito à fé, mas como denúncia da função de consolo ilusório que a religião desempenha em sociedades marcadas pela escassez, desigualdade e sofrimento.
A Felicidade como Construção Terrena
Ao afirmar que “sem saúde física e mental, a maioria das pessoas será infeliz, independentemente da sua teologia”, Russell propõe uma ética do cuidado, não uma ética da salvação. Ele nos convida a voltar os olhos não para os céus, mas para a realidade concreta em que vivemos e sofremos. Seu argumento é uma provocação àqueles que defendem a ideia de que a ausência de fé religiosa leva, inevitavelmente, ao desespero existencial.
Ao contrário, o filósofo mostra que é possível – e desejável – uma vida plena sem necessidade de recorrer a mitos transcendentais. Isso não significa desprezo pelas experiências espirituais ou pelo valor simbólico das crenças, mas sim um apelo à lucidez. A felicidade, para Russell, está enraizada no aqui e agora, no cotidiano, nos vínculos humanos e nas condições que possibilitam o florescimento da vida.
A Atualidade do Pensamento de Russell
Num mundo cada vez mais polarizado, em que discursos religiosos ganham força nos palcos políticos e na esfera midiática, retomar Bertrand Russell é uma forma de resistência. Sua obra – e especialmente o ensaio Existe um Deus? – continua sendo uma poderosa ferramenta para pensar a laicidade, a liberdade de consciência e a construção de subjetividades livres da culpa e do medo que muitas teologias impõem.
A célebre fotografia de Russell, captada por Jane Bown em 1949, pouco antes de suas Palestras Reith na BBC, nos mostra um homem de olhar firme, mas sereno. Um pensador que ousou contrariar dogmas e, com isso, abriu caminhos para outras formas de viver e compreender o mundo.
A Ilusão da Felicidade Religiosa
Bertrand Russell e a crítica aos consolos metafísicos
“A maioria das pessoas será feliz, independentemente da sua teologia. [...] Este argumento da importância da religião na contribuição para a felicidade individual é muito exagerado.”— Bertrand Russell, Existe um Deus? (1952)
✦ Uma provocação que ainda ressoa
O ensaio Existe um Deus?, escrito por Bertrand Russell em 1952, carrega em si o espírito agudo de um pensador que não temia enfrentar os dogmas mais arraigados de sua época. Encomendado pela Illustrated Magazine, o texto nunca chegou a ser publicado originalmente — não por falta de qualidade, mas por causa da polêmica inevitável que causaria ao contestar frontalmente a associação automática entre religião e felicidade.
Russell, que já havia abalado estruturas em sua conferência Por Que Não Sou Cristão (1927), aprofunda aqui uma crítica que vai além da religião: ele desmistifica a ideia de que a fé seria uma fonte exclusiva — ou sequer necessária — de bem-estar humano.
✦ Felicidade como condição terrena
O ponto central do filósofo é claro:
A felicidade não é dom divino, mas construção social e existencial.
Russell destaca que o bem-estar das pessoas depende de elementos tangíveis — boa saúde, alimentação, afeto, reconhecimento social, equilíbrio mental —, e não de promessas espirituais. A crença religiosa, neste contexto, é muitas vezes uma forma de compensação simbólica para a ausência dessas condições fundamentais.
Este argumento se aproxima, com nuances próprias, da crítica marxista à religião como “ópio do povo”. Ambos reconhecem que a fé pode confortar, mas também alertam que tal conforto não resolve as causas reais do sofrimento humano.
✦ Contra os mitos da salvação
Russell não rejeita a espiritualidade como experiência subjetiva válida, mas denuncia o exagero — muitas vezes institucionalizado — que afirma que sem religião não há sentido, nem felicidade, nem ética. Para ele, esse tipo de pensamento é reducionista e perigoso, pois perpetua culpas morais artificiais e dependências emocionais infundadas.
“A maioria das pessoas será infeliz sem saúde física e mental — não sem religião”, resume ele com precisão.
✦ Um olhar filosófico ainda necessário
Na imagem feita pela fotógrafa Jane Bown em 1949, antes das Palestras Reith na BBC, vemos um Russell sereno, mas penetrante. Seu olhar transmite o rigor de quem não tem medo de questionar o que parece sagrado — e a humanidade de quem acredita que a vida vale por si mesma, sem necessidade de garantias metafísicas.
Resgatar sua obra hoje é mais do que um gesto filosófico: é uma afirmação ética e política. Em tempos de avanço do fundamentalismo e da moralidade instrumentalizada, lembrar que a felicidade pode – e deve – ser cultivada na terra é um ato de resistência.
✦ Para concluir
Russell nos chama à razão, sem abrir mão da sensibilidade. Ele nos lembra que a verdadeira liberdade só é possível quando ousamos pensar por conta própria, mesmo que isso signifique abdicar de consolos celestiais em troca de uma lucidez incômoda — mas profundamente libertadora.




Caro amigo, eu concordo contigo. Entretanto, devo lembrá-lo que o Russell não rejeita a espiritualidade como uma experiência válida. O que ele quis dizer foi que para se ser feliz, ela não é uma condição sine qua non. Podemos ser felizes a despeito dela.
Qualquer filósofo que emita uma opinião sobre alguma coisa relacionada apenas à matéria, não prevendo a existência do espírito, transforma este comentário em algo extremamente limitado, incompleto e equivovado. A isso se chama: ateísmo/materialismo. NÃO SE SUSTENTA!