Como os Dados Aconteceram: A Genealogia da Quantificação e o Advento do Governo Algorítmico
- carlospessegatti
- 5 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

Da razão estatística ao capitalismo de vigilância: uma arqueologia crítica da sociedade dos dados
O advento da sociedade dos dados representa um dos fenômenos mais significativos da modernidade tardia, transformando radicalmente as formas de conhecimento, de poder e de subjetivação. O livro How Data Happened: A History from the Age of Reason to the Age of Algorithms (2023), de Chris Wiggins e Matthew L. Jones, oferece uma narrativa histórica rigorosa dessa trajetória, delineando os marcos fundamentais que levaram da quantificação iluminista à consolidação de sistemas algorítmicos capazes de moldar condutas e regular o social em escala planetária.
1. A quantificação da vida como projeto moderno
Desde o século XVIII, o projeto iluminista apostou na possibilidade de descrever e governar o mundo a partir de procedimentos racionais e métricos. O surgimento da estatística moderna, das práticas censitárias e dos dispositivos de cálculo populacional consubstanciou o que Michel Foucault denominou de “biopolítica”: uma racionalidade governamental voltada para a administração e o controle das populações, não mais apenas pela soberania sobre os corpos, mas através da gestão de séries e regularidades estatísticas.
Neste contexto, os dados emergem como tecnologias de poder, que permitem não apenas conhecer, mas também intervir preventivamente sobre o social.
Como mostram Wiggins e Jones, a quantificação não se limita a uma ferramenta epistemológica, mas constitui um operador político fundamental na constituição do Estado moderno e de suas práticas administrativas.
2. Da estatística à cibernética: o surgimento do paradigma informacional
Com o avanço das tecnologias computacionais no século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, a relação com os dados adquire novos contornos. A emergência da cibernética e da teoria da informação transforma os dados em fluxo, possibilitando sua circulação e processamento em tempo real.
Essa transformação técnica é acompanhada por uma mutação política: o surgimento do que Gilles Deleuze chamou de “sociedades de controle”, nas quais o poder opera de maneira dispersa e contínua, através de dispositivos que capturam e modulam comportamentos.
A passagem das estatísticas estáticas para os sistemas dinâmicos de dados cria as condições para o desenvolvimento de algoritmos capazes não apenas de representar a realidade, mas de antecipá-la e, cada vez mais, de produzi-la performativamente.
3. A era do governo algorítmico: dados como infraestrutura do social
Na contemporaneidade, a ubiquidade dos dados redefine a própria estruturação do social. Modelos algorítmicos orientam decisões que vão da alocação de recursos públicos à avaliação de crédito, da seleção de conteúdos nas redes sociais à gestão do trabalho em plataformas digitais. Como argumenta Shoshana Zuboff, estamos diante do advento do capitalismo de vigilância: um regime econômico que extrai valor da captura sistemática de dados comportamentais, convertendo-os em predições comercializáveis.
Nesse cenário, os dados deixam de ser uma representação do real para se tornarem uma infraestrutura material e simbólica sobre a qual a vida social é organizada. Os algoritmos, operando como dispositivos opacos, automatizam decisões e naturalizam formas de discriminação, exclusão e reforço de desigualdades.
4. A crise da autonomia e a questão da subjetividade
As implicações desse regime informacional ultrapassam as dimensões econômicas e políticas, afetando diretamente as formas de subjetivação. Como destaca Byung-Chul Han, a sociedade do desempenho e da transparência intensifica processos de autoexploração, onde os sujeitos, convertidos em fontes incessantes de dados, internalizam as lógicas do controle algorítmico.
A subjetividade torna-se, assim, cada vez mais moldada pelos sistemas de recomendação, pelas métricas de engajamento e pela economia da atenção. A racionalidade algorítmica produz uma ontologia do previsível, corroendo as margens de indeterminação e de criação que caracterizavam a experiência humana.
5. Para além da crítica: a urgência de pensar alternativas
A obra de Wiggins e Jones não apenas nos convida a historicizar o processo de constituição da sociedade dos dados, mas também a interrogar suas consequências e possibilidades. Frente ao avanço do governo algorítmico, torna-se urgente pensar alternativas ético-políticas que possam reconfigurar nossa relação com os dados, afirmando princípios de justiça, transparência e autonomia.
Projetos de regulação da inteligência artificial, iniciativas de soberania digital e movimentos pela proteção de dados pessoais são algumas das respostas que emergem nesse cenário, embora ainda insuficientes diante da magnitude e da velocidade das transformações em curso.
6. Considerações finais: a atualidade da crítica marxista e a tecnopolítica do presente
A partir de uma perspectiva marxista, é possível compreender a centralidade dos dados como expressão da atual fase do capital, onde a mercantilização atinge não apenas os produtos do trabalho, mas a própria vida cotidiana, transformada em insumo para a acumulação. A crítica da sociedade dos dados, portanto, não pode se restringir a uma dimensão técnica ou ética, mas deve articular-se a uma análise das estruturas sociais que sustentam e reproduzem essas dinâmicas.
Em tempos de acelerada automatização e de intensificação das desigualdades, o debate sobre a história e os usos dos dados assume uma relevância estratégica para a construção de um horizonte emancipatório. How Data Happened é, nesse sentido, uma leitura fundamental para todos aqueles que buscam compreender e intervir criticamente nas tecnopolíticas do presente.





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