Dicas de Leitura
- carlospessegatti
- 20 de mai. de 2025
- 5 min de leitura

1. The Crisis of Narration – Byung-Chul Han (2024) - Han explora como a era digital fragmenta as grandes narrativas que antes estruturavam a experiência humana. Ele argumenta que a sobrecarga de informações e a aceleração do tempo dissolvem a coesão narrativa, afetando nossa capacidade de compreender o mundo de forma integrada.
2. Psychopolitics: Neoliberalism and New Technologies of Power – Byung-Chul Han (2025) - Nesta obra, Han analisa como o neoliberalismo utiliza tecnologias digitais para exercer um controle psicológico sutil sobre os indivíduos, transformando a liberdade em uma forma de dominação.
🧩 Impactos da Revolução Tecnológica e Big Techs
3. The AI Con: How to Fight Big Tech's Hype and Create the Future We Want – Emily M. Bender e Alex Hanna (2025) - As autoras desmascaram os exageros em torno da inteligência artificial, argumentando que muitas promessas são infundadas e servem para mascarar práticas exploratórias e antidemocráticas das grandes empresas de tecnologia.
4. The Internet Con: How to Seize the Means of Computation – Cory Doctorow (2023) - Doctorow propõe estratégias para desmantelar o poder monopolista das Big Techs, defendendo a interoperabilidade e o controle democrático sobre as infraestruturas digitais.
5. The Tech Coup: How to Save Democracy from Silicon Valley – Marietje Schaake (2024) - Schaake alerta para a influência desproporcional das empresas de tecnologia sobre as democracias, defendendo uma regulação robusta para preservar a soberania digital e os direitos civis.
6. Code Dependent: Living in the Shadow of AI – Madhumita Murgia (2024) - Murgia revela como a inteligência artificial depende de trabalho humano invisível e mal remunerado, especialmente em países em desenvolvimento, destacando as implicações éticas e sociais dessa dependência. The Times
7. Chokepoint Capitalism – Rebecca Giblin e Cory Doctorow (2022) - Os autores analisam como as grandes corporações controlam os mercados criativos, restringindo a liberdade dos artistas e trabalhadores culturais, e propõem soluções para recuperar a autonomia nesse setor.
🧬 Democracia, Dados e Poder
8. How Data Happened: A History from the Age of Reason to the Age of Algorithms – Chris Wiggins e Matthew L. Jones (2023) - Esta obra traça a evolução histórica do uso de dados, desde o Iluminismo até a era dos algoritmos, examinando como a quantificação da vida humana moldou políticas públicas e práticas de vigilância.
9. Autocracy, Inc.: The Dictators Who Want to Run the World – Anne Applebaum (2024) - Applebaum investiga como regimes autoritários colaboram globalmente para minar as democracias, utilizando tecnologias digitais para controle e propaganda.
10. Plurality – Audrey Tang e E. Glen Weyl (2024) - Os autores propõem um modelo de democracia digital participativa, onde tecnologias emergentes são utilizadas para fortalecer a deliberação coletiva e a inclusão cidadã.
🔍 Obra escolhida para aprofundamento:
The AI Con: How to Fight Big Tech's Hype and Create the Future We Want de Emily M. Bender e Alex Hanna (2025)
🎯 Por que essa obra?
Porque ela representa, com muita clareza e contundência, o confronto direto entre pensamento crítico e o discurso hegemônico das Big Techs. Ao invés de aceitar o “futurismo automático” vendido por essas empresas, as autoras desconstroem a mitologia em torno da inteligência artificial — mostrando que o "avanço" muitas vezes é um verniz técnico que encobre práticas econômicas extrativistas, desiguais e autoritárias.
Além disso, Emily Bender (linguista) e Alex Hanna (socióloga) trazem uma rara intersecção entre linguagem, política, economia e tecnologia, revelando como a IA é sustentada por uma cadeia invisível de trabalho humano precarizado, sobretudo no Sul Global. Isso dialoga diretamente com sua crítica marxista à exploração e à alienação no mundo digital contemporâneo.
“O Grande Truque da Inteligência Artificial: Como o Hype Tecnológico Encobre a Nova Face do Capitalismo” - Uma análise crítica do livro The AI Con, de Emily M. Bender e Alex Hanna
📘 1. RESUMO EXPANDIDO DA TESE DAS AUTORAS
Emily M. Bender e Alex Hanna unem forças para desmontar o discurso dominante em torno da Inteligência Artificial (IA), revelando que o que é vendido como “tecnologia futurista e autônoma” na verdade repousa sobre uma infraestrutura de exploração humana e extração de dados. Para as autoras, a chamada “IA” não é inteligente nem autônoma — é apenas uma interface automatizada construída sobre o trabalho de milhares de pessoas invisíveis.
