Dorian Gray: o retrato da alma em decomposição
- carlospessegatti
- 14 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

Hedonismo, vaidade e o vazio existencial em O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde
Publicada originalmente como folhetim em 1890 e depois em formato de livro em 1891, O Retrato de Dorian Gray permanece como a mais inquietante e atemporal obra de Oscar Wilde. Mais do que um romance sobre juventude, beleza e moralidade, trata-se de uma crítica mordaz à superficialidade da vida moderna e ao hedonismo que permeava — e ainda permeia — a cultura ocidental.
A frase atribuída a Wilde no livro — “O prazer é o único propósito. A felicidade verdadeira? Ela não existe.” — sintetiza de forma incisiva a tensão que atravessa toda a narrativa: a busca desesperada pelo prazer como fim último da existência e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de alcançar a verdadeira felicidade dentro dessa lógica sensorial e imediatista.
Wilde, com seu olhar aguçado para as contradições humanas e sociais, enxerga no culto à beleza e à juventude uma armadilha. Ao invés de oferecer plenitude, esse culto leva à dissolução interior. A figura de Dorian Gray, que permanece fisicamente intacta enquanto seu retrato acumula as marcas da decadência moral, simboliza o distanciamento entre aparência e essência — entre o corpo que goza e a alma que apodrece.
O hedonismo como armadilha
Em Dorian Gray, Wilde não celebra o hedonismo; ele o destrincha com ironia e crítica. O prazer, quando elevado a princípio absoluto, revela-se insuficiente e perigoso. Dorian, ao seguir os ensinamentos de Lord Henry — personagem que representa a filosofia da estética pela estética, do prazer pelo prazer —, afasta-se de qualquer valor duradouro, mergulhando em um abismo de corrupções e excessos.
Esse prazer cultivado como propósito exclusivo escancara uma verdade inquietante: o prazer é momentâneo, volátil, e não oferece sustentação para a construção de uma vida com sentido. O hedonismo, desprovido de ética e reflexão, produz não libertação, mas escravidão. Wilde nos mostra que a indulgência estética pode ser tão opressora quanto qualquer moralismo repressivo.
A impossibilidade da felicidade superficial
A segunda parte da frase — “A felicidade verdadeira? Ela não existe.” — traz à tona a constatação trágica de que, quando desconectada de vínculos autênticos, de valores mais profundos ou de uma busca interior, a felicidade se torna inalcançável. Em Wilde, a felicidade não é negada em essência, mas sim em sua versão adulterada, reduzida ao gozo imediato.
O retrato de Dorian torna-se metáfora viva da dissociação entre a experiência estética e a integridade da alma. À medida que ele se entrega à beleza, à luxúria e ao poder que sua juventude eterna lhe confere, sua consciência vai sendo corroída, e o vazio se instala. Não há crescimento espiritual, não há autoconhecimento — apenas negação, orgulho e uma queda inevitável.
A crítica à sociedade do espetáculo
A obra de Wilde antecipa, com impressionante lucidez, os dilemas da sociedade contemporânea: o narcisismo, o culto à aparência, a ilusão de permanência da juventude e a recusa em lidar com as marcas do tempo. Em Dorian Gray, vemos uma sociedade que confunde prazer com felicidade, beleza com bondade, e aparência com verdade.
A crítica de Wilde ultrapassa o indivíduo e aponta para uma cultura inteira fundada sobre valores ilusórios. Sua ironia, fina e implacável, não se limita ao protagonista: ela se estende à aristocracia ociosa, à moral burguesa hipócrita e ao niilismo disfarçado de elegância.
Entre o gozo e a ruína
Wilde não oferece respostas fáceis. Ele não prega moralismos nem defende uma vida ascética. Ao contrário, reconhece a atração do prazer e a beleza como dimensões legítimas da existência. Mas também nos alerta: quando isoladas do autoconhecimento, da compaixão e da responsabilidade moral, essas dimensões conduzem inevitavelmente à ruína.
O trágico destino de Dorian é, em última instância, um espelho. Não de sua beleza preservada, mas daquilo que escolhemos ignorar em nós mesmos: a finitude, o sofrimento e a necessidade de transformar desejo em sabedoria.
Uma advertência atemporal
O Retrato de Dorian Gray permanece como uma advertência contra a banalização da experiência humana. A juventude passa. A beleza se esvai. O prazer, por mais intenso, não preenche o abismo da existência. Wilde nos lembra que a alma, embora invisível, também se desgasta — e que é ela, e não o corpo, que carrega o retrato mais fiel de quem realmente somos.





O retrato de Dorian Gray escrito no sec. XIX descreve o hedonismo sempre atual. O espelho mostrava aquilo que a ciência espírita chama de perispírito.