🌑 Ecos Eternos de um Lado Escuro
- carlospessegatti
- 23 de jul. de 2025
- 5 min de leitura

SÉRIE: DISCOS ANTOLÓGICOS
Dark Side of the Moon e a construção de um monumento sonoro fora do tempo
Há discos que envelhecem. Outros desaparecem nas brumas da memória coletiva. Mas existem aqueles raros álbuns que, ao serem lançados, parecem fundar um espaço próprio no tecido do tempo — como se tivessem sido compostos fora dele. É o caso de The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, lançado em 1º de março de 1973, e que, desde então, nunca deixou de pulsar como um coração cósmico no peito da música contemporânea.
Mais do que uma obra do rock progressivo, Dark Side é uma meditação sonora sobre a finitude, o medo, a loucura, o tempo, a ganância e a morte. Não à toa, há quem diga que, se tivesse que passar o resto da vida em uma ilha deserta com apenas um disco, seria este o escolhido. E por quê? Porque há algo no álbum que transcende o gênero, a época e até mesmo o formato de escuta. Ele fala diretamente à consciência — não só a do ouvinte individual, mas à consciência de uma era.
🌌 Um álbum ou um planeta?
Desde a batida cardíaca que inicia “Speak to Me” até a respiração final de “Eclipse”, o que se ouve é uma narrativa circular, cósmica e existencial, estruturada como uma viagem interior. Cada faixa parece girar em torno de uma gravidade invisível, como planetas orbitando uma estrela escura. Não há excessos instrumentais ou solos gratuitos — tudo serve à arquitetura do som e do significado.
A genialidade do Pink Floyd aqui não é apenas técnica ou musical. É conceitual. O grupo cria um espaço imersivo onde som, silêncio, palavra e ruído se misturam como ondas mentais, espelhos da condição humana. A loucura de “Brain Damage”, a passagem implacável do tempo em “Time”, a crítica afiada em “Money”, e a rendição quase mística em “The Great Gig in the Sky”, cantada por Clare Torry como se fosse a voz da alma em êxtase e desespero — tudo se entrelaça.
📀 Um disco eterno em formato mutante
Lançado originalmente em vinil, The Dark Side of the Moon nunca saiu de catálogo. Foi relançado em múltiplos formatos: fita cassete, CD, mini-disc, DVD-Audio, SACD e até em edições imersivas em Blu-ray Atmos. Cada nova versão trouxe não apenas melhorias de áudio, mas também reafirmações da sua atemporalidade.
Nas celebrações de seus 30, 40 e 50 anos, não foi apenas a indústria que comemorou — foi uma legião de ouvintes, de diferentes gerações, culturas e idiomas, que se reconheceram nessa paisagem sonora feita de pulsações, teclas flutuantes, guitarras líquidas e ecos existenciais.
🎧 Rock progressivo ou algo além?
Há debates sobre se o disco é ou não “rock progressivo”. Mas talvez essa discussão perca sentido quando se trata de uma obra que ultrapassa qualquer enquadramento estilístico. Se há progressividade aqui, ela não está apenas na forma musical, mas na forma de pensar o som como um campo de experiência mental e sensorial.
O Pink Floyd, neste disco, oferece uma escuta que é cinematográfica, meditativa e filosófica. Uma escuta que não busca a performance, mas a presença. E que não se encerra em si, mas se abre como um portal.
🌠 Uma obra-prima que escuta o ouvinte
Se The Dark Side of the Moon continua a fascinar, é porque ele não apenas fala ao ouvinte — ele o escuta. Escuta seus medos, suas angústias, sua busca por sentido. É como se cada batida, cada lapso, cada acorde sussurrasse: “Você não está sozinho nesse mistério chamado existência.”
E por isso ele é eterno. Porque enquanto houver alguém perguntando o que é o tempo, o que é a morte, o que é a mente — haverá um disco à sua espera.Um disco que bate como um coração na escuridão.Um disco chamado The Dark Side of the Moon.