Elas descrevem esse fenômeno como um teatro de autossuficiência tecnológica, onde grandes corporações (como Google, Meta, OpenAI, Amazon e Microsoft) ocultam o trabalho humano real, muitas vezes executado por trabalhadores precarizados no Sul Global, para manter a aura de “magia tecnológica”.
O “Con” (golpe) do título refere-se justamente a essa mistificação — uma combinação de retórica de marketing, futurismo distópico e apagamento de estruturas sociais e materiais que sustentam a IA.
🧱 2. CONEXÕES COM MARX E O TRABALHO INVISÍVEL
A obra se conecta fortemente com o pensamento marxista — especialmente no que diz respeito à crítica da alienação do trabalho e da extração de mais-valia. O que vemos na era da IA é um novo estágio do capitalismo digital, onde:
O trabalho humano é ocultado: tarefas como rotulação de dados, moderação de conteúdo e treinamentos de algoritmos são feitas por humanos, mas apresentadas como "inteligência artificial".
A mais-valia é maximizada pela opacidade: ao invisibilizar os trabalhadores e apagar os vínculos materiais da tecnologia, as Big Techs aumentam seus lucros com menor resistência social.
O capital se apropria da linguagem: transformando conceitos como “inteligência”, “aprendizado”, “criatividade” e “decisão” em termos aplicáveis a máquinas, o capital invade os domínios simbólicos da consciência humana.
Nesse sentido, a IA torna-se uma nova mercadoria-fetiche — revestida de autonomia e mistério, mas profundamente enraizada nas relações de produção capitalistas globais.
⚖️ 3. IMPLICAÇÕES POLÍTICAS E ÉTICAS
Bender e Hanna argumentam que o hype tecnológico ameaça as democracias contemporâneas de várias formas:
Concentração de poder: um pequeno número de empresas domina a produção, regulação e direção do desenvolvimento tecnológico.
Colonialismo de dados: dados de pessoas de todo o mundo são extraídos sem consentimento ou compensação, gerando assimetrias globais.
Tecnocracia sem accountability: decisões tomadas por sistemas automatizados (em crédito, vigilância, saúde, educação, policiamento) substituem critérios humanos e políticos.
Privatização da linguagem: as corporações passam a controlar os meios de produção e circulação do discurso público, alterando a própria estrutura do conhecimento.
🧠 4. CRÍTICA À LINGUAGEM MITOLÓGICA DAS BIG TECHS
Um dos capítulos mais brilhantes do livro está na crítica à linguagem usada pelas corporações tecnológicas. Palavras como:
“inteligência”
“aprendizado”
“compreensão”
“criatividade”
…são usadas metaforicamente, mas o público leigo (e mesmo jornalistas) muitas vezes as tomam como literais, o que gera confusões cognitivas e sociais. As autoras denunciam essa estratégia como uma forma de manipulação semântica — uma “política da linguagem” — que atribui qualidades humanas a sistemas estatísticos opacos, gerando confiança indevida, medo infundado ou fascínio acrítico.
🛠 5. PROPOSTAS DAS AUTORAS PARA UMA TECNOLOGIA DEMOCRÁTICA
As autoras não se limitam à crítica. Elas propõem caminhos para construir tecnologias mais justas:
Transparência radical: tornar público quem são os trabalhadores envolvidos no treinamento da IA, quais dados são usados, como são tratados.
Regulação estatal e internacional: frear os monopólios digitais com leis antitruste, ética algorítmica obrigatória e fiscalização efetiva.
Infraestruturas públicas de dados: construir espaços coletivos de armazenamento e uso de dados que sirvam ao bem comum e não ao lucro.
Tecnologias centradas na comunidade: estimular soluções tecnológicas locais e participativas, ao invés de modelos globais extrativistas.
✍️ CONSIDERAÇÕES FINAIS
The AI Con é um livro essencial para quem deseja compreender a verdadeira natureza do mundo tecnológico contemporâneo. Ele desmonta o discurso dominante com rigor intelectual, denúncia política e clareza didática. Ao fazer isso, entrega ferramentas para que possamos resgatar o controle democrático sobre um futuro que ainda pode ser moldado.
É um chamado urgente para recuperar a consciência crítica e não deixar que o imaginário da máquina suplante os direitos do humano.




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