MÚSICAS QUE FAZEM PARTE DESTA OBRA PRIMA
1. Speak to Me / Breathe (In the Air)
Mensagem: Uma introdução etérea que se funde com Breathe, convidando o ouvinte a refletir sobre a vida cotidiana e sua monotonia. A letra fala sobre como somos pressionados a seguir um caminho pré-determinado e nos alerta para a perda da liberdade individual ao viver mecanicamente.
Trecho marcante:
“Run, rabbit run / Dig that hole, forget the sun”
“Corra, corra como um coelho / Cave aquele buraco, esqueça o sol”
2. On the Run
Mensagem: Uma peça instrumental com vocais e efeitos eletrônicos. Representa a ansiedade e o estresse da vida moderna, especialmente o medo de viajar e a passagem do tempo. É como um pesadelo sonoro de paranoia e fuga.
Sem letra, mas com falas como:
“Live for today, gone tomorrow, that’s me...”
”Viva o hoje, amanhã já era, esse sou eu...”
3. Time
Mensagem: Um hino sobre como deixamos o tempo passar sem perceber sua importância até que seja tarde. A música descreve a juventude desperdiçada e a inevitabilidade da morte.
Trecho marcante:
“And then one day you find / Ten years have got behind you / No one told you when to run / You missed the starting gun”
“E então um dia você descobre / Dez anos se passaram / Ninguém lhe disse quando correr / Você perdeu o tiro de largada”
4. The Great Gig in the Sky
Mensagem: Uma reflexão sobre a morte, expressa inteiramente através de uma performance vocal emocional de Clare Torry, sem letras cantadas propriamente, mas com vocalizações viscerais e dramáticas.
Trecho falado:
“I’m not afraid of dying. Any time will do, I don’t mind.”
"Não tenho medo de morrer. Qualquer hora serve, não me importo."
5. Money
Mensagem: Uma crítica ao materialismo e à ganância capitalista. O dinheiro é retratado como uma ilusão de poder que, no final, traz mais divisão do que união.
Trecho marcante:
“Money, it’s a crime / Share it fairly but don’t take a slice of my pie”
“Dinheiro é um crime / Divida-o de forma justa, mas não pegue uma fatia da minha torta”
6. Us and Them
Mensagem: Um lamento sobre a guerra, o preconceito e a alienação social. A letra fala das divisões entre povos e classes sociais, sugerindo que todas essas divisões são, em última análise, artificiais.
Trecho marcante:
“With, without / And who’ll deny it’s what the fighting’s all about?”
“Com, sem / E quem negará que é disso que se trata a luta?”
7. Any Colour You Like
Mensagem: Outra peça instrumental (com vocoder), simboliza a ilusão de escolha na sociedade moderna — onde parece haver liberdade, mas tudo é controlado.
Título inspirado em uma frase de Henry Ford:
“You can have any colour you like, as long as it’s black.”
“Você pode escolher a cor que quiser, desde que seja preto.”
8. Brain Damage
Mensagem: Fala sobre insanidade, inspirada em Syd Barrett, ex-membro da banda que teve colapso mental. Questiona a linha tênue entre a loucura e a lucidez.
Trecho marcante:
“There’s someone in my head, but it’s not me.”
“Há alguém na minha cabeça, mas não sou eu.”
9. Eclipse
Mensagem: Uma conclusão épica que junta todos os temas anteriores. Fala da totalidade da experiência humana — tudo o que sentimos, desejamos e tememos — e termina com uma frase simbólica.
Trecho marcante:
“And everything under the sun is in tune / But the sun is eclipsed by the moon.”
“E tudo sob o sol está em sintonia / Mas o sol é eclipsado pela lua.”
Us and Them





O The dark side of the moon deveria ser estudado e analisado em cursos de filosofia, psicologia, ciencias politicas, letras, etc.